É apontado como um dos técnicos de maior sucesso da nova geração de treinadores portugueses. Formou-se no Benfica, clube em que deu o salto para o futebol sénior e conquistou o Campeonato logo na primeira época. Passou por Wolverhampton e Botafogo antes de voltar às águias, em setembro do ano passado. O percurso no clube do coração não correu bem, apesar de ter vencido a última Taça da Liga e, já nesta temporada, a Supertaça. Ainda assim, um início de setembro de altos e baixos levou-o a ser despedido dos encarnados. Num contexto diferente, Bruno Lage esteve no Portugal Football Summit para falar do futebol atual, do desenvolvimento dos jogadores mais jovens e daquele que poderá ser o futuro das equipas portuguesas.

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No Puma Stage, o treinador setubalense apresentou-se para “falar de coisas que não se fala no dia a dia” e começou por recordar o tempo em que esteve na equipa B do Benfica para falar sobre o projeto das equipas secundárias no desenvolvimento dos jogadores. “Tinha o objetivo de manter os jogadores formados nos clubes mais tempo nos clubes, permitindo que o processo seja controlado com o clube. O objetivo era formar e vencer. Ainda são poucos os jovens que, após um ou dois anos na equipa B, conseguem atingir a equipa A, jogar e render com a exigência pretendida. Há um conjunto de jogadores que não atingem o patamar de equipa A. Há 20 anos, este tipo de jogadores seriam emprestados. O Ricardo Carvalho é o melhor exemplo disso. O início da carreira dele passou por dois ou três empréstimos, antes de seguir a carreira no FC Porto, Chelsea e Real. Em meados de 2000 surgiram as primeiras equipas B. Desde 2012, as equipas competem na Segunda Liga. Hoje, em função do regulamento, que limita o número de empréstimos, e da visão global dos clubes, muito mudou. Os clubes preferem apostar nos seus jogadores”, lembrou.

“O mercado mudou e temos ameaças de mercados com uma capacidade financeira diferente, como a Arábia Saudita. Aconteceu com o João [Félix] e o Rúben [Neves]. No Brasil o poder dos clubes mudou e os jogadores são negociados a preços mais elevados. Também há os multi-clube, onde estão inseridas grandes equipas da Europa. Os clubes compram em todo o lado. O que verificámos no último mercado é que o valor médio de uma transferência aumentou imenso. Os jogadores estão mais caros. Até mesmo no nosso país mudou, já sofremos uma concorrência de todo lado, como aconteceu no V. Guimarães. Temos que olhar muito para aquilo que é o mercado da equipa B: continuar a formar, adaptar os jovens, tentar tirar o maior rendimento possível deles e vender. Temos de pensar que, ao dia de hoje, é cada vez mais difícil lucrar com jogadores contratados”, explicou sobre o que se sucede na atualidade, dando como exemplo o projeto da Red Bull, com Leipzig (Alemanha), Salzburgo (Áustria) e Bragantino (Brasil).

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Quanto ao futebol português, Bruno Lage explicou que, para as equipas serem competitivas, têm de “aceder à Liga dos Campeões e vender jogadores”, considerando que este processo não é sustentável a longo prazo. “Temos de pensar em soluções porque um clube de topo não pode estar dependente disto. Tem de passar por outra forma. Se não tivermos uma visão de longo prazo, acredito que, daqui a 10 ou 15 anos, os clubes em Portugal podem ter de passar de ser de sócios para terem um dono. Os clubes [portugueses] podem ter de passar pela compra de um clube [estrangeiro]. No centro da Europa existem mercados e países onde isso é possível. Já há clubes e equipas brasileiras que estão a fazer isto em Portugal, porque somos a melhor localização. O objetivo é colocarem cá os jogadores brasileiros para depois os transferirem para os melhores clubes da Europa”, afirmou.

“Nós compramos jogadores internacionais que depois não têm uma adaptação fácil. Isso requer o seu tempo. Quando se faz um investimento de 20/30 milhões, temos de ajudá-lo [o jogador] a adaptar-se melhor às exigências no imediato. O ano passado tínhamos o jogador que foi o mais caro de sempre do mercado do Benfica [Kökçü]. Recentemente tivemos Ríos e passado duas semanas Sudakov. É a evolução natural do mercado, que está cada vez mais global. Temos de perceber se temos a capacidade de comprar jogadores do mesmo nível que formamos e tirar rendimento dos atletas o mais rápido possível”, reiterou Lage, dando como exemplo aquilo que passou recentemente no Benfica.

A finalizar, o treinador falou sobre o futuro, lembrando que já esteve “em todo o lado no futebol profissional”, bem como “no futebol profissional”. “Enquanto treinador profissional tenho uma visão mais macro porque vim da formação. Trabalho para poder partilhar a minha visão a médio e longo prazo. Neste momento, um projeto no estrangeiro tem de ser algo para que possa olhar e apaixonar-me, mas também preciso de ter a família por perto”, sentenciou.