O Mundial de râguebi de 1995, que acabou com a vitória dos Springboks da África do Sul e com o presidente Nelson Mandela a entregar o troféu ao capitão François Piennar depois do triunfo frente à Nova Zelândia. O Campeonato do Mundo de futebol de 2010, com a África do Sul a ficar pela primeira fase mas a derrotar a antiga campeã França antes do triunfo da Espanha frente aos Países Baixos com um golo de Andrés Iniesta no prolongamento. Os Mundiais de ciclismo de 2025, no Ruanda. Quando se olha para aquilo que têm sido os grandes eventos desportivos em África, a paragem da elite do ciclismo pela primeira vez no continente em mais de 100 anos de história entrou para o top 3. Apesar do ceticismo pela escolha da UCI, tudo e todos não poderiam estar mais satisfeitos entre contratempos na organização – Mark Cavendish, apesar de agora já não correr, era um bom exemplo disso mesmo. No entanto, no oitavo dia de Mundiais, era “a sério”.

Para muitos, este era o traçado mais duro de sempre para coroar um campeão do Mundo: 267,5 quilómetros, 5.475 metros de desnível acumulado, calor, humidade, subidas que não sendo “paredes” iam deixando a sua mossa a cada passagem, o apoio incansável de milhares de pessoas que iam cantando e dançando ao longo de vários pontos do traçado (o país aproveitou de tal forma para potenciar o interesse na modalidade no país que um dos principais mercados tinha um plasma onde ia passando as várias provas ao longo da semana, do contrarrelógio ao fundo entre juniores, Sub-23 e elites masculinas e femininas). Eram 165 inscritos, alguns (ou vários) sabiam que não chegariam ao fim, dois em especial dariam tudo para acabar em primeiro.

Em condições normais, Tadej Pogacar e Remco Evenepoel iriam sempre centrar as atenções. Depois daquilo que se passou no contrarrelógio, ainda mais. É certo que o belga, que em Paris-2024 se sagrou bicampeão olímpico no contrarrelógio e na prova de fundo, tinha uma ligeira vantagem sobre o tetracampeão do Tour mas a imagem de Remco a dobrar Pogacar antes de seguir para a meta e coroar-se tricampeão mundial do contrarrelógio ficou como uma das imagens do ano de 2025. Agora, o esloveno queria apagar o episódio com a renovação do título mundial, ao passo que o belga espreitava a oportunidades para mais “surpresas”.

Mas havia mais para contar e para seguir. Quando ainda se fazia a volta inicial das 15 que existiriam ao longo do dia, com o foco em alguns dos pontos de maior interesse em Kigali como o Memorial do Genocídio que recorda o massacre de 1994 que vitimou quase um milhão de pessoas, as principais equipas mostravam que não tinham tempo desde início para “relaxar”, mostrando que todas as movimentações contavam quase com algum receio do que poderia acontecer a partir da passagem pelo monte de Kigali, que quase uma espécie de “separação” para o resto da prova. A França “atacava” mesmo tendo Julian Alaphilippe em dificuldades, a Espanha também queria andar na frente, todos tinham também em mente aquilo que tinha acontecido na prova feminina, com a canadiana Magdeleine Vallieres a conseguir surpreender a concorrência.

“Não escondemos que, com a indisponibilidade dos nossos dois melhores ciclistas para este tipo de percurso, será difícil ambicionar um lugar entre os 10 primeiros. Mas isso também abre uma oportunidade rara para quem normalmente trabalha na sombra poder assumir responsabilidades e aprender a gerir uma prova desta dimensão. Vamos tentar fazer o melhor que pudermos”, tinha destacado José Poeira, selecionador nacional, a propósito das ausências de João Almeida e Rui Costa (que farão os Europeus). “O percurso vai ser de uma dureza extrema, provavelmente o mais duro de sempre. O Ruanda é uma escolha algo atípica, pela altitude, o calor e a humidade. A organização, que está lá há meses, diz que tem tudo controlado e que não vai haver grandes problemas. Boas estradas, condições de saúde, cidade limpa. Confiemos que sim. Correndo bem, porque não voltar a África no futuro?”, acrescentara o técnico português antes da prova.

Afonso Eulálio, António Morgado, Ivo Oliveira e Tiago Antunes teriam tudo menos facilidades num percurso quase sem zonas planas, a fazer sentir a altitude e com um “bafo” que a partir de certa altura iria empurrar os corredores para trás. Ainda assim, e logo no início, houve um português em destaque: Ivo Oliveira conseguiu entrar na fuga que tinha também o suíço Fabio Christen, o alemão Marius Mayrhofer, o dinamarquês Anders Foldager, o francês Julien Bernard e o neerlandês Menno Huising e foi mesmo o primeiro a passar a meta na primeira volta do dia com 18.39 minutos percorridos, numa fase em que o pelotão deixou que a vantagem subisse a mais de um minuto. Entre os ataques ou tentativas, o espanhol Raul Garcia Pierna foi na perseguição e formou-se outro grupo com o mexicano Isaac del Toro ou o colombiano Tejada.

Conseguia perceber-se que algumas seleções não tão favoritas tentavam desgastar as super potências Bélgica e Eslovénia com maior dureza na corrida, conseguia perceber-se que o facto de não haver rádios ao longo da prova promovia movimentos que em condições normais não iriam acontecer, como a tentativa de ataque de Paul Seixas quando Julian Alaphilippe estava em dificuldades. Havia mais uma volta concluída, com Garcia Pierna a encostar na frente, Jai Hindley atrás a ter um furo e o pelotão a ter uma queda “feia” que levou ao chão nomes como Marc Soler (Espanha) ou Ilan van Wilder (Bélgica). Más notícias para Juan Ayuso e Remco, que perdiam elementos importantes para a fase crítica da corrida apesar da recuperação do belga.

O pelotão começava a apertar o ritmo, os corredores africanos também se começavam a tentar mostrar, Ivo Oliveira voltava a passar na frente entre os sete fugitivos quando foi concluída a terceira volta e eram já 20 os abandonos confirmados nesta fase da corrida. O pelotão estabilizara o tempo para os fugitivos, na casa dos 2.40/2.50 minutos, o ritmo foi tendo variações também por aquela queda a uma velocidade alta que deixou o aviso aos outros corredores, era hora de começar a desenhar todos os possíveis cenários para o momento das decisões. Havia uma certeza: a questão dos “blocos” poderia fazer a diferença mais no lançamento do que no resto, Austrália e EUA também trabalhavam para colocar corredores na frente para lutarem pela vitória, Isaac del Toro era um nome a ter em conta pela concorrência depois de um ano de 2025 fantástico.

Sam Ooden (Países Baixos) também já tinha desistido, Bjoern Koerdt (Grã-Bretanha) também não resistiu aos ferimentos da queda, Marc Soler e Ilan van Wilder viam os abandonos confirmados e, quando faltavam ainda mais de 185 quilómetros para o final, já tinham desistido 25 corredores. Patrick Byukusenge, mais um atleta da casa, também não aguentou e desistiu, sendo que nem isso fez com que dezenas e dezenas de pessoas nos cafés de Kigali perdessem o interesse na prova, como iam mostrando as imagens em direto do Eurosport. Seguíamos já com duas horas de corrida, faltavam ainda dez voltas, Ivo Oliveira continuava com Christen, Mayrhofer (que perdera entretanto mais um companheiro de equipa por desistência), Foldager, Julien Bernard, Huising e Garcia Pierna. Mais atrás, a 2.40 minutos, os favoritos iam “marcando-se”.

Quando ficaram a faltar apenas nove voltas para o final, sendo que estávamos também na antecâmara das “voltas grandes” que poderiam começar a fazer diferenças, a distância do pelotão para a fuga baixava de uma forma muito ligeira para 2.30/2.40 minutos, com a Bélgica a surgir na frente do principal grupo e com Tadej Pogacar a “assustar” numa paragem que foi depois feita também por Remco Evenepoel e que era apenas para ir à casa de banho portátil. Entre os restantes portugueses, Afonso Eulálio surgia na cabeça do pelotão na 25.ª posição, Tiago Antunes estava no 91.º lugar e António Morgado seguia no 107.º posto num grupo que ia ficando mais curto com as desistências (Lucas Plapp, da Austrália, também já ficara pelo caminho).

O Monte Kigali estava à vista, com a Eslovénia, que entretanto perdera três corredores (Jaka Primozic, Matevz Govekar e Matic Zumer) a chegar-se à parte dianteira do pelotão. Mais na frente, Ivo Oliveira era um dos resistentes, aguentando-se com Bernard e Foldager na fuga com dois minutos de avanço sobre o pelotão com quase quatro horas de corrida a quase 42 quilómetros por hora e com António Morgado a começar a descolar do grupo principal enquanto Afonso Eulálio e Tiago Antunes ainda resistiam. Todos os corredores que foram ouvidos pelo Eurosport antes do arranque da corrida apontavam o Monte Kigali como o ponto chave para definir como seria o resto da prova, Pogacar acrescentava que ganhar o Campeonato do Mundo era o segundo objetivo da época depois do triunfo no Tour mas que não iria revelar o seu “plano”. O “corte” já tinha levado cerca de 50 corredores à desistência mas o pior estava ainda para vir… e escalar.

A moldura humana era qualquer coisa impressionante, fazendo recordar aqueles bons velhos tempos das principais corridas europeias. As dificuldades, essas, eram notórias. Até as zonas que eram um pouco mais planas custavam a fazer, com a diferença do pelotão a baixar para 1.20 minutos e com quebras que tinham o condão de surpreender como aconteceu com os italianos Lorenzo Fortunato e Matteo Sobrero. A meio desse Monte Kigali, também Ivo Oliveira foi começando a ceder na frente, perdendo o andamento para Foldager (que também abriu para o lado pouco depois) e Bernard. Foram cerca de 150 quilómetros com o português na frente que terminavam quando o México atacava e a Eslovénia começava a tentar agarrar no ritmo da subida com vários elementos da UAE Team Emirates como companheiros… e agora adversários.

Com a inclinação a 11%, o grupo estava cada vez mais curto e com Pogacar a querer vir para a frente, num arranque onde ficou apenas com Ayuso e Uijtdebroeks a tentarem aguentar, Remco Evenepoel a não ter um esboço sequer de luta e alguns heróis a tentarem ainda fazer a ligação como Isaac del Toro ou Carapaz. Se no ano passado o esloveno tinha atacado a 100 quilómetros, agora foi a 104 quilómetros da meta para “partir” por completo o pelotão que anulara de vez a fuga e colocava Pogacar e Ayuso na frente com Del Toro ainda na luta para colar aos da frente. Depois do Monte Kigali, seguia-se o Muro Kigali, neste caso com um terreno mais empedrado que poderia favorecer ainda mais Pogacar. Curiosidade: era um trio 100% da Emirates (pelo menos até ao final da época, tendo em conta que o espanhol foi anunciado como reforço da Lidl-Trek).

A diferença era de 15 segundos quando começava o Muro Kigali, com Isaac del Toro a atacar e Ayuso a ficar pelo caminho a acusar o desgaste da perseguição a Pogacar no Monte Kigali. Mais: o mexicano parecia estar a colocar em xeque aquilo que era a superioridade do esloveno, que ainda conseguiu agarrar no companheiro de equipa mas que não ia propriamente nas melhores condições. Afonso Eulálio ainda andava no grupo de Remco, o russo Arthur Nych que venceu a Volta a Portugal era uma agradável surpresa, a dupla da frente tinha conseguido meter mais de meio minuto aos adversários, vantagem que passou para 47 segundos para o grupo onde estavam Roglic, Jay Hindley, Ayuso e Carapaz e para um minuto para Remco Evenepoel. A volta fora do circuito estava a terminar, os corredores voltavam onde tinham começado para mais seis voltas.

Só depois do regresso ao circuito inicial é que se percebeu o impacto que o esticão de Pogacar tinha dado. Um exemplo: quando se tentava perceber quem podia mexer para ir atrás da dupla da frente, Jay Vine agarrou-se à coxa, os italianos também não seguiam da melhor forma e Remco Evenepoel continuava a dar murros na parte do bico do selim, mostrando uma vez mais que a bicicleta tinha alguns problemas. Quem brilhava? Nych e Afonso Eulálio, que numa altura em que Pogacar quase esperou para segurar Isaac del Toro quando o mexicano estava a quebrar apareciam nas imagens na frente do grupo perseguidor. A 11.ª volta terminava com Pogacar e Del Toro na frente, o grupo perseguidor a 45 segundos e agora com Remco a mais de um minuto depois de trocar de bicicleta mais uma vez descarregando a fúria de tudo o que acontecia.

Sobravam 20 corredores no grupo da perseguição, onde estava Afonso Eulálio, depois mais uma dezena que vinha mais atrás, o resto começava a ser quase paisagem. Foi nessa altura que alguns corredores, com Pavel Sivakov, Ben Healy e Honore, conseguiram escapar e aproveitaram a falta de trabalho conjunto para ficarem com uma pequena vantagem na perseguição a Pogacar e Del Toro. O mexicano não conseguia mesmo ir com o esloveno, Pogacar passava a ficar isolado, a corrida entrava numa outra fase quando chegava a informação de que António Morgado e Tiago Antunes tinham desistido: o ouro parecia ganho, havia luta pelo pódio.

Pogacar tinha um minuto de avanço a menos de 50 quilómetros, o grupo que se seguia que era encabeçado por Remco Evenepoel e que tinha também Ben Healy, Skjelmose, Thomas Pidcock e Jai Hindley começava a cavar um fosso para o grupo seguinte, Afonso Eulálio mantinha-se no comboio onde ia Jan Christen, Juan Ayuso, Roglic ou Giulio Ciccone a 2.20 do líder esloveno. Quando passou a meta e faltavam apenas três voltas para o final, Pogacar tinha 1.08 minutos de avanço e Remco Evenepoel colocava um ritmo que começava a causar mossa nos corredores que iam consigo, a ponto de apenas Healy e Skjelmose terem aguentado. Mais: quando faltavam ainda 35 quilómetros para o fim, já só aguentavam 42 corredores e com distâncias cada vez maiores. Ivo Oliveira foi mais um que não conseguiu aguentar, depois do brilharete feito na fuga.

As cartas estavam todas na mesa, com Pogacar a manter o avanço e Remco a separar-se dos dois corredores que vinham mais a seu reboque do que a trabalhar consigo, começando a 20 quilómetros do final um novo duelo de contrarrelógio com o esloveno mas agora com a diferença a tender a não descer da fasquia do 1.20 minutos (que quando mexida, era tendencialmente para subir). Skjelmose e Ben Healy estavam na luta pela medalha de bronze, Afonso Eulálio, que faz em 2025 o primeiro ano no World Tour, mantinha a esperança de terminar ainda no top 10. Poderia pensar-se ainda numa história diferente que poderia surgir se Remco não tivesse problemas com a bicicleta. No entanto, e mais uma vez, Tadej Pogacar mostrou que é um extraterrestre, ganhando um Mundial que durou quase seis horas e meia e acabou com… 30 corredores.

A vitória estava confirmada, com Pogacar, que tinha acabado a prova de contrarrelógio em quarto, a ganhar com 6.21.20, seguido de Remco Evenepoel (1.28) e de Ben Healy (2.16), que deixou Mattias Skjelmose na quarta posição sem medalhas (2.53). Faltava apenas saber em que lugar poderia terminar Afonso Eulálio, sendo que na passagem para a última volta encontrava-se dentro do top 10 da competição. Estava no limite, conseguiu: o português acabou mesmo na nona posição. Desta forma, e apesar de ser um corredor com apenas 23 anos, Afonso Eulálio, da Bahrain, tornou-se apenas o segundo português de sempre a acabar uma prova de fundo do Campeonato do Mundo no top 10, algo que só Rui Costa fizera por quatro ocasiões. O letão Toms Skuijns ficou em quinto (6.41), seguido de Giulio Ciccone (6.47), Isaac del Toro (6.47), Juan Ayuso (6.47) e do português. Pidcock bateu ao sprint Roglic para fechar o top 10 (9.05).