O menino que já é grande. Foi esta a mensagem que o L’Équipe decidiu reproduzir na capa da sua edição de segunda-feira. Como habitual, o histórico jornal francês decidiu dar destaque a desportos com menos mediatismo na praça pública. É certo que os Campeonatos da Europa, que terminaram no domingo, decorreram em França, em Drôme-Ardèche. Também é certo que a vitória de Tadej Pogacar, que foi a sua primeira em Europeus, está, naturalmente, envolta num grande mediatismo. Contudo, o destaque da prova foi outro: Paul Seixas. Tem apenas 19 anos, é descendente de portugueses e é a nova grande figura do ciclismo francês, sendo apontado como a principal aposta do país para vencer a Volta a França, o que não acontece desde que Bernard Hinault derrotou Greg Lemond, em 1985.
Desde então, surgiram muitos nomes no ciclismo gaulês que se destacaram na principal prova por etapas do mundo, como Jean-François Bernard, Richard Virenque, Jean-Christophe Peraud, Thibaut Pinot, Thomas Voeckler, Romain Bardet ou Lenny Martinez. Apesar de ainda ter 22 anos e toda uma carreira pela frente, o ciclista da Bahrain-Victorious parece já ter sido ultrapassado nessa categoria. O trabalho desenvolvido por Voeckler, que se tornou selecionador de França em junho de 2019, começa a dar frutos, como se viu nos últimos Europeus, em que o título do contrarrelógio misto por equipas ficou em casa e Paul Seixas subiu ao pódio, numa corrida em que apenas 17 corredores acabaram e o jovem bateu Christian Scaroni e Juan Ayuso na última subida.
Em apenas um ano, Seixas passou do pódio de juniores para o pódio de seniores, num salto estratosférico pouco visto no ciclismo. “É preciso compreender que ele ganhou a corrida do ‘melhor dos outros’. Havia os dois primeiros classificados [Pogacar e Remco Evenepoel] e depois os restantes. As opções eram bastante amplas, por isso é muito mais do que apenas uma classificação entre os três primeiros. É magnífico”, contou Voeckler à Ouest-France após a corrida. “É uma loucura. Se alguém me tivesse dito isto esta manhã, eu não teria acreditado… Quando Remco e Tadej atacaram, disse a mim mesmo: ‘Vamos com tudo e, desta vez, vou tentar seguir e ver o que acontece’. Consegui manter-me firme até ao topo [do Val d’Enfer]. O que vi no computador foi incrível em comparação com o que fiz no resto do ano. Tive medo de pagar por este esforço, mas no final consegui não desistir. Hoje [domingo] atingi um novo patamar e espero que assim continue”, partilhou o ciclista de 19 anos, que compete pela Decathlon AG2R La Mondiale, no World Tour, escalão em que se estreou na presente temporada.
Para além desse resultado, Paul Seixas foi 13.º na prova de fundo dos Campeonatos do Mundo deste ano, que decorreram no Ruanda, prova em que acabaram apenas 30 corredores. Antes, tinha conquistado a prata no contrarrelógio misto por equipas e o 16.º posto no contrarrelógio individual. Antes, Seixas estreou-se como sénior com o quinto lugar no Grande Prémio de Marselha, seguindo-se duas tímidas presenças no UAE Tour e no Cholet Agglo Tour. No Paris-Camembert terminou no segundo lugar, sendo 17.º na La Route Adélie de Vitré. Superada a temporada de clássicas, o luso-francês chegou às provas por etapas longe do estatuto dos rivais, mas nem por isso deixou de lutar por alcançar bons resultados. Na Volta aos Alpes, venceu a camisola por pontos, antes de fazer história no Critérium du Dauphiné: com o oitavo lugar na geral, tornou-se no ciclista mais jovem da história a chegar ao top 10 numa prova por etapas do World Tour. Já depois do terceiro lugar no contrarrelógio e do nono no fundo dos Campeonatos Nacionais de França, Paul venceu o Tour de l’Avenir (a Volta a França do Futuro), que é considerado o principal teste para a prova principal. A título de exemplo, Egan Bernal (2017) e Tadej Pogacar (2018) venceram-no dois anos antes de conquistarem o Tour.
From junior podium to elite podium in a year: Paul Seixas ????
???????? Europe RR-JR 2024 ????
???????? Europe RR 2025 ???? pic.twitter.com/ArcLJJs8c7— Eemeli (@LosBrolin) October 6, 2025
“Não imaginava que a minha primeira época profissional fosse assim. Pensei que iria ganhar experiência e também passar por alguns momentos difíceis. No final, comecei muito forte e melhorei ao longo do tempo. Está para além de todas as minhas expetativas”, partilhou o francês que, em 2024, destacou-se como júnior, também na estrutura da Decathlon, com a vitória na Liège-Bastonge-Liège da categoria, para lá de se ter sagrado campeão do mundo e nacional no contrarrelógio, com apenas 17 anos. Estes dois últimos resultados confirmaram a sua aptidão para as provas de três semanas, já que Paul Seixas é um ciclista bom nas etapas de montanha e de contrarrelógio, duas importantes características de um voltista. Falta “apenas” saber como é que o jovem corredor vai conseguir lidar com a expetativa francesa, algo que tem custado caro às promessas mais recentes do ciclismo local.
Para já, a presença na Volta a França surge com uma autêntica incógnita, fruto da postura que o ciclista, os seus treinadores e a equipa têm abordado. “O Tour é a corrida mais intensa e difícil do ano e, se ele participasse, poderia ter um aumento de 15% a 20% na carga de trabalho ao longo de um mês. É aí que, fisiologicamente, pode haver um ponto de bloqueio. Como é talentoso, poderia passar por isso sem problemas. Mas também é possível entrar num padrão de excesso de trabalho ou de treino excessivo e ter dificuldade em lidar com isso, o que talvez possa atrapalhar a sua progressão”, explicou Jean-Baptiste Quiclet, diretor de desempenho da Decathlon, ao L’Équipe, antes do Tour deste ano. Por agora, o objetivo de Paul Seixas é a Il Lombardia, o último Monumento da temporada, onde vai voltar a competir contra Tadej Pogacar, Remco Evenepoel e Tom Pidcock.
???? #Cyclisme | ???? À 19 ans, Paul Seixas est meilleur que tous les cadors du cyclisme actuel !
Le Français réalise une première saison professionnelle impressionnante. Mais où en étaient Tadej Pogacar, Jonas Vingegaard ou Remco Evenepoel au même âge ? pic.twitter.com/MVbjq6f6sp
— francetvsport (@francetvsport) October 7, 2025
Se olharmos aos principais corredores da atualidade — Tadej Pogacar, Jonas Vingegaard e Remco Evenepoel —, Paul Seixas já superou os três astros aos 19 anos. Com a mesma idade, o bicampeão do mundo ainda não tinha alcançado qualquer resultado notável, tendo apenas um 20.º lugar na prova de fundo dos Mundiais em sub-23. No ano seguintes venceu a Volta a França do Futuro, registo em que já “perde” para Seixas. Por outro lado, o dinamarquês era um autêntico desconhecido, competindo na Odder CK, fora dos três principais escalões da UCI. Já o belga é o único que se aproxima do francês já que, com 18 anos, sagrou-se campeão do mundo, da Europa e da Bélgica de juniores. Aos 19 anos venceu a Volta à Bélgica, chegando à primeira vitória nos elites. Para igualar esse feito, Paul Seixas tem até 10 de fevereiro para triunfar.
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A ligação a Portugal
Lê-se de maneira diferente nas duas línguas, mas é o nome de família que conecta Paul a Portugal. O apelido Seixas foi herdado do avô paterno. Nascido no norte de Lyon, o ciclista é filho de Emanuel Seixas, que foi campeão francês de karaté. Em entrevista à Rádio Raízes, em 2022, Paul Seixas confidenciou que se sente orgulhoso por carregar o legado de Portugal na sua família, apesar de ter revelado não saber falar português. Ainda assim, assumiu querer aprender a língua, até porque é fã de Rui Costa desde que o ciclista se sagrou campeão do mundo de fundo, em 2013. A sua última visita a Portugal aconteceu quando tinha cinco anos.
A história de Paul Seixas não é caso único na sociedade francesa, nem tampouco no ciclismo. A ligação entre os dois países é conhecida, estendendo-se ao mundo do desporto. Para lá do jovem de 18 anos, Clément Braz Afonso é outro dos luso-franceses que desponta no World Tour ao serviço de França e de uma formação francesa, neste caso a Groupama-FDJ, equipa à qual chegou na presente temporada. A ligação de Braz Afonso a Portugal deriva do avô, que nasceu em Pega, uma freguesia do concelho da Guarda, e se mudou para França com apenas oito anos, tendo regressado a Portugal apenas em 2017. O ciclista nasceu em Brive-la-Gaillarde e, apesar de não manter o contacto próximo com o país, garante que os pais visitam-no todos os anos. No seu perfil na página da Decathlon, Seixas afirma que o seu lema é “nunca desistas” e que o melhor conselho que recebeu foi: “Corre com a cabeça, não apenas com as pernas”. O Tour e o Ain Bugey Valromey Tour, prova francesa de sub-23, são as suas principais corridas e o Nepal é o destino preferido, porque… “ama as montanhas”.
???? Une journée folle, une performance XXL ???????? Bravo Paul ????#DECATHLONAG2RLAMONDIALETEAM – © Getty / jolypics pic.twitter.com/9KH39A57vx
— DECATHLON CMA CGM TEAM (@decathloncmacgm) October 5, 2025
Na divisão Continental, que corresponde ao terceiro escalão e é onde se encontram as equipas nacionais, encontra-se Louis Ferreira, mais um descendente português, que representa a Bourg-en-Bresse Ain. Sem divisão internacional, competem no circuito nacional de França Hugo Ramos (GSC Blagnac Vélo Sport 31), Tiago Ferreira (Top 16), Gaspard Ferreirinho (AC Cusset) e Nathan dos Reis Graça (Atria-Montluçon). No feminino também há representação luso-francesa, através de Sophie Almeida, que já esteve presente nos Campeonatos Nacionais e representa o Elles-Groupama-Pays de Loire.