Chegou um dia que podia ser histórico, provavelmente o último da temporada nesta condição. Ao contrário do que tem sido habitual nas edições mais recentes dos Campeonatos da Europa, a região francesa de Drôme-Ardèche recebeu uma constelação de estrelas que ia lutar para suceder a Tim Merlier, conquistando o título de fundo. A batalha mais aguardada visava Tadej Pogacar e Remco Evenepoel, ciclistas que se enfrentaram pela terceira vez nas últimas duas semanas e que queriam desempatar o duelo pelos títulos de melhor do mundo e da Europa. O belga ficou com os contrarrelógios dos Mundiais e destes Europeus, ao passo que o esloveno revalidou o título mundial de fundo. Ponto assente é que qualquer um dos dois astros ia fazer história em caso de vitória, com Evenepoel a precisar desta corrida para fechar o seu palmarés com a conquista dos seis principais títulos do ciclismo de estrada: Mundiais, Europeus e Jogos Olímpicos. Para além destes, Jonas Vingegaard, João Almeida, Juan Ayuso, Mads Pedersen, Mattias Skjelmose e Marc Hirschi tinham uma palavra a dizer.

Remco mostrou que o melhor do mundo também é o melhor da Europa: Evenepoel pulveriza a concorrência e é campeão europeu de contrarrelógio

Portugal partia para esta prova com um dos candidatos à vitória, apesar de João Almeida não ter alinhado no contrarrelógio “por precaução e sob aconselhamento médico, após apresentar um quadro de mal-estar generalizado”, segundo revelou a Federação Portuguesa de Ciclismo (FPC). Aparentemente recuperado, o Bota Lume contou com o importante apoio de Rui Costa e Tiago Antunes, que substituiu Afonso Eulálio na quinta-feira, “devido a compromissos com a equipa”, disse a FPC. Por outro lado, António Morgado também estava escalado para ser uma carta importante às ordens do selecionador José Poeira, mas acabou por não alinhar à partida, devido a problemas gastrointestinais, o que deixou a Seleção portuguesa reduzida a três elementos. Nas outras provas, o destaque foi Lucas Lopes, que terminou a prova de sub-23 no oitavo lugar. Raquel Queirós foi 37.ª nas elites, ao passo que Beatrix Roxo terminou a prova de sub-23 em 71.º, que Daniela Simão não concluiu. Bruna Gonçalves ficou em 83.º, Maria Coimbra em 84.º e Lara Ribeiro em 86.º nas juniores. No masculino, Daniel Moreira (24.º), Duarte Domingues (36.º), Gabriel Baptista (62.º), Rafael Barbas (não acabou) e Daniel Lima (não acabou) também estiveram em ação nos sub-23, com Guilherme Santos (22.º), Gonçalo Costa (24.º), João Anunciação (51.º), Rodrigo Jesus (65.º), José Salgueiro (71.º) e Gonçalo Rodrigues (não acabou) a representarem o país nos juniores.

“Mentalmente, tem sido um pouco difícil. Não me preparei muito para o Europeu. Na verdade não estou no meu melhor, mas vou dar o meu melhor. Representar a Seleção é sempre diferente, é motivador. E é a última corrida do ano, então é preciso dar o máximo. Fiquei alguns dias sem treinar, completamente parado. Fiquei em Portugal e voltei a treinar lá, nas estradas da minha região. Quando chegou a hora de ligar o motor, ele não pegava… Nas últimas vezes, desde a Vuelta, tem sido assim. É como um recuo. Será difícil, é um sobe e desce constante, com três subidas mais longas no início e depois um circuito de romper as pernas, que vai acabar com tudo. Será uma corrida de mais de 200 quilómetros, então será difícil. Vamos ver como se vai desenrolar. Com os ataques de longa distância que têm acontecendo, típicos do ciclismo moderno, e depois do que vimos novamente neste fim de semana no Ruanda, podemos até ver Remco a tentar atacar antes de Pogacar”, perspetivou Almeida em entrevista ao jornal A Bola.

A prova de 2025 contou com 202,5 quilómetros de extensão, com partida em Privas e chegada em Guilherand-Granges. No total, registaram-se 3.306 metros de desnível acumulado. Depois da subida de Col du Moulin à Vent, com quatro quilómetros a 5,1%, os ciclistas tiveram cerca de 50 quilómetros planos, seguindo-se dois circuitos, cada um com três voltas. Aí, o destaque foi a dura subida de Saint-Romain-de-Lerps (7 km a 7,2%), combinada com o explosivo Val d’Enfer (Vale do Inferno, em português), com 1,6 quilómetros a 9,7% de inclinação. Destaque ainda para o Montée de Costebelle (300 metros a 9,3%), no circuito final. A última passagem pelo Val d’Enfer aconteceu a 6,5 quilómetros da meta, pelo que a decisão podia aparecer nessa fase.

Sem Dylan van Baarle, Krists Neilands e Mads Pedersen, que se juntaram a António Morgado e não alinharam à partida, a primeira fase da corrida foi dominada por uma fuga com 14 elementos, com destaque para a presença de Tiago Antunes. Ainda assim, o ciclista da Efapel e os companheiros nunca conseguiram superar os dois minutos e meio de vantagem, por conta do trabalho desenvolvido por Eslovénia e Bélgica. A 109 quilómetros da meta, os belgas aceleraram a corrida na Côte de Saint-Romain-de-Lerps, partiram o pelotão e deixaram Jonas Vingegaard em grandes dificuldades, fora da discussão e a desistir na passagem pela meta. Pouco depois foi a vez de Pavel Sivakov atacar, com Evenepoel e Pogacar a responderem de pronto. A fuga acabou alcançada ainda longe da decisão, numa altura em que João Almeida, que perdeu o contacto a 92 quilómetros do fim, já se encontrava a mais de cinco minutos da frente e Rui Costa, que ainda aguentou algum tempo junto dos favoritos, a 1.09.

A 76 quilómetros da meta, na última passagem pela grande subida do primeiro circuito, Tadej Pogacar desferiu o seu mortífero ataque, levando Remco Evenepoel na sua roda, mas aguentou pouco tempo, deixando o campeão do mundo a solo. Paul Seixas, Juan Ayuso e Christian Scarponi uniram-se ao belga na perseguição e reaproximam-se, passando pela quarta vez na meta a apenas 41 segundos do esloveno. Já sem Almeida em prova, a corrida entrou no segundo circuito que, na teoria, assentava melhor em Evenepoel. Contudo, foi precisamente nessa fase que a diferença cresceu e fixou-se em definitivo acima de um minuto. No Vale do Inferno, o belga deixou para trás os companheiros de perseguição, partindo de novo em busca do dorsal 1. A duas voltas do fim, Tiago Antunes e Rui Costa também se despediram da corrida, que passou a contar com apenas 18 dos 101 ciclistas.

O ritmo continuou intenso, mantendo vivo o braço de ferro entre os dois galácticos à entrada para a volta final, onde o esloveno aproveitou para consolidar a vantagem. Assim, Tadej Pogacar sagrou-se campeão da Europa pela primeira vez, dando à Eslovénia a sua primeira medalha em provas de fundo dos Europeus. Esta foi a 106.ª vitória do esloveno na carreira — 18.ª em 2025 —, que repetiu o feito de Peter Sagan, que em 2016 chegou ao título europeu depois de ter sido campeão mundial. Remco Evenepoel cortou a meta a 31 segundos do rival e, apesar de continuar com a prova de linha em falta no seu palmarés, conquistou este domingo a 15.ª medalha em grandes provas (Mundiais, Jogos Olímpicos e Europeus) no espaço de seis anos. Na luta pelo bronze, Paul Seixas levou a melhor ao deixar Michele Scaroni e Juan Ayuso, que foi ultrapassado por Toms Skujins na reta da meta, para trás na derradeira subida e subiu ao pódio com apenas 19 anos. Mattias Skjelmose, Pavel Sivakov, Gianmarco Garofoli e Romain Grégoire completaram o top 10, numa corrida que acabou com apenas 17 ciclistas.