A silhueta dramática inconfundível da Mugler abriu o desfile de estreia do português Miguel Castro Freitas à frente da maison esta quinta-feira, 2 de outubro, na Semana da Moda de Paris, sob os olhares de estrelas como Pamela Anderson ou Naomi Watts. O look escolhido para dar o arranque na coleção primavera verão 2026 — um casaco bege combinado com saia midi da mesma cor — deu o tom para o que veio a seguir. Conjuntos monocromáticos em tons de bege, laranja claro e, claro, o preto, com cinturas marcadas, ombros estruturados, tecidos brilhantes e texturas com pelo, plumas e franjas.
▲ Pamela Anderson e Naomi Watts no desfile da Mugler em Paris
WWD via Getty Images
À Vogue, dias antes de revelar as suas primeiras peças, mostrou o moodboard com as palavras-chave desta coleção. “Evocam o clima da coleção tanto quanto as imagens — para mim, são muito sensoriais”, afirma o designer português de 45 anos, que tem sobre a mesa uma caixa com dvd’s de filmes como Pink Flamingos, A Estrada Perdida, Lola, Metrópolis, Crepúsculo dos Deuses, O Anjo Azul, e Alma em Suplício. As palavras que inspiraram Castro Freitas são glamour kitsch, poesia estelar, camp poético, noturno e maximalismo purista — sempre associadas a coleções clássicas da Mugler ou os trabalhos de outros designers que o inspiram, de Martin Margiela a John Galliano.
Entre as peças de partida estão bodies brilhantes estilo showgirl, corsets e vestidos drapeados e crinolinas murchas. “Essa coleção terá uma expressão bem única, no sentido de que vai fazer parte de uma trilogia — uma trilogia de clichés glorificados”, diz Freitas, resumindo a primeira parte da trilogia, a “Stardust Aphrodite”. “É abraçar a ideia de um cliché, pois a Mugler está muito conectado a isso”, afirma o designer. “Essas obsessões universais têm se repetido ao longo dos anos: o power dressing, o glamour, a femme fatale e o retro futurismo. No início dessa jornada, quis ser quase arqueológico — essa descoberta dos códigos da casa encontrados nos arquivos.” O objetivo é recuperar o lado sexy da marca — o que se vê também nas muitas transparências, aberturas e peças justas num tecido que brilha como látex.
As influências parecem vir do mundo da moda no geral — mas na verdade refletem o seu longo e surpreendente percurso profissional. Miguel Castro Freitas pode parecer um desconhecido para os olhos internacionais, mas já tem muita experiência em grandes marcas de moda. O criador português formou-se em design de moda na Central Saint Martins, em Londres, em 2004. Começou a trabalhar na Dior com John Galliano, onde se especializou em alta costura e projetos para celebridades. Na Yves Saint Laurent trabalhou com Stefano Pilati, passando pela Lanvin com Alber Elbaz e regressando à Dior sob o comando de Raf Simons. A partir de 2017 passou a chefiar o prêt-a-porter feminino da Dries Van Noten e depois ainda assumiu a direção criativa na Sportmax. Agora, Miguel Castro Freitas é dos poucos portugueses na história a integrar o calendário principal da Semana da Moda de Paris e a chefiar uma maison internacional. Antes dele, apenas Felipe Oliveira Baptista já havia levado o nome de Portugal a casas como a Lacoste e a Kenzo.