O batalhão de fotógrafos que ocupava a zona em frente ao banco do Benfica denunciava algo “especial” para chegar, os vários adeptos vestidos a rigor que estavam empoleirados no acrílico que divide bancada e campo reforçava esse momento diferente na receção dos encarnados ao Rio Ave no Estádio da Luz. À semelhança do que acontecera na Vila das Aves, José Mourinho só chegou à zona técnica depois de todos os suplentes terem ocupado a sua posição mas nem por isso a distração com tudo o que estava a acontecer com a entrada das equipas desviou o foco de uma data que ficaria para a história: 25 anos depois, o treinador voltava a orientar as águias num encontro em casa. Houve muitas palmas, mesmo sem a receção apoteótica que se vira nessa partida com o AVS do passado sábado, e a esperança de que o atual rumo desportivo fosse invertido.
No final, não foi isso que aconteceu. Depois do triunfo na estreia para o Campeonato, Mourinho voltou a não ir além de um empate no primeiro jogo em casa – à semelhança do que tinha acontecido em 2000. Depois do último apito de Sérgio Guelho, da Associação de Futebol da Guarda, o técnico deslocou-se até à zona técnica contrária para cumprimentar o homólogo do Rio Ave, Sotiris Sylaidopoulos, e seguiu diretamente para os balneários. Não ficou para ouvir um primeiro coro de assobios por novo empate na Luz na Primeira Liga, não ficou para ouvir uma vaia maior à saída do árbitro de campo, não ficou para ouvir alguns tímidos aplausos à formação encarnada quando deixou o relvado, não ficou para ouvir algumas críticas que foram sendo lançadas para Rui Costa, presidente do clube da Luz que foi dos últimos a deixar a tribuna enquanto ia olhando para o ecrã que tinha à sua frente e falava com o agora vice-presidente da Federação, Toni.
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O desalento de Mourinho era bem visível, como se percebeu também no ar carregado com que passou pela zona de entrevistas rápidas da BTV e pela conferência de imprensa. Ao longo dos 90 minutos, os estados de espírito foram mudando mas, no final, era notório o impacto que o golo de André Luiz nos descontos tinha provocado, impedindo que o Benfica pudesse subir ao segundo lugar do Campeonato e, em paralelo, que chegasse ao clássico no Dragão com o FC Porto a poder subir de forma liderada isolada à liderança sem dependente dos resultados de azuis e brancos e Sporting na sétima jornada que se realiza no fim de semana.
Durante os minutos iniciais, José Mourinho, que nunca se sentou no banco durante a partida, manteve uma postura serena um passo à frente do limite da zona técnica. Mãos nos bolsos, um ou outro aplauso a ações da equipa, a perspetiva do que poderia dar um jogo que teve na sua antecâmara a colocação de uma coroa de flores por parte do capitão Nico Otamendi junto à bancada onde se concentra No Name Boys pelo assinalar dos 31 anos do acidente rodoviário que vitimou Gullit, Tino e Rita, elementos da claque que regressavam ao país depois de um jogo do Benfica na Croácia frente ao Hajduk Split. Depois, com o avançar dos minutos sem que a equipa conseguisse criar oportunidades de golo, a postura foi mudando – e foi aí também que começou a aparecer mais Simão Sabrosa, diretor do futebol que é delegado ao jogo e que se foi levantando em alguns lances de dúvida para falar ou com o árbitro assistente ou com o quarto árbitro.
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O intervalo chegou com outra queda na área de Dedic, com pedidos de penálti, e protestos pela compensação mas o momento que “virou” a postura do treinador dos encarnados foi outro, quando Aguilera ficou caído no relvado depois de um lance com Nico Otamendi (sem falta), o árbitro interrompeu o encontro para que o jogador do Rio Ave recebesse assistência médica e vários elementos dos visitantes foram a correr ao banco beber água e receber instrução do técnico Sotiris Sylaidopoulos. Mourinho não gostou da forma como o jogo estava parado, ficou a olhar para o banco contrário e questionou o quarto árbitro por gestos se no futebol já havia descontos de tempo antes de ser levado para a sua zona técnica por Simão Sabrosa.
Na segunda parte, Mourinho foi bem mais interventivo. Interventivo com os jogadores, como aconteceu em duas ocasiões em que ficou a protestar com a falta de velocidade de Richard Ríos para chegar à área para um canto, interventivo na área técnica com mais conversas com o quarto árbitro que visavam também a perda de tempo dos jogadores vila-condenses nas reposições de bola. No lance chave da partida, o golo anulado a António Silva por falta de Otamendi sobre Vrousai, andou de braços abertos na zona técnica após perceber que a jogada podia ser anulada pelo VAR e voltou a ter uma conversa com Simão Sabrosa enquanto João Tralhão e Ricardo Rocha, adjuntos, tinham parado de mostrar os desenhos com as colocações nas bolas paradas para Schjelderup e Lukebakio que estavam prontos para entrar em campo a 25 minutos do final.
Benfica, Golo Anulado, António Silva (VAR), 60m
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Os encarnados ganharam outras “asas” quando deram largura ao jogo ofensivo tendo dois alas, com o técnico a puxar com vários lances a aplaudir o estreante belga, que não teve problemas em assumir, ir para situações de 1×1 e tentar fazer a diferença a assistir ou a marcar. O golo de Sudakov a quatro minutos do final, depois de uma grande jogada na direita de Lukebakio, provocou uma “explosão” de alegria em todo o banco das águias, congelando também a entrada de Henrique Araújo e promovendo a troca do ucraniano por Leandro Barreiro para segurar a vantagem, mas o lance de inspiração de André Luiz pela direita do ataque onde já estava Aursnes como lateral acabou por fazer o empate que não mais voltaria a ser desfeito. Bem mais agitado na zona técnica, Mourinho acreditou até ao fim num golpe de teatro, continuou a bater palmas aos jogadores que em alguns casos já tinham quebrado em termos físicos mas nada mudaria até ao final.
O golo de Sudakov. ⚡ pic.twitter.com/oHcEQB9PVd
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“Primeira parte de pouco, segunda parte boa, dentro das nossas limitações. A segunda parte é dominante, agressiva, com oportunidades, sempre a jogar no campo adversário. Os dois jogadores que entraram [Dodi Lukabakio e Schjelderup] deram um cariz diferente ao jogo mas não digo que fizeram um jogo tremendo. Se isto é o novo futebol, em que se anulam golos por pisar um dedinho com um outro dedinho, não gosto deste novo futebol. Depois é o momento em que não se pode sofrer. É tremendamente injusto, é um resultado péssimo para nós. A primeira parte foi pobre mas a segunda parte foi boa. O jogo foi o que o Rio Ave quis e o árbitro permitiu, pouco podemos fazer em relação a isso. O que podemos fazer é jogar como jogámos na segunda parte”, começou por comentar José Mourinho na zona de entrevistas rápidas da BTV.
“O adversário jogou com cinco e com quatro, é difícil de entrar. Obviamente que uma equipa que joga assim não cria nada, marcaram um golo monumental, com mérito do rapaz. O Andreas [Schjelderup] tentou bastante, o Lukebakio não está nas melhores condições. Uma equipa que está a ganhar não sofre golos de transição. Também se sentiu alguma fadiga, pouca frescura, em algum jogadores. Não quis mudar muito porque não é momento de grandes mudanças mas sentiu-se, foi recompensado com uma boa atitude. Ganhar como iríamos ganhar quase no fim do jogo seria um boost enorme, assim é diferente. Agora só podemos tentar ganhar o próximo”, acrescentou ainda o técnico, projetando a receção ao Gil Vicente.
Mais tarde, na conferência de imprensa, o antigo campeão europeu por FC Porto e Inter admitiu que todas as reações à estreia no Estádio da Luz lhe foram passando ao lado. “Não senti. Eu no jogo não sinto, eu trabalho. Não senti. Não ser consensual fui eu o primeiro a dizê-lo, não preciso que o repitam. É muito difícil ser-se consensual. Não é algo que me preocupe porque não é algo que eu possa controlar. Se temos estofo ou não, vamos ver no final do Campeonato. Neste momento temos quatro pontos a menos que o FC Porto e menos um que o Sporting, considerando que estes são os candidatos ao título, não sei se Sp. Braga ou V. Guimarães se consideram, ainda falta muito. Falta muita coisa…”, salientou numa pergunta mais no fim.
“Na perspetiva de treinador do Benfica, não se pode sofrer aquele golo aos 90′, depois de 45 minutos de tanta qualidade, de um jogo tremendo. Fizemos tudo para ganhar. Marcámos um golo, não se pode sofrer um golo a ganhar 1-0. Pode sofrer-se um golo naquele momento mas de forma diferente, não onde o portador da bola, o Enzo ou o Ríos, se não me engano, e estão seis jogadores à frente da linha da bola. Ter apenas três jogadores ali é ingénuo. É ingénuo, é pouca experiência global e pouco entendimento do jogo. Devíamos ter circulado e sem perigo, o que fizemos de mal na primeira parte. Dói o resultado e a injustiça do mesmo, assim como a forma como sofremos o golo. Na primeira parte tivemos bola mas sem grande objetividade. Na segunda, com os jogadores que entraram, a equipa andou de outra maneira e começou a criar”, frisara antes.
Se isto é o futebol de hoje, se se anula um golo por um dedinho ter sido pisado ou por uma camisolinha ter sido puxada, não gosto deste futebol de hoje. Acaba por ser o protagonista do jogo o senhor que estava na Cidade do Futebol ao chamar o árbitro para ver aquilo que vimos e depois o árbitro não ter personalidade, que normalmente não têm. Quando vi que foi chamado já sabia que ia ser anulado. Na segunda parte fizemos de tudo. Não somos uma equipa com grande presença na área, nem física nem de características de área. Fizemos um bom golo. Perdemos dois pontos importantes”, resumiu, entre reparos à arbitragem de Sérgio Guelho.
“É o futebol atual, que não sou obrigado a gostar. Não gosto deste tipo de golo anulado, seja para um lado ou para o outro. Não quer dizer que esteja a ser crítico. Honestamente, não acho que seja golo para ser anulado. Um jogador [Ivanovic] que eventualmente simula fora da área, aos cinco minutos de jogo, leva cartão amarelo? Nem sei se simulou mas há jogadores que passam o jogo todo a retardar… Lá está, são critérios. Não gosto de ir por aí, não foi por aí, não foi pelo árbitro que não ganhámos. Responsáveis? O Rio Ave pela estratégia que utilizou ao nível emocional, de parar o jogo e retardar o jogo. Disse ao árbitro ao intervalo ‘Por que razão não dá um cartão amarelo a um guarda-redes ao minuto 15 ou 20?’. Porque se isso acontece, o jogo é completamente diferente. Os árbitros também têm responsabilidade de melhorar o futebol, como nós. Foi culpa minha também porque optei por jogar com esta equipa mas o Lukebakio não tinha condições para jogar muito mais do que aquilo que jogou”, referiu, realçando de novo a segunda parte.
José Mourinho volta a abrir o treino à imprensa.
Amanhã:
11h | Treino aberto à imprensa nos primeiros 15 minutos
15h | Conferência de imprensa pic.twitter.com/BKfNbAkxNg— Vai Benfica ???? (@vaibenfica1904) September 24, 2025
“Houve vontade de ganhar, de fazer as coisas bem, vontade de dar tudo e ser Benfica, que foi isso que fez esconder algumas limitações ao nível físico. Jogaram há dois dias. A forma como o trabalho foi gerido depois da pré-época é algo que não consigo identificar mas com este volume de jogos, de dois em dois dias, nota-se que faltou um pouco de frescura. Não quis mudar, quis dar sequência ao que fizemos no primeiro jogo. Na cabeça deles, aquele golo foi o golo da vitória e em vez de mudar o chip e entrar na dinâmica de que ‘Agora é para segurar’, não defendendo, mas com posicionamento diferente, foi o erro”, concluiu Mourinho.