Na manhã desta sexta-feira, 3 de outubro, o Grão-duque Henri, do Luxemburgo, abdicou ao trono numa cerimónia no Palácio Grão-Ducal, no centro histórico da capital. O ato encerra oficialmente o seu “reinado” e eleva o filho mais velho, Guillaume, de 43 anos, ao título de Grão-duque. O evento teve a presença de membros de realezas, como o Rei dos Belgas, Philippe, e a Rainha Mathilde, os Reis dos Países Baixos, Willem Alexander e Maxima com a filha, a princesa Catharina Amalia, e figuras políticas europeias, como o antigo primeiro-ministro e presidente do Conselho Europeu, António Costa e a presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola.
De recordar que Henri já havia anunciado em junho de 2024 que iria abdicar em favor do filho, e em outubro passou o testemunho a Guillaume naquele que é o primeiro passo do processo de abdicação no Luxemburgo — que já é considerada uma tradição, já que esta é a terceira abdicação consecutiva.
Pelas 10h, Henri anunciou oficialmente a sua abdicação, uma cerimónia protocolar que foi seguida de atos solenes na Câmara de Deputados, onde Guillaume foi proclamado Grão-duque. Nesta cerimónia, o trono tem um papel simbólico: o escolhido faz parte de uma série encomendada para o Grande Salão dos Cavaleiros do antigo Castelo de Berg, construído em estilo neogótico em meados da década de 1850. Antes, foi usado pela Grã-duquesa Charlotte em ocasiões importantes durante o seu reinado e, posteriormente, pelo Grão-duque Jean na sua posse a 12 de novembro de 1964. Restaurado especialmente para a posse de Guillaume, o trono foi marcado com o monograma do Grão-duque.
▲ Depois da abdicação do pai, Henri, Guillaume tomou posse na Câmara de Deputados do Luxemburgo, onde fez um discurso
AFP via Getty Images
No seu discurso, Guillaume mostrou-se preocupado em construir pontes num mundo de conflitos, expressou preocupação com os perigos da tecnologia e o avanço da inteligência artificial, e destacou os mais jovens e o senso de comunidade. “Peço que os jovens e os não tão jovens continuem associados às ações municipais. Agindo juntos podemos superar os desafios do futuro e construir uma sociedade mais resiliente. A nossa força, da nossa comunidade, está nos valores que partilhamos.”
O Grão-duque terminou o discurso a valorizar o trabalho dos Grãos-duques anteriores, que “dedicaram as suas vidas ao serviço do nosso país”. “Desde a minha infância prepararam-me para este papel com amor e compreensão. Quero agradecer o seu suporte, não seria quem sou sem isto.” Por fim, Guillaume afirmou: “Vou viver a vida do meu povo, de quem não me quero separar jamais”, afirmando ser esta “a essência da promessa que vos fiz hoje.”
AFP via Getty Images
No final da cerimónia, o Grão-duque e a Grã-duquesa desfilaram diante da população, à porta da Câmara dos Deputados, seguidos pelos convidados, que caminharam até o Palácio Grão-Ducal. Cerca de duas horas depois do início dos atos oficiais a nova família real apresentou-se na varanda do palácio: o novo Grão-duque acompanhado da mulher, Stéphanie de Lannoy e os dois filhos, os príncipes Charles e François.
Depois, o casal mudou de roupa para uma procissão pelas ruas do Luxemburgo. Stéphanie trocou o vestido azul de gala, com corpete bordado e capa, para um modelo branco mais curto com ombro de fora e capa. Já Guillaume passou do fato verde militar para um conjunto de fraque. O Grão-duque e a Grã-duquesa juntaram-se aos convidados num palco montado diante da população.
▲ Guillaume e Stéphanie mudaram a roupa para uma procissão pelas ruas do Luxemburgo
AFP via Getty Images
Antes das cerimónias oficiais, o principado já havia divulgado nas redes sociais os três retratos do futuro chefe de Estado. As obras foram criadas por três artistas: o pintor luxemburguês Roland Schauls, a retratista britânica Louise Pragnell (que pintou também o retrato da Grã-duquesa) e Andrew Gow, que ainda não concluiu o trabalho. Os quadros são agora parte da coleção oficial do Palácio Grão-Ducal, onde serão exibidos, enquanto um dos retratos de Guillaume será exposto no salão plenário da Câmara.
Este sábado, dia 4 de outubro, o Grão-duque percorre o país acompanhado da mulher, a prestar homenagens à diversidade, ao talento e à solidariedade do grão-ducado. A viagem começa logo pela manhã em Grevenmacher, onde se vai reunir com atletas, voluntários e promotores do desporto. A segunda paragem é em Wiltz, onde os dois participam num evento cultural e um espetáculo musical. Depois, o casal segue para Steinfort, onde deve visitar hospitais e cumprimentar médicos, enfermeiros e pacientes. A seguir, vão para Dudelange, onde assistem a um espetáculo coreográfico. O dia termina na capital, onde o casal deve caminhar entre um balé multicor e um espetáculo de orquestra, no meio dos cidadãos, bailarinos e músicos, e também assistir a um espetáculo de drones. No domingo, dia 5, um ato solene na catedral de Notre-Dame, presidido pelo cardeal Jean-Claude Hollerich, com o hino Te Deum, encerra o fim de semana que assinala a passagem de testemunho de Henri ao filho Guillaume.
Henri, o sexto Grão-duque da monarquia moderna do Luxemburgo, abdica ao trono aos 70 anos e segue assim uma tradição que começou com a avó, Charlotte, a Grã-duquesa inesperada que durante o roteiro do seu exílio na II Guerra Mundial passou por Portugal. Depois de ter reinado em conflito e em paz começou a preparar a transição da coroa para o filho, o príncipe Jean. No Luxemburgo isto começa com a passagem de poder para o lugar-tenente do Grão-duque, um representante do soberano que deve ser “um príncipe ou princesa com relação sanguínea” com ele, que deve viver no grão-ducado e que tem de fazer “um juramento de respeito pela Constituição antes de estar apto a exercer os seus poderes”, segundo explica o site da casa real. Houve seis lugar-tenentes na história do grão-ducado, ou seja, seis situações em que alguém assumiu as funções de representante com o soberano ainda vivo. As três nomeações mais recentes, o atual, o antigo Grão-duque e o pai, aconteceram porque o antecessor estava já a preparar a sua abdicação. A Grã-duquesa Charlotte nomeou o príncipe Jean a 28 de abril de 1961 e viria a abdicar a 12 de novembro de 1964. Este, por seu lado, nomeou o filho, o príncipe Henri, a 3 de março de 1998 e abdicou a 7 de outubro de 2000. A cerimónia desta sexta-feira, 3 de outubro, entra assim para a história da tradição de abdicação luxemburguesa: Henri nomeou o filho a 8 de outubro de 2024 e abdicou quase um ano depois.
Marcelo Rebelo de Sousa já saudou a entronização do grão-duque, a quem desejou êxito e endereçou “calorosas felicitações”, numa nota publicada do site oficial da Presidência da República. O presidente agradece ao chefe de Estado cessante “o seu contributo decisivo para o fortalecimento das relações entre Portugal e o Luxemburgo e, em particular, para a valorização da expressiva comunidade portuguesa no Grão-Ducado”. Na mesma nota, “o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa transmite ainda a sua profunda gratidão e elevado apreço por Sua Alteza Real o Grão-Duque Henrique”, que elogia pelo “reinado marcado pela sua dedicação ao serviço do povo luxemburguês”.
Notícia atualizada às 14h27 com felicitações do Presidente Marcelo.
[O que realmente se passou nas eleições presidenciais de 1986, as primeiras e únicas decididas a duas voltas? Uma história de truques sujos, acordos secretos, agressões e dúvida até ao fim. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]