Quando se enumeram as qualidades que definem o talento, não há vez que não se mencione a originalidade – uma característica que ninguém sabe definir com objetividade, porque, ao fim e ao cabo, todo o jogador de futebol viu jogar futebol antes e tentou imitar os seus ídolos, todo o escritor leu antes de publicar os seus romances e todo o músico cresceu a ouvir música e a aprender canções de outros. Há doze notas, na escala ocidental – quantas combinações são possíveis até se criar algo que nunca foi criado?

Estes dramas não existiam de forma tão pronunciada antigamente, mas hoje ganharam um carácter fundamental, não por amor à arte, antes porque existe o capitalismo: de há uns anos para cá, sucedem-se os casos de plágio em tribunal e até alguém com um som tão distinto como Pharrel Williams se viu acusado de plagiar Marvin Gaye em Blurred Lines (que, sim, soa vagamente a Marvin Gaye, mas soa muito a Pharrel); mas ouçam Surfin’ USA e comparem com Sweet Little Sixteen, canção de 1958, de Chuck Berry, e venham cá dizer que não é quase igual, nota por nota.

Dev Hynes tem uma característica muito curiosa: é um plagiador, mas um plagiador de si mesmo. Time Will Tell, a canção que fecha o segundo álbum de Blood Orange, Cupid Deluxe (de 2013), é uma reescrita de Champagne Coast, o disco de estreia. Talvez o auto-plágio seja aceitável, pelo menos do ponto de vista capitalista.

Se assim for, permitam-me parafrasear o que escrevi há dias, quando escolhi Essex Honey como um dos discos de agosto: ninguém sabe quem é Dev Hynes, mas toda a gente conhece a música de Dev Hynes, pelo menos esse espantoso single r’n’b que é Losing you, interpretado por Solange. Losing you é o que Dev Hynes faz para pagar as contas (isto é: escrever algumas das melhores canções pop do século XXI); mas Blood Orange é a marca sob a qual onde ele expressa aquilo a que aos romancistas costumam chamar “voz” – a qualidade indefinível que distingue uma obra de outra e que de imediato nos faz saber quem é o autor.

[o álbum “Essex Honey” está disponível na íntegra no Spotify:]

A música de Blood Orange baseia-se em princípios herdados do Prince inicial (as caixas de ritmos minimais, os synths, o drama) mas acrescentam uma série de elementos aparentemente desconexos e que fazem sentido apenas e só no contexto de Blood Orange: saxofones que produzem mudanças tonais radicais; cordas que cortam um tema a meio e o dividem em duas partes; guitarras herdadas da new wave.

Ele nunca se tinha exposto tanto como em Time Will Tell, a mais espantosa canção de amor do século XXI, a mais Prince das suas canções, piano e voz a descreverem uma daquelas relações em que alguém fica à espera (ou, para usar o termo técnico: dá espaço) de outrem sem saber se esse outrem regressará ou não. Mas a exposição em Essex Honey é diferente – está ligada à morte da mãe (em 2023) e é um regresso à sua infância em Essex, no Reino Unido, que se adivinha triste e traumática.

Hynes quis deixar para a assinatura Blood Orange as suas canções mais emocionalmente carregadas; algumas parecem por instantes deixarem-nos entrever a pessoa Hynes, para ele logo se esconder sob a capa dos temas que lhe interessam: ser negro, o movimento queer, direitos sociais. Não sendo explicitamente politizado (ou carregadamente politizado), esses temas acabam por unificar tematicamente os discos.

O Essex estava em Orlando, de Negro Swan, álbum que foi uma das raras ocasiões em que o Dev Hynes artista de culto nos permitia olhar para o Dev Hynes criança que cresceu em Essex – e ficávamos com a ideia de que havia sido vítima de bullying. Mas agora o Essex está por todo o lado e por todo o lado no Essex que Dev Hynes recorda está dor, a dor que normalmente os excluídos carregam.

[o vídeo de “The Field”:]

Musicalmente, estamos em pleno território Blood Orange: simultaneamente melódico e experimental, dançável e exploratório, como quem a qualquer momento pode desatar a dançar para expiar a tristeza. As suas habituais e inauditas justaposições surgem em cada esquina: Somewhere in between abre com uma linha de baixo à qual é anexada uma harmónica que soa a Stevie Wonder; surge um dedilhado de guitarra elétrica que remonta à new wave e uma daquelas melodias perfeitas em que Dev Hynes é perito; e eis que, quando esperamos que tudo se torne pop, que tudo cresça rumo a um refrão grandioso, aparece um saxofone que apaga o que veio atrás e inaugura um trecho absolutamente inóspito, dominado por cordas dissonantes.

Estas mudanças bruscas comportam uma espécie de carácter dissociativo, como se nunca pudéssemos encontrar conforto num trecho – a qualquer momento este pode acabar, ser trocado por outra banda-sonora das oscilações de humor de Hynes. Em The Field, são de novo os violoncelos a quebrar o breakbeat quase drum’n’bass que até aí dominara a canção. Ele e os coros cantam “Hard to let you go” e isto, com uma batida housezão 4/4 e o conjunto de drogas certo seria êxito massivo de clube.

Em Thinking clean, lembramo-nos da era do acid jazz, talvez pela combinação de piano e batida – e depois, como já terão adivinhado, há uma interrupção de violoncelo; por instantes, penso se Hynes não terá prazer em sabotar as suas canções: quando elas ameaçam aproximar-se de territórios mais mainstream ou fáceis ao ouvido ele está sempre pronto a tirar-nos o chão e fazer-nos despenhar (e depois, claro, a canção, cresce, cresce e cresce e é novamente interrompida).

Se Hynes sempre foi, por entre as caixas de ritmos e os synths à anos 80, um mestre do corte e da costura, aqui isso é levado ao extremo: The Train (King’s Cross), uma cantiga de tom pós-punk dissonante, que não ficaria mal num disco de Robyn Hitchcock, surge apenas duas faixas após Life, uma sorte de funk rastejante, com vozes em falseto, sax saído de um disco de Barry White e uma frase repetida: “I wanna see you naked”.

[o vídeo de “Countryside”:]

Nestas duas canções surgem as vozes de Caroline Pollacheck e da grande Tirzah – apenas duas das quase vinte colaborações presentes no disco. Isto é simbólico do estatuto que Hynes ocupa: ele é o compositor estranho que a malta mainstream aprecia, a quem encomenda canções menos para fazer êxitos (Losing you é a única excepção) e mais para terem um travo a experimentação nos seus discos. Ele é o tipo que podia ser mainstream, tem amigos mainstream, mas cuja natureza magoada o impede de fazer realmente parte dos miúdos fixes e bem-sucedidos. Champagne coast foi a única canção dos Blood Orange a atingir real sucesso e mesmo aí foi um acaso do Tik Tok.

Há partes de Scared of it que lembram Nirvana; em Mind Loaded, que abre com um dos pianos mais tristes que recordo, Lorde canta “Everything means nothing to me”, que é o título de uma das canções mais desesperadas de Elliott Smith (e a melodia é exatamente igual, sem tirar nem pôr). Mais à frente entrarão os breakbeats. O que fazer com isto? O que fazer com os mil Dev Hynes que Dev Hynes comporta?

A minha proposta de resposta não é um tratado de intelectualidade: amá-lo. Amá-lo com todas as suas contradições, o bravado e a vulnerabilidade, a melodia e a dissonância, a perfeição e a sabotagem. Porque, ao longo dos anos, o que Dev Hynes nos tem oferecido é uma viagem sem igual, não só às possibilidades de criar objetos musicais únicos num mundo sobrecarregado de música, como também aos lugares menos habitados da psique humana.

O tempo dirá qual o lugar de Hynes na cultura popular. Por enquanto, estou contente com esta resolução: amá-lo e aceitá-lo.