Uma primeira aparição enquanto candidato na Casa do Benfica de Paredes, uma presença agora na Casa de Londres a propósito da deslocação dos encarnados a Stamford Bridge para defrontar o Chelsea a contar para a Liga dos Campeões, pelo meio entrevistas à TVI/CNN e ao jornal Record. Apesar dos compromissos que vai tendo como presidente do clube, Rui Costa não deixa de vestir também a pele de candidato naqueles que são as eleições com mais listas de sempre – e que prometem ser também as mais concorridas de sempre. E era nesse contexto que voltava às entrevistas esta quinta-feira, neste caso marcado presença no canal Now.

Apesar das melhorias em termos de rendimento diante do campeão mundial, o Benfica averbou a segunda derrota na Liga dos Campeões, naquele que foi também o primeiro desaire com José Mourinho no comando, e está na antecâmara do primeiro clássico da temporada com o FC Porto, que soma nesta altura mais quatro pontos do que os encarnados no Campeonato. A par disso, Rui Costa tem sido também muito visado por toda a oposição, que chega por um lado do seu antecessor, Luís Filipe Vieira, e por outro de todos os nomes que querem protagonizar uma “mudança”, neste caso João Noronha Lopes, João Diogo Manteigas, Martim Mayer e Cristóvão Carvalho. Temas? Futebol, finanças, institucional numa perspetiva de liderança. No fundo, um pouco de tudo. E era isso que o atual líder iria voltar a tentar rebater esta quinta-feira.

Em paralelo, e à semelhança do que tem acontecido nas últimas intervenções públicas, Rui Costa pretendia também mostrar os argumentos para considerar o atual mandato de 2021-2025 “positivo apesar de sem tantas vitórias como esperado no futebol e nas modalidades”, nomeadamente pela devolução da credibilidade ao clube (uma ideia que provocou respostas prontas por parte de Vieira), por toda a remodelação do plantel a pensar no futuro, pelos recentes resultados a nível de receitas e por projetos como o Benfica District. No entanto, tudo começou com o atual momento do futebol e o próximo compromisso frente ao líder FC Porto (que poupou vários titulares na Liga Europa com o Estrela Vermelha, tendo em vista o clássico) no Dragão. Com uma garantia: “Não, o Benfica não vai sair com sete pontos de desvantagem”.

“Se estou confiante? Bastante. Não foram semanas fáceis estas que antecederam este jogo. Ainda assim, por aquilo que tenho visto dos trabalhos e da evolução da equipa, estou bastante confiante. Jogo decisivo para a reeleição? Não deveria ser mas acredito que, pela parte emocional do adepto, seja natural que a equipa estar ou não estar bem possa ser implicativo no desfecho. Ainda assim, enquanto presidente, a única coisa em que penso é na preparação da equipa e que possa sair do Dragão com a satisfação que os adeptos merecem. O Benfica fica mais atrasado no Campeonato mas não perde nada para já. Estamos a falar de sete pontos. Perdemos estes quatro em casa que não deveríamos ter perdido e que nos deixam nesta situação. Mas nenhum Campeonato se decide agora. Mas não me passa pela cabeça e não vou estar a pensar que o jogo não nos vai correr bem, porque não vamos sair do Dragão com sete pontos de atraso”, apontou.

Garantindo que não haverá qualquer prémio especial por uma vitória com os azuis e brancos, Rui Costa abordou também o impacto da chegada de Mourinho. “Nunca nada é suficiente. Mas se foi a medida que melhor encontrámos para inverter o que estava a acontecer… É um treinador completamente capacitado, dos melhores do mundo e da história do futebol moderno. Muito contentes estamos nós e os benfiquistas também devem estar por um treinador destes ter aceitado voltar ao Benfica à primeira. Futebol menos atrativo? Costumamos dizer que no Benfica não basta ganhar, tem de ser ganhar bem, pela exigência do clube. Mas não estamos a falar de uma pessoa que não conheça o clube ou a história do futebol português e portanto está mais do que preparado”, referiu, recordando as finais europeias que conseguiu com a Roma.

“Fizemos um investimento forte no que considerávamos ser melhorar, começando no onze para depois ir ao restante. Começámos pela contratação do Dedic, depois os dois médios e daí para a frente. Fizemos um mercado assertivo, imponente, com um custo alto, mas trouxemos jogadores de qualidade, internacionais, que possam garantir o Benfica quer desportivamente quer, mais tarde, financeiramente. Naturalmente nenhum plantel está completo sempre. Se for preciso algo em janeiro para reparar, emendar ou reforçar, cá estaremos. Temos sempre soluções e arranjámos soluções para isso. Essa é uma das partes que tem sido positiva no Benfica, pese embora se fale muito da parte financeira. Por muito que se fale na parte financeira do Benfica, o Benfica está muito estável financeiramente”, garantiu o líder dos encarnados.

Voltando a garantir “com a palavra de honra” que não houve qualquer contacto com Mourinho até haver essa decisão de dispensar Bruno Lage, Rui Costa não se mostrou arrependido por ter mantido o treinador para a atual temporada, separou o processo do antecessor de Mourinho com o de Roger Schmidt e voltou a abordar a questão da data do jogo com o Santa Clara. “Não há calendário nenhum que não seja decidido entre a estrutura e o treinador. Confio plenamente nas pessoas que tenho à frente e foi algo que nunca foi discutido no Benfica. Nunca houve um episódio como este, de discutir se o Benfica fez ou não bem em jogar num dia. Se perdemos um dia no jogo com o Santa Clara, ganhámos um para o Qarabag. A primeira reunião decisória dos calendários foi feita em conjunto. Se depois, por algum motivo, podemos pensar que poderia ser melhor alterar, já são outras consequências mas os jogos não podem ser alterados só porque nos apetece. Isso não pode ser tema, não vai servir de desculpa para mim”, frisou o número 1 do clube da Luz.

Se cheguei a pensar em não recandidatar-me? Cheguei a pensar sempre onde posso servir este clube e foi isso que me fez avançar, é por isso que estou aqui. Ponderei sempre tudo mas sempre com uma vontade grande de continuar a trabalhar neste clube”, garantiu Rui Costa ao Now.

Já mais sobre o plantel, o presidente dos encarnados garantiu que conhece e vê todos os jogadores que são contratados pelo Benfica. Um deles foi Richard Ríos. Fiz comentários sobre o Ríos, bem como sobre outros jogadores. Mas foi um jogador aprovado pela equipa técnica, pelo scouting, pelo diretor desportivo, pelo diretor-geral… Nestas funções, o Rui Costa presidente nunca disse ‘Quero este jogador, este jogador vem’. O Ríos estava há muito na nossa base de dados. É claro que ainda está numa fase de adaptação mas é um ótimo jogador e ativo. Flop? Não, não temo isso”, disse, antes de falar também de Obrador: “É um miúdo em quem confiamos e que esperamos que venha a ter um grande futuro. Temos de lhe dar tempo. Nem todos têm a maturidade suficiente para jogar de imediato nesta dimensão mas isso não implica que o jogador não tenha qualidades para dizermos ‘Este jogador vai dar’. É essa a esperança que temos nele”.

A entrevista virou depois mais para a atualidade “institucional”, com Rui Costa a comentar as palavras do homólogo rival da Segunda Circular. “O presidente do Benfica não tem de responder ao presidente do Sporting, tem de olhar para o futebol português e perceber o que se está a passar. É isso que se está a manifestar. Tivemos de voltar a bater na mesma tecla. Não é a nossa forma de estar e muitas vezes até sou condenado por falar menos da arbitragem do que os benfiquistas gostariam que falasse. As coisas estão bem visíveis. Na final da Taça, também disseram e cheguei a ouvir que não viram pisadela nenhum que tivesse levado a uma expulsão, quando toda a gente viu. Quero um futebol português mais saudável, não quero é que pisem o Benfica. Neste momento, sinto isso. É esse alarme que estamos a causar no futebol português. Há coisas evidentes, têm havido jogos com muitas evidências sempre para o mesmo lado”, disse.

Não estou a acusar A, B, C ou D de beneficiar, estou a relatar evidências. São essas evidências que quero que vejam. Não quero benefícios para o Benfica, quero que os jogos sejam disputados dentro do campo. Só assim é que podemos crescer no nosso futebol. E o que temos assistido não é isso. E, portanto, enquanto assistirmos a situações dessas, vamos manifestar-nos”, destacou

Ainda nesse âmbito, Rui Costa comentou o célebre áudio gravado pela CMTV quando Rui Costa estava no interior do Benfica Campus. “Muito haveria para dizer. O sítio onde estava, foi visível quando passaram esses áudios, que as frases não eram completas. Muito do que escreveram até estava errado. Não se conseguiu apanhar as palavras todas e até se tentavam seguir outras. Foi a seguir ao jogo da final da Taça e estava a lamentar-me relativamente ao que se tinha passado. Foi demasiado grave. Depois daquele jogo, ficou muito claro o que se estava a passar. Se Rui Costa acha que o Sporting está a ser beneficiado neste momento? Acho que sim. Se é porque domina as instituições? Não sei se domina ou não domina. Tendo a confiar nas pessoas e espero não me enganar nisso. Mas alguma coisa temos de fazer para mudar o futebol. O Benfica não procura ser beneficiado, procura não ser prejudicado. Não vou responder ao presidente do Sporting, vou estar a falar do Benfica e do sentimento interno. Do meu e de todos os adeptos do Benfica”, apontou.

Na parte final, Luís Filipe Vieira e esta espécie de “ajustar de contas” entre presidentes dominou a conversa. “Mais de 200 mil euros por ano sem fazer nada? Então estive lá 13 anos porquê? Não vou entrar em duelos individuais. Sou presidente, não sou só candidato, e tenho essa responsabilidade. Não é isso que os benfiquistas querem. Venho aqui falar do futuro do Benfica, para justificar o que foi o passado, para falar do que serão os próximos quatro anos, não para entrar em disputas individuais. Sinto alguma mágoa mas não faz parte da minha personalidade estar a entrar em duelos individuais, em situações de lavar roupa suja. Primeiro discurso? Era para mostrar que o Benfica tinha um novo presidente dali para a frente, face a tudo o que se estava a passar. Em nenhuma circunstância houve ingratidão. Aquele discurso não era para isso, era só para mostrar que o Benfica naquele momento estava com um novo presidente”, assegurou.

“Devolver a credibilidade ao clube? Não sou eu que digo isso, é um facto. O Benfica estava mergulhado na lama. Tínhamos o Ministério Público e a Polícia Judiciária todos os dias dentro da casa. Nestes quatro anos não tivemos esse problema”. O Benfica não está condenado a nada até ao dia de hoje, isso é um facto. Digo credibilidade porque todos os dias tínhamos problemas judiciais. Não estou em nenhum processo. Há uma coisa importante dizer: o Benfica não foi julgado em nada mas teve de controlar estes problemas todos. Eu? O meu nome foi ilibado de todos eles…”, voltou a destacar Rui Costa.

Por fim, o presidente do Benfica falou ainda da última Assembleia Geral. “Partilho que foi alguma coisa coordenada. Levantarem-se todos ao mesmo tempo tem de ser algo coordenado, não nasceu ao acaso. O que partilho, acima de tudo, é que fica manchada a imagem do Benfica e isso não pode acontecer.  Quem participou nessa manifestação, ou nesse ato, são pessoas ligadas a duas candidaturas [Noronha Lopes e João Diogo Manteigas]. É fácil dizer-se isso. Mas o que me faz estar mais preocupado e que me preocupou muito, mais do que quem tenha sido ou deixado de ser, foi a imagem que o Benfica deixou naquele dia”, disse.

“Sondagens colocam-me no segundo lugar? Não ligo muito às sondagens. É uma coisa que nem sequer acompanho, não ligo. Faço o meu caminho, sei o que tenho para dar ao Benfica, o projeto que tenho e é isso que quero implementar, sei o que passei nestes quatro anos e como assumi o Benfica. Os benfiquistas também sabem. Não me escondi no momento em que muita gente se escondeu, sabem que dei sempre a cara pelo Benfica. E ao fim destes quatro anos, quero seguir o meu caminho para o bem do Benfica”, concluiu.