O antigo ministro das Finanças Mário Centeno alertou para a inexistência de uma “verdadeira margem orçamental” e acusou o executivo de Luís Montenegro de governar sob o discurso do medo sem dar explicações aos portugueses.

O economista reagiu às declarações do primeiro-ministro, Luís Montenegro, sobre o perigo de um novo resgate ao país e a recusa em ser o “pai da austeridade”, em entrevista ao programa Conversa Capital, da Antena 1 e do Jornal de Negócios.

“Quando o primeiro-ministro nos mete medo, o que é que ele sabe que nós não sabemos? Governar sob o medo é péssimo“, afirmou Centeno, desafiando o Governo a esclarecer exatamente de que tem medo e como pretende gerir as contas públicas.

De acordo com Mário Centeno, se Bruxelas não redefinir as metas orçamentais impostas ao país, o Estado terá de efetuar um corte de 12 mil milhões de euros nos próximos dois anos, e, defende, em vez de acenar com margens orçamentais inexistentes, o Governo devia explicar como resolverá esse défice estrutural.

O antigo governante rebateu a narrativa do saldo positivo, lembrando que o excedente reportado (0,5% do primeiro semestre) só surge ao contabilizar-se indevidamente o saldo da Segurança Social. Descontando esse fator, garante que as contas públicas enfrentam um “défice profundo”, o que inviabiliza a folga orçamental anunciada para custear novas medidas contra a inflação.

Centeno sublinhou que Portugal dispunha de excedentes que permitiriam gerir o atual momento de pressão económica, mas acusou o Governo de ter “desbaratado” essas almofadas orçamentais, em particular através da redução de impostos sem acautelar reservas financeiras.

Na análise às políticas para mitigar o aumento do custo de vida, o antigo ministro reprovou a redução do IRS e a atribuição de bónus pontuais a pensionistas adotadas pelo Governo, assim como as propostas da oposição como a taxa zero no IVA dos cabazes alimentares ou a descida do IVA nos combustíveis, defendidas pelo PS e pelo Chega.

Sobre a operação de compra de capital da REN, Centeno considera incompreensível o investimento de 400 milhões de euros mediante endividamento num contexto de juros e inflação elevados.

O antigo ministro do governo PS concluiu a entrevista com um aviso: “Estamos a brincar com o fogo na questão do endividamento“.