Agosto é uma maravilha, agosto é perfeito, agosto é praia, mar, marisco, nada de má onda, só biquíni e bola de Berlim. Para quem tem férias em agosto, claro – porque alguns de nós trabalharam o mês inteiro e trabalharam o dobro ou o triplo porque é preciso produzir o mesmo, mas com (muito) menos gente. Agosto é danado.
E assim se explica que os discos de agosto só cheguem agora – porque até agora estive ocupado a fazer o trabalho que devia ter ficado feito em agosto, quando todos foram de férias e eu ali fiquei a dar ao litro, sendo claro que o meu litro não foi suficiente. A boa notícia é que houve grandes discos em Agosto, enquanto vocês estavam de férias e eu, o Homem Mais Trabalhador do País, trabalhava por vocês. Aqui ficam cinco e são todos assim: ótimos.
“Essex Honey”
Blood Orange
Ninguém sabe quem é Dev Hynes, mas toda a gente sabe quem é Dev Hynes, porque toda a gente conhece Losing you, de Solange, escrita podem imaginar por quem e exemplo supremo da sua arte e versatilidade: partindo da soul, Hynes junta eletrónica, mesura melódica e experimentação para criar universos simultaneamente desafiantes e fascinantes. É possível que também conheçam Time will tell, editado sob o nome Blood Orange, que na realidade é o nome que ele adotou depois de ter editado como Lightspeed Champion.
Os álbuns de Blood Orange têm sempre um distinto travo a melancolia (pese embora haja também uma percentagem razoável de faixas dançáveis e/ou eufóricas), mas este Essex Honey vai mais fundo na tristeza – talvez porque surge na sequência da morte da mãe de Hynes, acontecimento que o conduziu a uma espécie de reflexão sobre a vida e a infância.
A abertura, com Look at you, é admirável, mas o disco está cheio de surpresas, como a irrupção quase drum’n’bass a meio de Thinking Clean, que depois é interrompida por um violoncelo. O disco, aliás, recorre a todo o tipo de instrumentação, piano (mais ou menos minimal, mais ou menos jazzy), harmónicas, metais, guitarras, breakbeats, toda a sorte de cordas – até sons diários, da rua, são usados.
O resultado é magnífico: canções em que o inusitado e o improvável assomam a cada instante, canções marcadas por mudanças de ritmo, mudanças tonais, no que é (talvez) o disco mais maduro de Hynes – e se normalmente falar em “maduro” na pop é insulto, neste caso é elogio. Enorme elogio.
“The New Eve Is Rising”
The New Eves
Buffy Saint-Marie acabou a renegar Illuminations (de 1969): o disco, uma mistura de folk psicadélica, experimental e furiosamente contraditório na sua exploração da espiritualidade (a título de exemplo: a letra de God is Alive, Magic is Afoot foi escrita por Leonard Cohen) era de uma intensidade e grau de blasfémia tal que Buffy sucumbiu ao seu próprio génio. Mas o disco tornou-se um culto e influenciou toda a gente que um dia resolveu fazer folk psicadélica, dos Califone a Haley Heinderickx, passando pelos Akron/Family.
Vocês sabem a que som me refiro: o tipo de álbum que tanto pode dedicar-se ao pacífico dedilhar de uma guitarra, como no segundo seguinte surgirem guitarras como serrotes ou um violino que mais parece um enxame de abelhas furiosas perante o ataque à rainha. E é exatamente nestas coordenadas que as The New Eves se movem, neste espantoso The New Eve Is Rising.
Curiosamente, soam a Buffy Saint-Marie em The New Eve, soam a Akron/Family na furiosa Highway man e depois são possuídos por uma batida tribal e coros na admirável Cow song. A voz prolonga as sílabas, há gritos, o ritmo acelera, os violinos enlouquecem e sentimos que estamos no meio da pradaria, prontos a matar os cowboys que vêm roubar as nossas terras – nesta imagem somos os índios, o que não faz muito sentido, pois a banda é de Brighton, Inglaterra, mas podem imaginar outra peleja que a metáfora funciona na mesma.
Discão daqueles que pedem voluma no 11.
“The Passionate Ones”
Nourished By Time
Quantas formas de brincar são possíveis com um sintetizador? Bom, a questão está mal colocada, porque no caso de Marcus Elliot Brown, aka Nourished by Time, e em particular deste The Passionate Ones, usam-se dezenas de synths (além de guitarras manipuladas e beats e samples,) o que lhe permite, dentro do que é, no seu cerne — r’n’b — brincar de maneiras muito diferentes de canção para canção.
“Tossed Away, por exemplo, aproxima-se da visão que Roy Ayers tinha do r’n’b e podia muito bem ter sido um êxito na voz de Barry White – e a voz aqui é importante, porque o barítono de Brown impõe respeito. Pensando bem, isto não tem de ser cantado exclusivamente por homens, Whitney Houston teria feito milhões com a cantiga. Mas ao fim de um minuto da canção anterior, BABY BABY, há uma espécie de refrão: a palavra “Baby” repetida dezenas de vezes, antes de entrar uma guitarra e regressar o beat acelerado que até aí dominara a canção.
Tematicamente o disco dedica-se ao sofrimento nas suas mais variadas formas: amoroso, existencial, abordando também aquela vertente chata que é ter de sobreviver e pagar contas num mundo capitalista, algo que é claro em canções como Max Potential, 9 2 5, Automatic Love e a supra-mencionada Baby Baby. Max Potential é uma maravilha, um quase pastiche da pop sintética dos anos 80 que arranca um tremendo refrão cheio de coros, grandioso, que faz do nosso coração um enchido de epicidade.
“Live Laugh Love”
Earl Sweatshirt
Álbuns enormes, com 18 canções, e meses depois uma edição deluxe, com mais 12 canções novas, tornaram-se a norma na era do streaming; o racional é simples: se uma canção pega, o artista pode ficar rico; de modo que quanto mais canções se fizer, mais hipóteses há de uma pegar e tornar-se viral.
Ninguém deve ter avisado Earl Sweatshirt disto, porque o seu quinto disco, Live Laugh Love despacha-se em 25 minutos e isso joga a seu favor (pelo menos para quem gosta de ouvir discos completos seguidos): quando o álbum chega ao fim, já temos saudades dele. E pela mais simples das razões: as canções são muito boas.
Tome-se FORGE, por exemplo: o beat é ótimo, há ali um sample meio indiano pelo meio, não existe forma alguma de resistir a isto. Exhaust tem uma batidinha suave, um balanço leve, delícia máxima: Ya love stank bitches that’s your fuckin’ problem, diz, deixando uma reflexão sobre a sexualidade heterossexualidade masculina.
Mas as raparigas não são obrigatoriamente o tema de Live Laugh Love: a vida doméstica, as responsabilidades, a dúvida acerca de si mesmo (What if I screw up?, rapa ele a dada altura), enfim, aquelas pequeninas coisas que nos fazem crescer mas ao mesmo tempo duvidar se estaremos à altura, esse é o tema do disco, servido com ótimos beats e fraseados de eleição de um dos rappers mais entusiasmantes do momento.
“Straight Line Was a Lie”
The Beths
Havia uma bandazinha de indie-rock, ali nos anos 80 e 90, chamada The Clean, que só meia dúzia de pessoas ouviram e que na minha modesta opinião sintetizaram o género na perfeição, ao ponto de cada vez que eu ouço uma nova banda de indie-rock pensar “Estes tipos ouviram os Clean”, seja pelo som de guitarra, pela forma blasé ou ligeiramente desafinada de entregar cada melodia, ou pelo emergir de um refrão iluminado no meio de uma torrente de eletricidade meia suja.
E basta uma canção, logo a primeira, homónima ao disco e perfeita, para concluirmos que se os Beths não ouviram especificamente os Clean então estudaram com muito cuidado a história do indie-rock porque está tudo aqui, as guitarras, o sobe-e-desce, os coros, as melodias, o feedback: que canção, minha gente.
Não é tudo assim, há espaço para guitarras acústicas, órgãozinhos vintage e muitos, muitos coros. A maravilhosa Metal é um exemplo de como usar guitarras gingonas no indie-rock, havendo ali uma figura de guitarra que lembra os Byrds (que são uma grande influência dos primórdios do indie-rock). E Mosquitoes um exemplo de como usar a folk-rock para criar aquela sensação de intimidade e doçura na qual os Belle & Sebastian eram especialistas nos primeiros discos.
Aposto que: não há um fã de indie-rock que não vá adorar Straight Line Was a Lie.