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Streetstyle étnico, tricot girlie e upcycling. Os cinco finalistas do Sangue Novo

Este artigo tem mais de 6 meses

Os novos talentos do Sangue Novo inauguram a passarelle do Pátio da Galé com coleções cápsula que servem todos os gostos. Em março apresentam novidades e o júri escolhe os dois vencedores.

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Do streetstyle étnico ao tricot girlie, passando pelo upcyling, os utilitários masculinos e os clássicos monocromáticos. Há para todos os gostos entre as criações dos novos designers que estrearam a passarelle do Pátio da Galé esta sexta-feira, 3 de outubro, no primeiro dia de desfiles da ModaLisboa. Adja Baio, Mafalda Simões, Ariana Orrico, Usual Suspect e Mariana Garcia são os cinco finalistas do Sangue Novo e em março de 2026 devem apresentar coleções inovadoras para então serem escolhidos os dois grandes vencedores do concurso.

Um deles ganha uma participação num Master’s Program em Fashion Design Istituto Europeo di Design em Roma ou em Fashion Marketing em Milão, além de uma bolsa de 4 mil euros; o outro fica com uma residência criativa de um mês na Burel Factory, com acompanhamento técnico e criativo da equipa de design, permitindo o desenvolvimento de peças em materiais da marca e a sua apresentação numa coleção em nome próprio na plataforma Workstation da ModaLisboa, além de uma bolsa de mil euros.

A escolha fica à cargo do júri, presidido por Miguel Flor, diretor criativo e editor-in-chief da revista Prinçipal ModaPortugal, Joana Jorge, gestora de projetos na ModaLisboa, Anastasia Bilous, editora na Elle Ucrânia, stylist e responsável pelo showroom de marcas ucranianas AJ13, o designer Federico Cina, Federico Poletti, Scientific Leader no curso de Marketing e Comunicação de Moda do IED Moda Milano e Filipa Homem, Diretora Criativa do Departamento de Moda da Burel Factory.

▲ Adja Baio é uma das finalistas do Sangue Novo

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Quem são os finalistas do Sangue Novo

Adja Baio é nascida e criada na Guiné-Bissau, mas veio para Portugal com a família há sete anos. É licenciada em Design de Moda pela ESAD e trabalha peças sem género, com uma fusão entre referências da cultura guineense, o streetwear e o maximalismo. A coleção PANO DE PINTI reflete as origens guineenses da criadora, tendo o cabelo como elemento central da sua expressão — desde criança, a designer manteve uma ligação especial com penteados e tranças, mas apenas mais tarde compreendeu o profundo significado dessa prática. Nas roupas as tranças apresentam-se através de cordas que entram em looks com uma pegada de streetstyle étnico, em que tecidos bordados com padrões geométricos combinam-se às calças de ganga oversized.

Mafalda Simões vem de Coimbra e está a cursar o mestrado em Design de Moda pela Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa. Já passou pelo atelier de Constança Entrudo como estagiária, e a influência vê-se na passarelle. A coleção DayDream preza por técnicas artesanais e manuais, como o tricô e o croché, e é inspirada em imagens da série fotográfica Girl Pictures, de Justine Kurland. As peças sobrepostas em tons pastéis trazem desenhos como casas ou frutas e a arte manual vai parar aos sapatos, carteiras e gorros.

▲ Ariana Orrico e Mafalda Simões receberam as medalhas de finalistas do concurso

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Ariana Orrico está a concluir o mestrado em Design de Moda na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa. A coleção-cápsula 75 é sobre libertar o corpo masculino — e aqui, eliminar as calças foi o primeiro passo. As peças têm tecidos de algodão provenientes de desperdício têxtil e em couro autêntico comprado em retalhos e transformado em patchwork. Na passarelle o que se viu foram coordenados em couro e aventais, cintos, coletes e casacos utilitários, com espaço para se pendurar ferramentas ou acessórios.

Usual Suspect é o projeto de Xavier Silva, licenciado em Design de Moda pela ESAD. Do ponto de vista criativo, o designer inspira-se no universo do work e streetwear. Já na execução, valoriza o upcycling e o reaproveitamento de materiais e peças 1 de 1, em que cada criação é única. A coleção Último Empregado reflete isto: com uniformes usados por si e pela sua família, mantendo as marcas de sujidade, rasgões e remendos, e combinados com elementos de trabalho reutilizados, como luvas gastas e panos sujos, numa tentativa de transformar sentimentos de desgaste e invisibilidade em criação artística e enriquecedora. Nos looks a sujidade vira padrão e as fardas transformam-se em saias e capas.

▲ Mariana Garcia e Xavier Silva, da Usual Suspect, foram dois dos escolhidos

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Mariana Garcia é de Vila Nova de Famalicão, licenciada em Design de Moda pela ESAD e já passou por estágios com Susana Bettencourt e numa empresa têxtil. À passarelle do Sangue Novo, trouxe a coleção Cota 0, criada a partir da desconstrução de blazers e calças, transformadas em novas peças, combinadas a vestidos de tecidos fluidos e com recortes. A elegância tem o contraste de alguns elementos industriais, como cobre e cromados da oficina de motas do avô. O resultado é uma coleção clássica com muitos looks monocromáticos.

Os três concorrentes que ficam de fora da próxima etapa do concurso são Eva do Cruzeiro Seixas, Élio Ramos e Inês Almeida. Do Cruzeiro Seixas Eva é como se apresenta a designer e artista visual, formada na Escola de Moda do Porto e no Modatex – Porto. No seu trabalho, combina a experimentação têxtil com conceitos artísticos. No Sangue Novo apresenta a cápsula A Casa Morreu, que é uma interpretação do conceito de lar. Aposta em influências etnicas com contas e franjas, peças com volume e acolchoados e tecidos fluidos e com transparência.

Elio é o projeto do algarvio Élio Ramos, que é licenciado em Design de Moda pela Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa. Aposta na moda como ferramenta de transformação, valorizando conceitos como a sustentabilidade, a inclusão e também a ironia — de onde parte a coleção LUBE, que quer inverter a lógica dos calendários com mulheres seminuas nas oficinas. As peças mostram os corpos masculinos em cortes, metais e corpetes, numa narrativa que sugere que “o que falta revela mais do que o que está presente”.

Inês Almeida vem do Porto, vive em Castelo Branco e está a concluir o mestrado em Design de Moda na ESART. Inspirada em pessoas em situação de sem-abrigo, a coleção utiliza formas e materiais como tendas, sacos-cama e mantas usadas para gerar a reflexão estética e política sobre a desinformação. O desfile começou com vozes a ecoar o problema da habitação em Portugal e terminou com uma crítica social, com um look que diz: “take a photo”.

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Concorrente suspenso por acusações de violência doméstica

Uma semana antes do desfile de seleção dos finalistas do programa, a organização da ModaLisboa divulgou um comunicado a informar que iria suspender a participação de um concorrente. “A Associação ModaLisboa recebeu uma comunicação dando conta que um dos concorrentes do Concurso Sangue Novo teria agredido três mulheres, que afirmam ter sido vítimas de crimes de violência doméstica. Mais nos foi transmitido que existiam processos crime com origem nas alegadas agressões. Tivemos oportunidade de confirmar que tais processos existem, e que estão a correr os seus termos”, diz o comunicado, que informa que convocou uma reunião extraordinária do painel de jurados para decidir pela permanência ou não do designer — e a decisão foi pela suspensão. “Não se trata de uma exclusão, o que significa que a sua candidatura, numa edição futura, poderá vir a ser admitida, caso em que o concurso terá dez concorrentes mais um.”

Sobre a suspensão, que é inédita, a organização diz que não tem “a pretensão de o júri ter a capacidade e os meios para avaliar da inocência, ou da culpa, do concorrente”, mas que vê o caso como uma “possibilidade de fazer passar uma mensagem num tema tão importante como trágico. Era o que estava ao nosso alcance fazer, em repúdio pelo crime de violência doméstica e em solidariedade com quem se afirma vítima, e dando cumprimento ao regulamento do concurso.”

Nas redes sociais, o designer reagiu, afirmando não ter sido notificado nem saber da existência dos processos judiciais mencionados pela ModaLisboa. “A instituição ModaLisboa, ao publicar o comunicado, expôs a mim, uma pessoa física, diante de milhares de pessoas alegando a existência destes supostos processos dos quais eu mesmo, que em teoria seria uma das partes, nunca tive conhecimento.” O designer diz que esteve em contacto com a organização ao longo dos dias e que foi surpreendido com a publicação do comunicado. “Considero lamentável e irresponsável a postura de uma instituição do porte do ModaLisboa expor uma pessoa física desta maneira e neste contexto, para milhares de pessoas. Sinto-me lesado e profundamente ofendido”, afirmou. “Daqui em diante tratarei dos procedimentos judiciais cabíveis para resguardar minha segurança e garantir que meus direitos sejam respeitados enquanto ser humano.” O Observador contactou o designer, no sentido de obter mais informações sobre o caso, mas o mesmo preferiu não adiantar mais comentários.

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