Os dedos de Gonçalo Pereira, ou Çal Pfungst, denunciam as marcas dos processos artesanais de tinturaria natural. “As cores normalmente revelam-se nas peças. E tens de esperar para perceber. Por exemplo, o índigo, quando fazes com o índigo, ele primeiro sai amarelo e depois é que vai ficando azul. Então é assim uma magia”, conta-nos o jovem designer, que apresentou a nova coleção no âmbito da plataforma Workstation da ModaLisboa, enquanto nos exibe uma marca da queimadura causada pelo toque numa panela fervente. O criador é um dos seis que faz parte da iniciativa, que visa apoiar os trabalhos daqueles que dão os primeiros passos no mundo da moda — e que para já precisam dividir os dias em turnos, focando-se nas coleções fora do horário laboral.
▲ Os designers Çal Pfungst e Arndes apresentaram coleções no âmbito da plataforma Workstation
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
Com formação em teatro e a experiência como professor de figurino no Chapitô, onde trabalha atualmente, o criador não separa a moda da arte — pelo contrário. Na passerelle, os modelos traziam galhos e folhas como acessórios de cabeça, que conversam com o desenho nas peças de roupa em seda, linho e lyocell, com coordenados de camisas e calças largas e cortes desconstruídos. Çal Pfungst, entretanto, não esconde que gostava de poder criar uma apresentação ainda mais performática e com menos “show off“. “Para mim (a ModaLisboa) é um evento que é sobre o design e devia ser sobre o design. Mas muitas vezes fica um bocado ofuscado pelo espetáculo. Pode parecer um bocado paradoxal, eu, sendo uma pessoa que venho do espetáculo, estar a criticar o espetáculo. Mas o lugar do espetáculo é mais neste lugar de criar histórias em conjunto e pensarmos em conjunto. O lugar artístico de criar pensamento. E não só do show off ou do aparecer.” Sobre crescer a marca, Çal Pfungst é direto: “Se escalar tem de ser de maneira também bastante intencional. A palavra acho que é por aí: consciência e intencionalidade. Porque estou cada vez mais, à medida que vou desenvolvendo a minha prática, que ela vai crescendo, a apostar neste lugar ético máximo”, diz. “Estou aberto, estou a descobrir”, garante ainda.
Ana Rita de Sousa, que assina a marca Arndes, lida diariamente com as dificuldades da “indústria”. A jovem criadora é gestora de produção em outra marca, em tempo integral, pelo que a coleção apresentada na ModaLisboa é um trabalho feito à noite e aos fins de semana. Porém, ainda considera que o mercado português não está preparado para apoiar a moda de autor. “Sou eu que faço os moldes, confeciono e pronto. Tudo o que acontece sou eu que o faço. Não consigo delegar ainda, porque realmente é difícil. Para ter algum parceiro, teria que ser uma pessoa constantemente comigo. Para perceber a linguagem que eu quero, o tipo de acabamentos que eu quero. E que realmente respeite o meu trabalho”, destaca a designer, que considera a Workstation uma oportunidade neste universo tão pequeno. “Fico super contente, porque acho que realmente é aquilo que eu gosto de fazer. E a ModaLisboa apoia e ajuda-me imenso a manter esse sonho.”
Na passerelle, Arndes apresentou peças de camisaria desconstruída, com pele, malhas e transparências, numa paleta de cores suaves com brancos, nudes e alguns pretos. “Esta coleção é a minha forma de representar o verão. Como aquilo que já tinha feito anteriormente, mantenho a linguagem da utilização das peças em segunda mão e reinterpretá-las, como também a utilização do deadstock. A diferença este ano é que eu introduzi flores naturais secas, que eram lá do jardim. Então, traz cada vez mais este lado pessoal da minha parte.”
Jovens designers apostam em criar identidades próprias
Imprimir o próprio ADN nas criações é o que Rita e os novos designers do Workstation tentam fazer, ao repetir linguagens, materiais, cores e padrões, mas com um twist que o mercado exige para se manter relevante. E foi esta construção de uma imagem visual própria que se viu na ao longo da Moda Lisboa. Dois dias antes da Arndes, foi a vez de Francisca Nabinho abrir a passerelle para os designers da plataforma, depois de entrar para o calendário na última edição da ModaLisboa através do Sangue Novo. “É um espaço muito experimental, em que nós temos liberdade para criar coisas um bocadinho mais fora da caixa. E interessava-me muito também descobrir quem é que eu era enquanto designer, portanto, experimentei a tecelagem, fiz experiência com cristais de sal, utilizei muito a malha, tanto a nível manual como a nível industrial. E, portanto, houve ali uma tentativa de explorar o máximo de materiais e de técnicas possíveis. E aprendi muito, gostei muito, mas agora quis virar-me para uma coisa mais ready-to-wear, mais comercial, no sentido em que quero, efetivamente, que a marca evolua para um caminho em que é sustentável viver”, destaca a jovem criadora, que além da marca própria trabalha como designer freelancer para outras marcas.
Francisca é filha do galerista Miguel Nabinho e traz referências das artes plásticas para o seu trabalho em moda. O conceito da nova coleção é inspirado na frase de José de Almada Negreiros, proferida em 1932 no Teatro Nacional D. Maria II: “A Alegria é a coisa mais séria da vida”. Mas o espírito era de uma discoteca dos anos 1970 ao som do funk dos anos 1990 de Jamiroquai. Francisca Nabinho já nos acostumou às cores e padrões, mas esta coleção vem com mais glamour e sensualidade, com vestidos com decotes profundos, brilho, sedas, lantejoulas e plumas. Entre as peças também há alguns fatos de banho com padrões geométricos e mais cores. O objetivo, segundo Nabinho, é disponibilizar em breve as peças prontas a vestir na sua loja online.
No final do desfile as modelos regressaram à passarelle como se estivessem a sair de uma festa, abraçadas, a sorrir e a filmar tudo com uma handcam, como se construíssem o desejo de pertencer. Na plateia as “Nabinho girls”, todas a vestir peças da designer, celebraram mais um sucesso da jovem criadora. “Era mesmo importante que o desfile fosse um momento em que, mesmo que não se gostasse eventualmente daquilo que eu estou a mostrar, a energia fosse transversal às pessoas que estavam a observar. Portanto, quem estava a assistir sentia a energia, foi uma coisa coletiva e positiva”.
▲ As "Nabinho girls" no final do desfile entraram juntas como se saíssem de uma festa
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
A seguir foi a vez de Bárbara Atanásio e o seu streetstyle oversized. Com malhas que imitam redes, camisolas com tie dye sujo, correntes e desfiados, a criadora apresenta uma evolução da coleção que trouxe em março. “Na última coleção estávamos a achar que estava tudo um caos e esta coleção é um bocadinho a esperança do amanhã e a esperança que são as crianças de hoje em dia. Começou um bocadinho por causa da cidade de Los Muchachos, que foi uma cidade que surgiu nos anos 50 em Espanha, que foi durante a ditadura. Foi quase tipo um paraíso com regras próprias, que era só gerida por crianças. Então, foi um bocadinho aí que começou o conceito”, explica ao Observador a criadora, ao falar sobre a vila de Bemposta, na Galícia, um projeto social e educativo criado pelo padre Jesús César Silvia Méndez.”Estudei História, portanto gosto muito deste lado e de ir buscar um bocadinho, pensar que sentimento é que eu quero passar e então que história que eu posso contar para passar este sentimento.”
Além de fazer parte da plataforma Workstation, Bárbara Atanásio trabalha com a dupla Marques’Almeida, o que para a jovem designer tem sido uma escola. “Começo a perceber que eu não posso fazer tudo sozinha, ainda mais porque eu trabalho ao mesmo tempo. Portanto, é um bocadinho uma aprendizagem mais pessoal, de pedir ajuda a outras pessoas, de dar lugar”.
Quem também assume o apego ao próprio trabalho é Diogo Mestre, da Mestre Studio. “Estou a tentar cada vez mais entrar para a parte da comercialização das peças, que nem sempre é fácil. Até por esta questão da manualidade. E muitas das vezes esta questão de não querer ter o desapego das peças, muitas das vezes são peças únicas. E nós não somos artistas, somos designers. Mas às vezes temos este sentimento de artista, de que a peça é única e nunca queremos desfazer-nos dela. É difícil, mas as peças têm um propósito. E se elas não se forem transportadas para o guarda-roupa de alguém e para o corpo, elas acabam por não fazer sentido enquanto peça de roupa”, reflete. Nesta coleção, além dos tricots e as capas de ganga às listas, traz referências do Alentejo e do Algarve, como as carteiras de palha feitas à mão e as galochas da marca escocesa Hunter, personalizáveis com uma série de autocolantes criados por Mestre, com referências diretas a elementos do seu universo. “Acho que não há nada mais próprio do imaginário do trabalhador no campo e que, ao mesmo tempo, não há nada mais próprio de uma criança que brinca à chuva, que umas galochas de borracha”, diz-nos o jovem designer, sobre o processo de pesquisa e criação. Para já, o Workstation tem sido um apoio para Diogo Mestre, que trabalha também como designer freelancer e visual merchandiser. “É preciso saber fazer tudo. Mas é preciso ter paciência, acima de tudo, e saber esperar.”
Gabriel Silva Barros, que em março ganhou um estágio na RDD Textiles, traz à passerelle da ModaLisboa uma coleção com a mesma linguagem vista há seis meses, com cor e sensualidade em peças que transitam entre géneros, mas também de olho no mercado. “Esta coleção começa de um desafio. Como trabalhar num num lugar mais industrial? Como trabalhar na indústria? Mas depois, claro, tem a minha essência, que é masculino e feminino. Queria mostrar isso”. Para chegar ao resultado final, o “Perlimpimpim Louco”, O jovem designer inspirou-se no trabalho de dois artistas portugueses: Delfim Maya e Francisco Simões. “A maneira como Delfim Maya constrói as suas texturas, para mim, é uma forma bastante masculina. E o Francisco Simões tem aquela feminilidade erótica”.
▲ O desfile de Gabriel Silva Barros traz uma coleção com muitos elementos femininos e masculinos, em peças que transitam entre os géneros
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
O designer estudou e vive atualmente no Reino Unido, onde já trabalhou com nomes como Palmer//Harding e Vivienne Westwood. Mas assume que o sonho da moda tem sido difícil de perseguir. “Até agora tem sido um hobby bem caro, com muita ajuda da minha família. Tive que me mudar para a casa dos meus pais”, conta Gabriel Silva Barros, que afirma que gostaria de trabalhar em Portugal, mas que para já não se quer restringir. “O mundo da moda é muito pequeno, toda a gente se conhece”, pondera. Entretanto, reconhece que para crescer é preciso pensar na ligação com a indústria — a tal base que foi tema da ModaLisboa — e às vezes é preciso ceder. “Tentei ajustar-me um pouco, mas na mesma tentar ser eu. Foram perguntas que ao longo desta coleção sempre tive na cabeça. Como é que eu podia fazer um fato de treino meu na mesma, na minha linguagem de criatividade e design? Como eu podia fazer uns calções que representem isso na mesma?”
Além do conhecimento técnico, Gabriel reconhece também que desde março desenvolveu mais habilidades de comunicação. “A moda sempre foi a minha primeira maneira de me expressar, até pela maneira que eu me visto. Portanto, eu percebi que realmente tu tens que ser muito bom a falar a moda. Tens que saber comunicar. Acho que na RDD eu consegui ganhar essa maturidade de passar a minha ideia para outra pessoa e conseguir dar essa responsabilidade a outra pessoa”, considera o jovem designer, que traz ao peito um bottom com a bandeira trans. “Esta coleção também fala disso. São perguntas que eu sempre tive comigo próprio. Sou muito feminino e sou muito masculino. Com tudo o que está a acontecer no mundo hoje, os direitos da comunidade trans estão sendo removidos. Portanto sim, quero mostrar que estou com eles. Os pensamentos deles são reais. Eles são quem são e eles podem ser quem querem escolher ser”.