Duas Assembleias Gerais, um dia longo e com vários episódios, uma “ressaca” que colocou os seis candidatos do Benfica a falar. As eleições do Benfica começam a mexer mais a sério quando falta menos de um mês para o sufrágio e o principais dos visados na reunião magna, Luís Filipe Vieira, foi ao Now dar não só a sua versão de tudo o que aconteceu no Pavilhão da Luz mas também analisar o atual momento dos encarnados à luz de algumas considerações feitas também por Rui Costa, atual presidente e candidato e seu antigo vice. Em paralelo, o antigo líder abordou também a mais recente sondagem publicada pelo Correio da Manhã, que o coloca na quarta posição da corrida eleitoral dos encarnados com pouco mais de 8% das intenções de voto.
“Já tinha experiência disto… Aquela pequena maioria, que tem origem no Servir Benfica, está na génese das candidaturas de João Noronha Lopes e João Diogo Manteigas. Foi um autêntico ataque terrorista aquilo que se passou ontem [sábado]. As pessoas querem dominar o Benfica pelas Assembleias, que têm sido manobradas. Incentivaram um determinado candidato que, quando eu fosse falar, abandonassem a sala. Os radicais estão de um lado e outro. Querem passar para fora que uma minoria controla e são a opinião dos sócios mas são uma minoria ruidosa que não conta. O voto eletrónico faz-me confusão. O Benfica fala em querer mais sócios [a votar] e depois não lhes dão opinião. O mais importante nas decisões do Benfica é a participação dos sócios do Benfica. Queremos caminhar para mais sócios e temos um projeto para chegarmos aos 800 mil sócios”, começou por comentar, “apoiado” também por declarações de outros candidatos.
“Se levei seguranças? Nunca tive seguranças na minha vida, mesmo quando estava no Benfica. As pessoas sabem. Para as pessoas estarem ali dentro têm de ser sócios do Benfica. Dizem que andavam atrás de mim, eu não ando para a frente a olhar para trás. Quem abriu a porta para haver insegurança ali dentro foram essas duas candidaturas. João Noronha Lopes faz papel de cordeiro há muito tempo. O presidente da Mesa dirigiu muito bem a Assembleia Geral. O barulho que havia naquela assustava mesmo, parecia uma ataque terrorista. Eu percebo que eles achavam que eu não me ia candidatar e que iam ter um passeio mas os benfiquistas têm de perceber que há um ataque ao poder no Benfica”, prosseguiu Luís Filipe Vieira.
“Tudo isto foi confirmado também por dois candidatos [n.d.r. Martim Mayer e Cristóvão Carvalho, em declarações esta tarde). Lembro-me perfeitamente que quando concorri pela primeira vez contra Noronha Lopes que apareceu um Mattamouros qualquer. A grande maioria dos que estavam ali eram pessoas das duas candidaturas. Há hoje um assalto ao poder. Há mesmo. E é organizado. Temos de ter bem presente o que aconteceu aqui ao lado. O que se passou foi com o Sporting, no assalto à Academia. Começa-se a preparar… O mais grave são estes mentores que correm com os treinadores quando as coisas não correm bem, que destroem os jogadores. Depois as pessoas vão por arrasto. Eles estão super bem organizados. Se foram eles que despediram Bruno Lage? Também ajudaram à festa”, frisou, antes de explicar a saída da Luz.
“Não fazia sentido estar lá. Desvalorizar a outra Assembleia Geral? Não me compete a mim falar, era o doutor João Pinheiro que estava com isso desde o princípio. Foi sempre ele que falou com o Presidente da Mesa, não tinha que lá estar. Não era porque estava intimidado. Foi um caso gravíssimo. Recordo-me que isto se passou apenas no Vale e Azevedo. Esta gente não é de fiar… Estes senhores não reúnem condições nenhumas para serem presidentes do Benfica. Disseram que fui eu que fui desestabilizar a Assembleia Geral. Estive sempre calado. Daquilo que sei, essas duas candidaturas estão mesmo juntas. Esse movimento Servir o Benfica já surgiu no meu tempo, eles chumbam tudo. Temos de perceber porque foram juntar pessoas que são extremistas”, salientou, numa entrevista onde, pela primeira vez, de forma aberta, “disparou” contra duas candidaturas que não a de Rui Costa, neste caso as de João Noronha Lopes e de João Diogo Manteigas.
“Medo? Nunca senti esse medo, se reagisse de outra forma talvez pudesse ter… No decorrer da Assembleia disse-lhes que a culpa era deles os dois [João Noronha Lopes e João Diogo Manteigas]. O João Diogo Manteigas é que foi o principal mentor e diz-se um grande democrata. Diziam que eu não era democrata. A Benfica TV devia dar em direto a próxima Assembleia para mostrar em direto aquilo que os energúmenos vão para ali dizer. Expulsões? Isso não me compete a mim, compete ao presidente da Mesa. Os benfiquistas podem e devem confiar nele, que presenciou um sócio a ser agredido. Foram ofensas gratuitas. Ainda ontem ouvi essa mesma pessoa a fazer insultos a Rui Costa. A atitude que tomaram ontem [sábado] é um ataque de terrorismo ao Benfica, à democracia do Benfica e até à vertente desportiva do Benfica”, referiu.
“Há um que quer imitar o Bruno de Carvalho. Quem? O Manteigas mas é muito pequenino para o Bruno de Carvalho. Os benfiquistas também têm culpa porque têm de se mobilizar e estar nas Assembleias Gerais. Os novos estatutos vão tornar o Benfica ingovernável. Foi aprovado por uma minoria. Vou dar-lhe um exemplo: qualquer Relatório e Contas do Benfica é votado, é chumbado como ontem, passados 30 dias é de novo votado e se for chumbado a Direção cai. Quem permitiu estes estatutos? Manteigas esteve muito interventivo no voto eletrónico. O Benfica não pode estar nas mãos destes mentores, eles querem fazer um ataque ao poder do Benfica. Ninguém deu ordens para atacar a Academia do Sporting, foram esses grupos organizados que tomaram a iniciativa. O Benfica não tem claques. João Diogo Manteigas controla os adeptos benfiquistas mais radicais. Não têm interesses nenhuns, querem destruição completa”, acusou.
A partir daí, Luís Filipe Vieira foi abrindo o leque dos temas abordados… mantendo os mesmos dois alvos na mira. “Sondagens? São controladas por essas duas listas [João Noronha Lopes e João Diogo Manteigas]. Nenhum benfiquista acredita nisso. Eles conseguem mobilizar grupos de benfiquistas, é tudo fabricado. Vou ser mais explícito. Em 2020, quem fez estas sondagens dava-me 30% e depois quem ganhou? A única coisa que eu sei é que há grupos que vão logo todos mobilizados para votar. Isso é para manipular a realidade, a melhor sondagem que eu tenho são os benfiquistas. Eu sei para onde ando e para onde vou. Peço aos benfiquistas para votarem massivamente para ganharmos à primeira volta. Não há mais tempo a perder. No Benfica não há impossíveis. Disse à minha mulher que ia porque acho que o Benfica precisa de mim, se não for eu também vou para casa, voltar a fazer a minha vida. Deixo de me preocupar sobre isto. Daqui a dois anos voltam a telefonar-me a dizer que eu tinha razão. Quando estava no Benfica, Noronha Lopes era um dos mentores que dizia, à boca cheia, que o Estádio ia falir o Benfica…”, comentou o ex-líder.
A partir daí, a entrevista passou mais para a parte do futebol, sendo que Rui Costa começou a ser visado na sequência de uma primeira resposta onde dizia que… não falaria de Rui Costa. “Mourinho? Tenho a minha opinião. Foi para a parte eleitoral, está no direito dele de fazer isso. O Bruno Lage tinha o destino traçado. O Mourinho foi um ato de muito boa gestão e um ato eleitoral. Se não estivéssemos em eleições, nunca contrataria Mourinho. Salário? Para o número que se diz que ganha… Se é um negócio bom ou não, só no fim é que se sabe. Os benfiquistas reagem em termos emocionais. Vamos imaginar que o Benfica ganha ao Chelsea, ao FC Porto e ao Newcastle, o Rui Costa ganha as eleições. Tenho essa convicção. Os benfiquistas reagem assim. Se for para a parte racional, ele não pode ganhar as eleições porque vai afundar o clube”, disse.
“Processos judiciais? Até agora ganhámos todos os processos que o Benfica teve e que eu tive. Não é o senhor Rui Costa que me vai julgar, nem ninguém. Eu sei o que fiz e confio na Justiça. Não corro, não fujo e a Justiça tem o seu tempo para me julgar. É que hoje se calhar o Rui Costa não é vítima de tantas denúncias anónimas como eu era, já nem sei se vinham de dentro ou de fora. Se é tão afirmativo sobre estas afirmações, ele devia dizer publicamente às pessoas se alguma vez me viu a fazer algo de ilícito. Não devia mandar para o ar. Mas não ando a lavar roupa suja. Dei 21 anos àquela casa para colocar o Benfica cá em cima. Ele devia estar agradecido porque sabe que eu muitas vezes o protegi. Do que protegi? Isso não interessa, são situações que aconteceram no Benfica…”, deixou no ar, antes de criticar também os comunicados que o clube da Luz tem feito em relação às arbitragens dizendo que esse deveria ser o papel do presidente, Rui Costa.
“O Benfica não tem de fazer comunicados, o presidente é que tem de falar. O presidente do Benfica não pode estar calado. Queixa de Pedro Proença? Já provei que quem não deve não teme. Vamos ajustar contas disto tudo. Os benfiquistas podem contar comigo: irei fazer de tudo e provar tudo. E não sou só eu, há muita gente que está pelos cabelos com Pedro Proença: clubes, delegados que estão lá… Aquilo é uma Central de Empregos que ele montou, já compraram até tendas para colocar as pessoas que estão em lista de espera para entrarem. Prometeu tanto, tanto… Disse a um amigo meu para não confiar no Luís… Não sou eu que tem essa fama de mentiroso compulsivo. Há-de chegar o dia para ajustarmos as contas todas e vamos ver quem é o aldrabão. Deixe o Ministério Público chamar-me…”, voltou a dizer sobre o líder da Federação.
Já na parte final, Vieira falou também sobre a atual situação financeira do Benfica. “O passivo da SAD nos últimos quatro anos… Eu deixei a SAD do Benfica com 380 milhões de euros de dívida e neste momento está em 475 milhões. A dívida líquida era 101 milhões, em quatro anos disparou para 197. Pagaram cinco milhões para não aparecer o número 200 mas para o ano vai ser mais. A dívida a fornecedores em 2021 era 109 milhões, agora está em 202 milhões de euros. Os capitais próprios eram de 144 milhões de euros e agora passou para 116, desceu 24 milhões. Os Fornecimentos de Serviços Externos quase duplicaram, eram 48 milhões e passou para 78 milhões. O aumento pessoal em quatro anos aumentou 32%. Acho que não são boas contas. Temos de criar equipas competitivas e não podemos andar aqui como o Pai Natal a comprar jogadores entre os 25/30 milhões de euros”, apontou Luís Filipe Vieira, antes de voltar ao ataque a Rui Costa, neste caso com algumas frases ditas pelo atual presidente numa entrevista que vai sair no Record.
“Tem que levar uma resposta do carago… Eu acho que o Rui Costa está a sofrer de amnésia mesmo… O que ele disse é grave. Eu entreguei o Benfica como nenhum outro presidente entregou o Benfica clube e a SAD. Deixei o clube com dinheiro, com a credibilidade como nunca teve, comprei jogadores a cinco e seis anos, com crédito em todo o mundo, desconto de contratos em todo o mundo, não havia um fornecedor que se queixasse que não recebia a tempo e horas. O Benfica está agora a perder credibilidade. Ele que não diga que ficou por causa dos processos, ele estava desejoso de ser presidente do Benfica. Se o sabe ser ou não, vamos ver. Até agora não soube ser. Disse, na última entrevista, que o problema financeiro do clube era por causa da Covid-19. Ele não tem noção do que diz… Se não fosse a Covid-19 a dívida tinha descido para zero. Ele é que gastou dinheiro com jogadores. O Benfica nunca mais teve uma gestão à séria. Não é o Rui Costa que gere o clube, ele não tem noção. Eu não queria falar de Rui Costa, mas ele mente… Ele tem feito uma gestão danosa, o Benfica corre sérios perigos de caminhar para um fosso”, respondeu.
“O próximo presidente do Benfica vai ter de suar muito para cumprir até junho e ter 120 milhões de euros para pagar. Enquanto não tivesse a garantia financeira para o Benfica que não me ia expor, agora até já tenho o dobro [do financiamento]. Quero estar prevenido para cumprir. Quando entrar, 200 milhões entram rapidamente. Temos de rever todo o plano do futebol. A nossa prioridade é resolver o problema financeiro do Benfica e o Seixal. Rui Costa? Ele que tome o caminho dele, que tente copiar o que foi bem feito e que não tente passar a negligência dele para os outros. Já me cansei de o defender. Não cabe na cabeça de ninguém que alguém que esteja a trabalhar comigo, que receba 200 e tal mil euros por ano com carro e tudo e não faça nada ou não tenha responsabilidades. Ele fazia alguma coisa, mas tínhamos de andar a pressioná-lo sempre. Já chega de andar sempre a defender o Rui Costa…”, concluiu Luís Filipe Vieira no Now.