Boris Becker nasceu para ser notícia. Nunca houve nada no antigo tenista alemão que fosse consensual, cinzento ou sem sal, abundando as polarizações, os arco-íris e a pimenta. Desde o momento em que se tornou o mais novo de sempre a ganhar em Wimbledon até ao dia em que foi preso, Boris Becker soube que nunca passaria despercebido. E assim continua.
Aos 57 anos, o alemão casou pela terceira vez no ano passado e está prestes a ser novamente pai, sendo que já tem quatro filhos com três mulheres diferentes. É comentador da Sky Italia, colabora com a Eurosport em diversas ocasiões, tem participações frequentes em programas de televisão e os naturais acordos comerciais e publicitários com várias marcas. Pelo meio, esteve preso durante 230 dias.
Em 2022, no Reino Unido, Boris Becker foi considerado culpado de ocultar e transferir ilicitamente centenas de milhares de euros e libras para não pagar as dívidas que acumulou após se ter declarado insolvente: transferiu centenas de milhares de uma conta profissional para outras contas, incluindo cerca de 465 mil euros para as ex-mulheres, não declarou vários bens na Alemanha e ocultou um empréstimo de 825 mil euros, assim como as ações que detinha numa empresa. Adicionalmente, usava a conta profissional como uma espécie de porta-moedas para o dia a dia, utilizando esse dinheiro para pagar os gastos diários e recorrentes e também as despesas escolares dos filhos.
Começou por cumprir pena em Wandsworth, a 20 minutos de carro do Centre Court de Wimbledon onde nos anos 80 conquistou três Grand Slam, e um mês depois foi transferido para Huntercombe, uma prisão para cidadãos estrangeiros. Acabou por ser deportado para a Alemanha em dezembro de 2022, voando literalmente para a liberdade a bordo do jato privado de um amigo, e está impedido de regressar ao Reino Unido desde então. Agora, para recordar os cerca de sete meses que passou na prisão, lançou “Inside: Winning. Losing. Starting Again”, um livro onde conta as partes menos cinematográficas da pena que cumpriu.
Em entrevista ao jornal The Times, tendo o novo livro como pretexto, Boris Becker revela que nos primeiros três dias em Wandsworth passou 22 horas diárias dentro da cela. As primeiras memórias só o levam para um sítio: gritos. “A primeira coisa que ouves é toda a gente a gritar. E não sabes porquê. Só pensava que alguém estava a matar-se. Estava borrado de medo”, começa por contar.
“Tens ataques de ansiedade. Respiras mais rápido, começas a chorar porque estás sozinho, ninguém pode ajudar-te. É tudo sujo à tua volta e só pensas ‘o que é que me aconteceu?’. Como é que é possível que depois da vida que tive e de todas as coisas boas que fiz estou em Wandsworth num sábado à tarde? Estou numa fila para receber comida e sei que o tipo à minha frente matou três pessoas com as próprias mãos e o tipo atrás de mim abusou sexualmente de miúdas. O que é que eu faço com isto?”, acrescenta.
Já em Huntercombe, o alemão dedicou-se a ensinar a língua nativa a outros reclusos, frequentava a missa semanalmente enquanto católico que é, teve aulas sobre estoicismo e limpava as casas de banho do ginásio. Uma rotina aparentemente pacata que não o impediu de arranjar problemas. Para além de ter perdido 500 libras a jogar póquer com um grupo de romenos, dívida que um amigo teve de pagar do lado de fora da prisão, apanhou um susto quando confrontou um recluso mais recente. O problema? O recluso estava condenado por homicídio qualificado.
“Vi-o a entrar na cela de um amigo, um traficante de droga chamado Ike, e decidi confrontá-lo. Mas parece que o Zac era um assassino. Disse-me que ia cortar-me a garganta, que ia matar-me. Felizmente, tudo aconteceu já perto de eu sair e nessa altura já tinha uma rede de segurança à minha volta”, recorda, já que foi salvo por um grupo de reclusos com quem entretanto tinha estabelecido uma relação mais próxima.
No livro, Boris Becker também aborda uma realidade muito própria do sistema prisional do Reino Unido: a inexistência de visitas conjugais. Quando foi preso, o alemão já namorava com a agora mulher, Lilian de Carvalho Monteiro, uma analista de risco que nasceu em São Tomé e Príncipe, sendo filha de um antigo ministro da Defesa do país, mas cresceu em Roma. “Depois de algumas semanas começas a perguntar como é que funciona essa situação. E toda a gente me dizia ‘Boris, esse é um dos tópicos de que ninguém quer falar’”, começa por referir.
I’m proud to finally reveal the cover of my book:
INSIDE.
Winning, Losing, Starting again.This is the most personal I’ve ever been. It’s a reflection on one of the toughest experiences of my life — including my time in prison — and everything that came before and after.… pic.twitter.com/BXLwyBmj7j
— Boris Becker (@TheBorisBecker) June 16, 2025
“Noutros países, incluindo em Itália, os reclusos têm direito a visitas conjugais por parte dos cônjuges. O facto de já ter mais de 50 anos ajudou, os rapazes mais novos devem trepar paredes. Para um ser humano, o sexo é um bocadinho como beber água ou comer. É parte de nós. Acho brutal que não seja permitido”, defende, vincando que os 230 dias em que esteve preso foram “obviamente” o período mais longo em que não teve relações sexuais.
Mantendo uma relação próxima com os filhos mais velhos, dois rapazes do primeiro casamento, Boris Becker não conseguiu replicar essa proximidade com os outros dois — uma rapariga, fruto de um caso extraconjugal, e um rapaz adolescente, do segundo casamento. Agora, prestes a ser pai pela quinta vez, garante que quer fazer as coisas de maneira diferente.
“Não estive por perto durante o crescimento dos meus filhos, seja por razões pessoais ou profissionais. Quero estar mais presente para o nosso bebé. Agradeço muito a Deus por ter tido outra oportunidade”, explica o alemão, que vive em Milão e vai diariamente ao Duomo, a mítica catedral da cidade. “Vou lá todos os dias e faço as minhas três orações. Agradeço a Deus pelo que tenho agora e pelo que ainda aí vem e peço-lhe que me ajude a manter-me forte, sábio e capaz de tomar as decisões certas”, conclui.