Uma vitória tangencial (e muito sofrida) frente ao Gil Vicente, a “ressaca” de mais alterações no futebol com a entrada de José Mourinho para o lugar de Bruno Lage, as exibições que continuam sem convencer quando a equipa se prepara para enfrentar um dos períodos mais complicados do calendário com jogos fora diante de Chelsea, FC Porto e Newcastle que podem ter impacto no trajeto no Campeonato e na Liga dos Campeões. As notícias que a Direção de Rui Costa trazia para estas duas Assembleias Gerais eram boas, com um Relatório e Contas a apresentar um resultado positivo de 40,7 milhões de euros (27,5 milhões do clube, 13,2 milhões que são imputáveis a “interesses minoritários não controláveis”), mas a votação daquele que será o Regulamento Eleitoral e sobretudo o momento conturbado que os encarnados atravessam prometiam voltar a aquecer o ambiente no Pavilhão da Luz com uma curiosidade: estaria este sábado um novo chumbo à vista?
Benfica teve resultado positivo de 40,7 milhões de euros no último exercício
Apesar de não ter impacto direto naquilo que é a posição dos atuais órgãos sociais, o elenco liderado por Rui Costa ainda conseguiu passar o Orçamento em junho de 2024 com 47,6% de votos a favor mas acabou por ver depois chumbadas as duas votações seguintes, com o Relatório e Contas do clube a ser chumbado com 53,6% em setembro de 2024 e o Orçamento a ser também chumbado de forma mais expressiva em junho de 2025 com 73,8% de votos contra. Mais do que mexer ou não com o quotidiano do Benfica, havia sinais mais do que expressivos sobre a insatisfação do atual momento – algo que, com o aproximar da data do sufrágio que pela primeira vez na história contará com seis candidatos, iria tendencialmente adensar agora.
Tudo iria decorrer numa espécie de dois “atos”. Numa primeira instância, seria debatido e votado o Relatório e Contas do exercício de 2025, com primeira chamada às 9h e segunda chamada às 9h30. Depois, haveria a Assembleia Geral Extraordinária para deliberação sobre o Regulamento Eleitoral, num momento com tanta ou mais discussão por todas as críticas feitas por algumas listas que não percebiam o porquê de não haver um debate com hipótese de introdução de “melhorias” no Regulamento em vez de ser apenas votada essa proposta apresentada pela Direção à Mesa. Num e noutro momento, a atual fase que o Benfica atravessa seria discutida, com essa outra curiosidade de se perceber quantos candidatos marcariam presença na Luz.
Rui Costa à parte (os membros dos órgãos sociais costumam entrar de forma conjunta no Pavilhão), Martim Mayer foi o primeiro a chegar, falando num “dia sério para o clube”. “O presidente do Benfica está cansado, é altura de virar a página, trazer nova energia. É preciso abrir o Benfica. Rui Costa está esgotado, deve sair para o lado e deixar o Benfica acontecer”, apontou à CMTV, relativizando as sondagens conhecidas e apontando de forma indireta a João Noronha Lopes “pelas promessas que enganam os benfiquistas”. De seguida entraram João Noronha Lopes, neste caso sem grandes declarações, e João Diogo Manteigas, depois foi Cristóvão Carvalho, que voltou a falar da falta de voto eletrónico passando ao lado de tudo o que tivesse ligação ao futebol: “Ontem e amanhã poderia abordar o tema, hoje estou focado apenas nas contas do Benfica e na votação do Regulamento Eleitoral. As contas do Benfica estão no vermelho”. Luís Filipe Vieira, o último candidato a chegar, entraria já com 15 minutos de Assembleia Geral, depois de Rui Costa ter falado.
E como há sempre algo mais a “apimentar” o quotidiano, neste caso duas Assembleias Gerais que seriam “muito exigentes”, como referiu logo no arranque o presidente da Mesa, José Pereira da Costa, não passou ao lado de alguns associados outra “polémica” que vinha desta sexta-feira, com um email interno enviado por Rui Costa a todos os colaboradores a ser tornado público e a gerar indignação por ter saído para fora do Estádio da Luz, originando muitos focos de conversa em vários grupos benfiquistas nas redes sociais.
“Considerando os muito bons resultados económicos do exercício 2024/25, onde foram suplantados os objetivos definidos no que reporta ao esforço de contenção de custos recorrentes e crescimento da receita operacional, a Direção do Benfica e a administração da SAD deliberaram atribuir a todos os colaboradores de todas as empresas do Universo Benfica, com contrato de trabalho e que não tenham sido elegíveis para os prémios desportivos, um prémio excecional visando reconhecer o esforço, compromisso e dedicação de todos os resultados económicos alcançados. Será processado a 30 de setembro, seguindo para pagamento, o valor correspondente a 50% da remuneração mensal ilíquida. Para os colaboradores que entraram no Universo Benfica durante a época de 2024/25, o valor será ajustado aos meses de vínculo”, assinalava.
Quase todos os candidatos falaram até que Vieira tentou… mas não conseguiu
Logo a abrir a primeira reunião magna, Rui Costa tomou a palavra, como é habitual, abordando aquilo que estava versado no Relatório e Contas que estaria a sufrágio. “Encontramo-nos hoje para apreciar e votar o Relatório e Contas 2024/25 do nosso Sport Lisboa e Benfica. O meu primeiro sublinhado vai para a vossa participação. Como já tenho dito e reitero, o Benfica é tanto mais forte e tanto mais robusto quanto maior for o contributo da sua massa associativa. O elevado valor desse compromisso entre associados e clube ficou bem patente na aprovação dos novos Estatutos, cuja participação recorde mais do que legitima esse texto fundamental e, de igual modo, enobrece o nosso clube. Temos, assim, um clube mais bem preparado para enfrentar os desafios vindouros, mais democrático e mais plural. A massa associativa do Sport Lisboa e Benfica está de parabéns”, começou por referir o presidente dos encarnados aos associados.
“No que toca à discussão e votação do Relatório e Contas do Clube relativo a 2024/25, tenho a profunda convicção de que se trata de um documento positivo, sólido e que merece a aprovação dos sócios do Benfica, mesmo se o enquadramento desportivo não foi o desejado. Sou o primeiro a reconhecer que, apesar dos esforços que empreendemos para dotar as equipas dos meios necessários para vencer, ficámos aquém do pretendido. No futebol, apesar do bom percurso internacional, apesar das conquistas da Taça da Liga e da Supertaça e de termos estado nas decisões até ao fim no Campeonato e na Taça de Portugal, não alcançámos os resultados que desejávamos. Nas modalidades, conquistámos dois Campeonatos masculinos (basquetebol e futsal) e cinco femininos (andebol, basquetebol, hóquei em patins, voleibol e polo aquático), totalizando 21 títulos e troféus, um número que nos faz ter ganho mais do que todos os outros, mas que não nos basta. Queríamos ter vencido mais”, prosseguiu, sem esquecer as várias vitórias internacionais noutras modalidades olímpicas como o atletismo, a canoagem, a natação ou o triatlo.
“Na vertente associativa, saliento o marco inédito dos mais de 400 mil sócios em número de cartão. Os sócios ativos ultrapassaram, pela primeira vez, os 350 mil, tendo crescido 27.250 no exercício 2024/25. Um número notável, ao qual acresce a concretização do Benfica Social, um programa de grande importância no apoio a sócios em dificuldades. No plano financeiro, destaco a obtenção de um lucro de 7,7 milhões de euros, o qual cresce para quase 30 milhões de euros considerando o método de equivalência patrimonial. Neste domínio, saliento ainda as receitas recorde de quotização e do merchandising, a diminuição dos gastos operacionais e do passivo e, por fim, um marco importante neste final de mandato: os fundos patrimoniais estão de novo em valores positivos”, abordou sobre a parte ligada às finanças.
“Uma última nota de relevo para a publicação, pela primeira vez na história do Benfica, do Relatório de Sustentabilidade. Trata-se de um capítulo decisivo no reforço e no renovar do nosso compromisso com as melhores práticas ambientais, sociais e de governance, o que muito nos orgulha. Para terminar, quero enaltecer todo o trabalho desenvolvido pelas Casas do Benfica e pela Fundação Benfica. A dimensão cívica e de benfiquismo faz com que o Benfica se assuma a cada dia como um clube melhor e mais solidário”, concluiu, num discurso que mereceu aplausos numa fase em que o Pavilhão estava a meio gás.
Seguiu-se a apresentação das contas por Nuno Catarino, responsável pelas finanças de clube e SAD, com essa curiosidade de Vieira, que apresentou este sábado João Correia como o candidato à Mesa na sua lista, ter voltado a uma Assembleia Geral sentando-se numa das filas da frente e numa posição onde ficava quase de frente para… Rui Costa. As explicações do CFO dos encarnados ainda foram longas, durante cerca de meia hora, e a necessidade de “acelerar” a primeira reunião magna fez com que o ponto 2 dos “temas gerais”, que muitos aguardavam para falar, passasse para depois e fosse possível começar logo a votar o Relatório e Contas do exercício 2024/25. Foi aí que aconteceu um primeiro capítulo mais “quente”, com Vieira a votar cumprimentando todos os elementos da Mesa bem como alguns dos candidatos adversários enquanto mais atrás no Pavilhão se ouviu um associado a gritar “Tem vergonha” ao ver o antigo líder das águias de pé.
Inscreveram-se um total de 26 sócios do Benfica para falar nesta primeira Assembleia Geral, o que deveria sempre significar em condições normais que a reunião magna para a votação do Regulamento Eleitoral teria o início retardado. Inicialmente pensava-se que nenhum dos candidatos iria falar nesta fase, tendo em conta o dia longo que se esperava, mas João Noronha Lopes decidiu tomar a palavra ainda no ponto 2 da reunião magna ordinária para votação do Relatório e Contas, depois de algumas intervenções que, de forma menos acalorada do que se vira na última Assembleia Geral, foram pedindo na sua maioria uma viragem de ciclo – e com um sócio a colocar mesmo em causa a inexistência de vencimentos entre órgãos sociais.
Senhoras e senhores, os Super Vieirões. pic.twitter.com/d3Q1VUj8fN
— Scof (@_scof1904) September 27, 2025
“É mais o que nos une do que o que nos separa. Como é possível apresentar as contas consolidadas poucas horas antes da Assembleia Geral? Já fizeram o mesmo com a auditoria. O padrão repete-se. Os sócios merecem mais respeito. Quatro semanas não apagam quatro anos de falhanços. Foram quatro anos perdidos. É tempo de devolver ao Benfica um rumo, uma nova liderança. Está na hora benfiquistas, vamos à mudança”, apontou Noronha Lopes, que foi derrotado por Vieira nas eleições de 2020 com 34,71%. “Senhor presidente da Mesa, não corte a palavra a um sócio. Não lhe cabe acusar o toque da Direção, o senhor é o guardião dos interesses dos sócios. À Direção cabe prestar contas aos sócios, aos sócios cabe prestar contas à Direção dia 25 outubro”, disse de seguida João Diogo Manteigas, a propósito de uma intervenção de José Pereira da Costa quando um associado disse que era “criminoso reeleger Rui Costa”.
A reacção dos sócios do Sport Lisboa e Benfica à subida do detido ao palanque. pic.twitter.com/qQMPjEazOU
— Manel vota Manteigas (@opiniaoimbecil) September 27, 2025
Os ânimos começavam a aquecer, o ponto mais efervescente estava a chegar. Luís Filipe Vieira deslocou-se ao púlpito para falar, ouviu uma enorme assobiadela entre vários insultos e gerou-se uma enorme confusão no Pavilhão da Luz, com apoiantes do antigo presidente a chegarem mesmo a vias de facto com outros sócios que estavam mais perto de Noronha e Manteigas na sala quando o líder da Mesa estava a tentar falar com os candidatos para perceber o que se poderia fazer perante o sucedido. José Pereira da Costa teve mesmo de suspender os trabalhos, sendo que pelo meio também Rui Costa foi tentando que os ânimos acalmassem.
Imagens tristes na AG. pic.twitter.com/HfN6Njicz2
— PLUS Benfica (@plusbenfica) September 27, 2025
Depois dessa suspensão, Noronha Lopes e João Diogo Manteigas conversaram entre eles para tentar explicar ao líder da Mesa que os trabalhos deveriam prosseguir, com Martim Mayer e Cristóvão Carvalho a juntarem-se depois a essa discussão. Após ter ficado algum tempo a rir-se no púlpito perante tudo o que acontecia, não querendo acreditar naquilo que se estava a passar, Luís Filipe Vieira ainda se juntou a essa mesma conversa visivelmente irritado. Ouviram-se cânticos de “Benfica é nosso”, houve mais momentos de tensão entre os adeptos que acompanham Vieira e outros que estão com Noronha Lopes e Manteigas, tudo ficou mesmo interrompido com os associados a começarem a deixar o Pavilhão da Luz… para a segunda AG do dia. Ainda subsistia essa dúvida sobre o que aconteceria com a primeira reunião magna, sendo que todos os associados votaram antes dos discursos e faltava apenas conhecer os resultados apurados na votação.
“Há aqui um grupo, que vem do Servir o Benfica do [Francisco] Benítez e do [João Diogo] Manteigas que tentaram sair da sala quando fosse para eu falar. Se me vão ouvir? Então mas têm de ouvir, agora então não iam ouvir? Rui Costa? Não, não falei com o Rui Costa. Vou falar à tarde, claro que tenho sempre condições”, comentou o antigo presidente à CMTV, quando deixava o Pavilhão. Já com a sala vazia, o Observador foi falando com alguns dos associados presentes no espaço. Confirmaram um momento de tensão que acabou por originar empurrões e ameaças que podiam ter passado essa fronteira para agressões mais graves, foram falando de provocações de elementos que acompanhavam Vieira a apoiantes de Noronha Lopes e Manteigas – e até aos próprios, com ameaças à mistura. “Mais do mesmo com os do costume que não apareciam há algum tempo mas que vieram a fazer o que sempre fizeram”, comentou um dos associados.
“Isto nunca aconteceu na história centenária do Benfica. Impedir um sócio de falar só foi possível porque um grupo radical tomou conta, há muito tempo, destas assembleias. Estamos a aplicar no Benfica, os discursos de ódio, que criticámos nos nossos rivais. Os autores morais deste episódio, não dignificam o cartão com que entraram nesta assembleia, nem representam a unidade do Benfica. Os sócios saberão julgar em urnas”, referiu depois Bruno Batista, um dos elementos da lista de Luís Filipe Vieira à Direção nas próximas eleições, em declarações ao Observador sobre tudo o sucedido no Pavilhão. “Não é admissível que um sócio do Benfica não possa usar da palavra numa Assembleia Geral do Benfica, independentemente das divergências que todos possamos ter. O Benfica é um clube democrático, deve ouvir e discutir e lá dentro discordamos e discutimos o Benfica”, referiu mais tarde João Noronha Lopes. “A candidatura de João Diogo Manteigas lamenta e refuta as declarações de Luis Filipe Vieira. Os episódios ocorridos na manhã de hoje não dignificam o Sport Lisboa e Benfica. Desejamos que os trabalhos decorram com serenidade e com a dignidade que o Sport Lisboa e Benfica merece de todos nós”, destacou Manteigas.
A tarde com resultados, mais discursos (incluindo Vieira) e um momento de tensão
Com algum atraso face às 14h30 inicialmente previstas, também para dar tempo para que todos os (muitos) associados pudessem entrar no Pavilhão, os trabalhos foram retomados com um pedido de desculpas por parte da Mesa perante aquilo que acontecera de manhã antes de Luís Filipe Vieira conseguir falar. Antes, também Rui Costa, presidente do Benfica, quis ter a palavra para pedir que todos os assuntos do clube pudessem ser discutidos “de forma ordeira”. Vieira não falou muito, ouvindo alguns assobios (menos do que se tinham ouvido de manhã) enquanto apontava ao que tinha ocorrido. “O que se passou não retrata o Benfica, parece que estamos a copiar o modelo de outros. Já se falou de finanças e de futebol, portanto basta dizer que o Benfica está num momento muito delicado. Também serei candidato. Divididos não vamos a lado nenhum. Devia haver um acordo entre todos nós e aquele que for escolhido será o presidente durante quatro anos e de uma vez por todas que acabem as divergência profundas que existem, se calhar por interesses que também existem. Que o resto do dia seja à Benfica”, disse, antes de outra enorme vaia depois do discurso.
O episódio com Vieira ao final da manhã acabou por marcar os discursos dos restantes candidatos que ainda não tinham falado. “O que se passou hoje é um mau exemplo, não é o Benfica. Queremos ir a debate e não a combate, o voto tem de ser universal. As listas têm de chegar a consensos e fazer um grande esforço para aprovar o Regulamento Eleitoral. Todas as intrigas e rumores que alguns candidatos lançam dão vantagem aos rivais e prejudicam o Benfica”, referiu Martim Mayer. “O que aconteceu de manhã permitiu elevar o benfiquismo e que a democracia voltasse a esta casa. Queria pedir ao presidente Rui Costa que não utilizasse os meios próprios em proveito próprio. O email para os funcionários é vergonhoso”, disse depois Cristóvão Carvalho, ainda em alusão à comunicação interna para os colaboradores conhecida na véspera.
Os sócios continuavam a falar, Vieira acabou por deixar o Pavilhão da Luz antes de entrar em discussão o Regulamento Eleitoral alegando que, como as propostas que tinha apresentado não tinham merecido sequer resposta da Mesa para entrarem na votação, não fazia sentido continuar na sala. Foi também nesse momento que Sandra Madureira, mulher de Fernando Madureira condenada no âmbito da Operação Pretoriano pelos problemas numa Assembleia Geral do FC Porto, comentou também o que se passava na reunião magna dos encarnados. “Vamos aguardar pelas detenções, pelas buscas às casas… Vamos ver se vão arrancar os filhos deles de noite, das suas camas, com lanternas e metralhadoras apontadas às cabeças. Vamos também ver se algemam os seus filhos aos pés da cama e lhes fazem revistas sumárias! Vamos ver lhes filmam casas e carros, se expõem famílias, nomes, profissões e grupo sanguíneo. Hipócritas! Sugestões: Operação Noronhiana, Operação pão com manteiga, Operação camarão da Costa, Operação Vieira à bolhão pato”, escreveu a antiga número 2 dos Super Dragões a propósito dos momentos de maior tensão.
Aquilo que queria dizer, já não disse. Pedi às pessoas que pensassem primeiro no Benfica e que as eleições só vão decidir quem vai ganhar e mais nada. Paciência. O Benfica tem um grupo de radicais, já no meu tempo andavam sempre contra mim. Se me retira força? No fim, vai ver quem vai ganhar. Não há alternativa, sou o melhor deles todos”, disse Vieira à saída.
“Neste mandato, 31 jogadores da formação já jogaram pela equipa principal. O futebol de formação, nestes quatro anos, fez o que nunca foi feito: conquistou Youth League, e uma Intercontinental. Temos também o Benfica District, que não é um projeto desta Direção mas sim um projeto do Benfica. Sobre a centralização também posso dizer que não vamos abdicar de nada”, apontou Rui Costa numa segunda intervenção. Os primeiros resultados do dia estavam entretanto à beira de ser conhecidos, com mais um Relatório e Contas do clube a ser chumbado com 63,49% de votos contra, tal como tinha acontecido com o Relatório e Contas de 2024 e com o Orçamento de 2025, e 36,51% a favor num universo de 1.188 sócios. A primeira Assembleia Geral estava prestes a fechar, a segunda teria início com quatro horas e meia de atraso.
Número de sócios do Benfica enquadrado por anos de sócio e votos pic.twitter.com/M8Gcx0ZSQ4
— AG (@anfiga_) September 27, 2025
Aí, na Assembleia Geral para deliberar sobre o Regulamento Eleitoral, foi José Pereira da Costa, presidente da Mesa, que tomou a palavra para detalhar tudo aquilo que já tinha sido comunicado aos associados através de um comunicado emitido no site oficial sobre o sufrágio. Entre vários pontos, explicou que haverá reunião a 13 ou 14 de outubro com a comissão que irá acompanhar o processo, reforçou que a Mesa não iria aceitar alterações ou propostas alternativas ao que iria ser votado e referiu ainda que, por não haver voto eletrónico, o clube irá pagar um valor entre os 2,5 e os três milhões de euros “na sua maior operação logística de sempre”, montante que pode subir se existir uma segunda volta (marcada para dia 8 de novembro).
Nesta fase da tarde, as intervenções tiveram outro sentido, muitas de apoiantes mais conhecidos dos seis candidatos do que propriamente pelos líderes das listas. João Pinheiro, que é apoiante de Vieira, apontou que as propostas de alterações iriam melhorar o documento a votos e que avançou mesmo com um recurso para o plenário da Assembleia Geral para contrariar a decisão. Paulo Olavo e Cunha, ex-líder da Mesa e apoiante de Noronha Lopes, disse mesmo que “não permitir que os sócios apresentem contra propostas é violar a lei geral”. Também o advogado Jorge Mattamouros foi mais longe e repetiu o que já tinha dito cá fora: “O que queremos assegurar é que em 25 de outubro não teremos fraude eleitoral como em 2020”.
Os cerca de 30 inscritos neste período da tarde continuavam a falar, incluindo João Diogo Manteigas, que sugeriu que a comissão das eleições contasse com membros de todas as listas a votos, e João Noronha Lopes, que voltou a pedir para que as propostas apresentadas pudessem integrar o Regulamento Eleitoral, e foi aí que existiu mais um momento de alguma tensão, neste caso entre associados que estavam na bancada e outros nas cadeiras do recinto. Não passou dos insultos mas mostrou de novo que o ambiente facilmente podia aquecer com trocas de palavras mais azedas, enquanto Noronha Lops, após falar, foi ter com Rui Costa, cumprimentou-o e trocou algumas palavras. Já José Pereira da Costa, líder da Mesa, continuava sem responder a uma questão feita por alguns sócios: vai ou não integrar as listas de Rui Costa às eleições?
"Entre mudança e status quo, vota-se na mudança!"
João Diogo Manteigas (@BenficaVencera) esclarece sentido de voto numa eventual 2ª volta das Eleições do Benfica. pic.twitter.com/VfmF1TtSk6
— olhaoquete2igo (@olhaoquete2igo) September 27, 2025
Seguiram-se mais intervenções, com Cristóvão Carvalho a acabar por ser assobiado no final por dizer que não fazia sentido haver eleições em dia de jogo e que existia vontade de “torpedear a democracia no Benfica”, ao mesmo tempo que voltou a apelar ao voto eletrónico e Bruno Batista, vice-presidente da lista de Luís Filipe Vieira, a falar de novo nos incidentes da parte da manhã. “Assisti a um triste momento da vida do Benfica, protagonizado por um grupo de sócios, que cumpre quase todos os requisitos para ser do Benfica menos um: educação. Decidi avançar, convicto de que poderia contribuir para elevar o projeto do Benfica. Não é um pequeno grupo de sócios que me vai fazer mudar ou boicotar”, referiu antes de uma nova paragem nos trabalhos, com vários sócios a desmobilizarem com o passar das horas e a chegada da noite (com chuva).
Faltava apenas conhecer o resultado da votação da tarde, neste caso o Regulamento Eleitoral, e também isso acabou por ser chumbado pelos associados presentes no Pavilhão da Luz com um total de 69,86% de votos contra e 30,14% a favor entre os 665 votantes (quase metade do que tinha acontecido por altura do Relatório) sem que se perceba agora o que isso significa em termos práticos para as eleições de outubro.
“É um dos melhores Relatórios, as coisas não deviam ser confundidas”, lamenta Rui Costa
No final, Rui Costa falou aos jornalistas à saída do Pavilhão número 2 da Luz, lamentando aquilo que foi o desfecho das Assembleias Gerais com chumbos para as duas propostas. “O Benfica apresenta um dos melhores Relatório e Contas de sempre da história do clube, 30 milhões de euros e acabou por ser chumbado. Como presidente, não posso deixar de lamentar. O mesmo em relação à parte da tarde, que foi chumbada. Neste momento o presidente da Mesa irá anunciar os procedimentos relativos às eleições deste ano. Neste caso falo como presidente do Benfica e creio que é um chumbo ao Relatório e Contas que espanta completamente porque é um dos melhores do Benfica e as coisas não deviam ser confundidas”, referiu.
“Tivemos duas Assembleias Gerais que determinam muito daquilo que são os assuntos do Benfica e apesar dos apelos feitos ao longo do dia, de manhã passaram-se incidentes que não podem surgir num clube democrático como o nosso. O facto de estarmos num período eleitoral não pode implicar o que se passou de manhã. Resta-me lamentar o que originou e que mancha de forma clara o nome do Benfica. À tarde decorreu de outra forma, com o máximo respeito por toda a gente, por todos os sócios, que é o que se espera de um clube como o nosso. Apesar de estarmos em período eleitoral, talvez o mais concorrido da história do clube, que isto não sirva para desunir o clube, pelo contrário. Há seis ideias para o clube, mas todos nós candidatos teremos de ter o respeito e a certeza de que todos querem o melhor”, acrescentou.