O economista e administrador financeiro Rui Mão de Ferro, que foi sócio de Carlos Santos Silva em algumas empresas, considerou-se esta terça-feira “enganado” pelo empresário amigo do ex-primeiro-ministro José Sócrates, na 14.ª sessão do julgamento do processo Operação Marquês.

“Quanto ao que sou acusado, sinceramente, sinto-me inocente. É-me por vezes dito ou é escrito que pratiquei o ato em função de… para beneficiar…”, começou por referir Rui Mão de Ferro, que responde em tribunal por um crime de branqueamento de capitais.

O arguido, de 59 anos, negou que tivesse uma relação de grande proximidade com Carlos Santos Silva e explicou que só começou a trabalhar com o empresário ligado ao grupo Lena em fevereiro ou março de 2009, alegando que entre 2009 e 2014 (quando ‘rebentou’ publicamente o caso Marquês) não tinha razões para desconfiar de Carlos Santos Silva.

“Trabalhava com Carlos Santos Silva e todos os atos que pratiquei nunca me pareceram estranhos”, afirmou, contando ter colaborado em vários projetos de cariz internacional, como em Angola, no Brasil, na Argélia ou na Líbia, mas não na Venezuela — uma das partes sobre a qual incide a acusação do Ministério Público por um alegado favorecimento de Sócrates a Santos Silva e ao grupo Lena.

Após uma questão da juíza presidente Susana Seca sobre se se sentia prejudicado pelo empresário, prosseguiu: “Se foram praticados atos que aparentemente são inócuos, num determinado contexto deixam de parecer… Sinto-me enganado por Carlos Santos Silva, sim“.

Confrontado com os depósitos em contas bancárias suas e posteriores levantamentos para entregar a Santos Silva, Rui Mão de Ferro defendeu que isso se deveu a uma mera questão de “conveniência” de acessibilidade aos bancos. “Se houvesse outra intenção, eu depositava na minha conta para levantar no dia seguinte?”, atirou, em tom retórico. Explicou ainda que não tinha conta no BES e que, como nesta instituição lhe era exigido ter conta para poder levantar dinheiro, optava por depositar na sua conta junto do Montepio e então levantar o dinheiro “um ou dois dias” depois.

Santos Silva pediu-lhe para comprar livros de Sócrates para o “manter politicamente relevante e ter muitos livros vendidos”

Em declarações perante o coletivo presidido pela juíza Susana Seca, no Juízo Central Criminal de Lisboa, o arguido criticou ainda Santos Silva por lhe ter pedido para comprar muitos exemplares do livro de José Sócrates, intitulado A Confiança no Mundo — Sobre a Tortura em Democracia, ridicularizando a situação como uma tentativa do antigo governante para “se manter politicamente relevante e ter muitos livros vendidos”.

“Foi-me solicitado por Carlos Santos Silva para comprar livros de José Sócrates. Estamos a falar de momentos temporais diferentes. Comprei alguns, achei uma parvoíce, mas pronto… Ele disse que ia haver o lançamento do livro e que era importante haver livros vendidos”, afirmou, continuando: “Comprei uns 100 ou 100 e tal livros. Transferiu-me mil e tal euros. Vi depois nos autos que até fui dos que comprei menos, fui o segundo que comprei menos livros”.

“Estranho? Achei petulante, estranho. Alguém que perdeu o poder e quer manter-se à tona da água. Tenho mestrado em ciência política, só não fiz a tese e fiquei com pós-graduação… Um livro daqueles não faz sentido estar a ver rankings, parece-me um pouco alucinado”, complementou.

Rui Mão de Ferro assegurou também que nunca ouviu o nome de José Sócrates nas empresas ligadas a Santos Silva para as quais trabalhou. Por outro lado, admitiu outras ligações, designadamente através da prova documental descoberta nas buscas à sua residência, em 2015, onde foi encontrada documentação ligada à mãe do ex-primeiro-ministro, Maria Adelaide Monteiro, à sua ex-mulher, Sofia Fava, e ao antigo motorista (e também arguido) João Perna.

“Nunca ouvi o nome de José Sócrates naquelas empresas, a não ser quando me pediram para fazer um contrato de trabalho para João Perna, para o legalizar por ele trabalhar aqui”, frisou, acrescentando que ajudou a elaborar esse contrato com o advogado (e também arguido) Gonçalo Trindade Ferreira.

“Comentava-se que o engenheiro Carlos Santos Silva era amigo de José Sócrates, mas não tive nenhum comentário ou interferência da parte dele”, indicou.

O economista defendeu também nunca ter sido sócio da XLM, uma empresa de Carlos Santos Silva, embora recebesse parte da sua remuneração por esta empresa, devido a uma atividade que prestava ao nível da avaliação de projetos e investimentos. Paralelamente, relativizou a imputação de que teria recebido cerca de 386 mil euros durante cinco anos. “Dividindo por mês e por cinco anos dá cerca de 3.900 euros. Não me parece que seja um vencimento que choque, para as funções e formação que tenho. Para o meu trabalho, qualificações, experiência”, comentou.

As ligações ao antigo motorista, à ex-mulher e à mãe de Sócrates

A presidente do coletivo abordou uma das provas que liga claramente Rui Mão de Ferro ao universo de figuras em torno de José Sócrates: a documentação encontrada nas buscas à casa do economista. Entre o acervo de provas recolhidas estavam um contrato de João Perna, antigo motorista do ex-primeiro-ministro, um currículo e um contrato de prestação de serviços da ex-mulher Sofia Fava ou documentos ligados a Maria Adelaide Monteiro.

“Soube posteriormente que era a mãe de José Sócrates”, reconheceu Rui Mão de Ferro, admitindo desconhecer esta terça-feira em tribunal que tinha papéis ligados a Sofia Fava: “Tinha presente documentos da mãe de José Sócrates e do motorista João Perna. Carlos Santos Silva disse-me que havia muita gente a entrar e sair do escritório e pediu-me para guardar uma pasta com coisas pessoais, terá sido no final de 2013/início de 2014″, observou.

Segundo o arguido, essa pasta foi-lhe entregue “vários meses antes da detenção” do ex-primeiro-ministro, em novembro de 2014, e garantiu não lhe ter mexido mais depois de a ter recebido de Santos Silva. “Estava por cima de uns livros no móvel da entrada. Cheguei, pus lá e desconhecia o que estava lá dentro”, acrescentou.

Assumiu que quer Sofia Fava quer João Perna tiveram contratos de prestação de serviços com a XLM, uma empresa que pertence a Carlos Santos Silva, e que ele próprio participou na conceção desses contratos, pormenorizando o caso do motorista. “Disseram que era preciso fazer um contrato para o João Perna, porque estava a trabalhar e era preciso legalizar.  Carlos Santos Silva disse que era o motorista que trabalhava com José Sócrates e que era preciso formalizar o contrato. Participei na elaboração de um contrato de duas páginas, a nossa intervenção foi elaborar a minuta. Não tive mais nenhuma participação”, explicou.

Destacou ainda que “a XLM era o engenheiro Santos Silva” e que a empresa não tinha instalações físicas. “Era onde ele estivesse”, disse, sublinhando que a XLM já existia quando começou a trabalhar com Carlos Santos Silva e que “na altura não havia motivo para dizer não” àquele pedido do empresário e amigo do primeiro-ministro.

Os contratos com o ghost writer e o blogger

Porém, as ligações a Sócrates não se esgotavam ali, uma vez que o tribunal confrontou também Rui Mão de Ferro com a elaboração de contratos com Domingos Farinho, alegado ghost writer do livro de Sócrates, e António Peixoto, blogger que faria elogios ao antigo primeiro-ministro.

Relativamente a António Peixoto, o arguido contou que Carlos Santos Silva lhe disse que não queria houvesse uma relação direta e que lhe pediu se o contrato podia ser elaborado através da sua sociedade RMF Consulting. “António Peixoto era uma pessoa completamente desconhecida. Não me pareceu estranho ou anormal, fiscalmente não estava a violar nada. Disseram-me que em termos pessoais era melhor não haver uma relação direta“, referiu, continuando: “No momento, não tinha motivos para desconfiar de Carlos Santos Silva”.

Em resposta posterior ao MP sobre este caso, confirmou ter estado “duas ou três vezes” com António Peixoto, mas vincou que esses encontros versaram sempre sobre “questões contratuais”, com a RMF a pagar-lhe 3.500 euros por mês, faturando depois esse valor à XLM de Santos Silva.

Assegurando que José Sócrates “era um não caso na altura” e que o antigo primeiro-ministro “não era uma questão na empresa”, Rui Mão de Ferro alegou que o que lhe foi dito é que António Peixoto seria “um especialista fiscal e que dava jeito ter alguém para responder” a eventuais dúvidas neste âmbito. Por sua vez, o economista explicou que com Domingos Farinho foi “uma situação semelhante” e que lhe foi transmitido que “era uma pessoa muito boa na área do direito”. “Para mim, estaria a trabalhar para Carlos Santos Silva e a XLM nos projetos internacionais. Não questionei”, observou.

O MP confrontou ainda o economista com uma série de documentos, como pedido de reservas de viagens em nome de Sandra Santos — identificada por José Sócrates já em tribunal como uma amiga sua e de Santos Silva — e do filho desta mulher. “Não tenho de todo presente ter tratado disto”, confidenciou. Ao todo, haveria três reservas, mas Rui Mão de Ferro assegurou que não fez três pedidos nesse sentido, concedendo a hipótese de ter feito apenas um pedido de reserva.

“Posso garantir que não fiz. Ou o meu nome estava de forma automática no pedido ou foram feitas todas no mesmo pedido ou então eu não fiz estes pedidos de viagens em três momentos distintos. Pedidos de três reservas não fiz. Se for um pedido para três reservas em momentos diferentes, posso admitir essa hipótese”, concluiu.

Rui Mão de Ferro vai continuar a prestar esclarecimentos ao tribunal na sessão de quarta-feira, agendada para as 9h30. Já para quinta-feira está previsto o arranque da inquirição das testemunhas, com a audição de um dos inspetores tributários que esteve na investigação.

(artigo atualizado às 20h15 com as declarações de Rui Mão de Ferro sobre outras figuras ligadas a José Sócrates)