Aos 18 anos, em 1976, Paul Burrell começou a trabalhar no Palácio de Buckingham, servindo a Rainha Isabel II e o Príncipe Filipe. Valoriza a rainha como “calorosa, amável, generosa, cristã, todas as qualidades que associamos à nossa avó”. Num episódio do podcast Daily T, do The Telegraph, Paul abre o jogo sobre alguns dos assuntos mais explosivos da família real britânica, enquanto anuncia um novo livro The Royal Insider. “Se amarem a rainha, e se amarem Diana, vão amar este livro.”
Em 2001, Paul foi acusado de ter roubado 310 itens pessoais de Diana, incluindo pinturas, porcelana, fotografias assinadas, notas pessoais e roupas, artigos que juntos valiam mais de 5 milhões de euros. Agora, Paul diz que esta era a maneira de “proteger Diana em morte como a protegeria em vida”. Diz que a família de Diana “deixava a máquina de triturar papel a deitar fumo, de tão quente que estava”. Logo, Paul viu por bem proteger “o mundo de Diana”, guardando os objetos, e alega que também que a princesa lhe tinha doado algumas das peças. O caso foi para tribunal, mas só foi arquivado quando a Rainha Isabel II interveio, confirmando que o mordomo a tinha informado de que os bens estavam na sua posse.
No Palácio de Buckingham, o jovem Paul, acabado de começar nas suas funções, chamou a atenção da Rainha Isabel, marcou uma audiência no palácio. Numa espécie de teste ao novo lacaio, “vamos ver se eles gostam de si”, disse a Rainha. Lá foi Paul, com os nove corgis e um labrador, até ao jardim do Palácio de Buckingham, onde correu e brincou com os cães de maneira muito bem-sucedida, impressionando a Rainha. Passou o teste e a monarca decidiu mantê-lo no cargo.
Paul considera a Rainha uma das pessoas mais simpáticas da família real. “Havia uma aura sobre ela, um espaço que ninguém podia penetrar, e toda a gente sabia disso”, diz Paul, que não tem a mesma impressão de Filipe. Adianta que os jovens funcionários tinham todos medo do príncipe, porque ele “gritava muito, era muito macho alfa”. Já com as funcionárias, das quais uma delas, a mulher de Paul, Filipe era muito amável e tratava-as muito bem. Inclusive, Paul confessa que o consorte real trazia sempre presentes e chocolates à sua mulher quando voltava de viagens oficiais.
No podcast, Paul revela que, ao contrário da crença popular ou daquilo que se vê na série The Crown, Filipe e Isabel dormiam no mesmo quarto. Diz que todas as manhãs era levado a Filipe um tabuleiro com chá Darjeeling e um biscoito digestivo. O ex-mordomo compara esta rotina matinal à rotina de um casal suburbano ou de classe média, pois enquanto Filipe bebia o seu chá, Isabel não tomava nada, mas chamava os famosos cães para a cama. Roubava ao seu marido o biscoito e dava-o aos cães, e assim se começava a manhã da realeza.
Em 1987, Paul mudou-se para Highgrove, pronto para servir o casal Diana e Carlos. Ainda no Palácio de Buckingham, Paul foi avisado da tensão entre ambos, dizendo que “não está tudo bem com o casal de Gales”.
O convidado do podcast disse que “soube imediatamente” que Carlos tinha uma amante, porque enquanto Diana estava em Londres com os rapazes durante a semana por causa da escola deles, Carlos ficava em Highgrove e encontrava-se quase todos os dias com Camila. Durante o fim de semana, Diana e os filhos iam para lá, e “brincavam à familia feliz”. Paul conhecia esta rotina, e sabia o que se passava, mas “tinha de manter os dois mundos separados”, portanto nunca discutiu o assunto com Diana.
Paul recorda a ocasião em que o príncipe Carlos lhe atirou um livro à cara, numa ataque de raiva, porque o mordomo deixou escapar à princesa que o marido não estava em casa durante a noite. “Tu vais, sim, mentir por mim. E quando eu for rei deste país, vais continuar a mentir por mim.” Paul ficou confrangido, levando o rei a levantar-se bruscamente e a atirar-lhe o peso. Burrell soube logo que estava em apuros, afirma.
Passadas umas semanas, o casal anunciou a separação. Discutindo o que Diana podia levar, Carlos deu-lhe total liberdade. Seguindo esta lógica, Diana quis levar Paul. Com alguma resistência do príncipe, conseguiu.
Em Londres, Paul viu florescer uma relação muito mais íntima com a princesa. Esta chegou a dizer que Paul, a mulher e os dois filhos seriam cuidados. “Seremos uma grande família feliz”, dizia Diana. A mulher de Paul ficou alegadamente reticente face a esta relação, que exigia tanto tempo e afeto da parte do marido. Havia um entendimento, diz Paul: “A Diana precisa mais de mim do que tu, porque tu tens os nossos rapazes, e a Diana não tem os dela”.
À medida que ficaram mais velhos, William e Harry foram para o colégio interno e deixaram Diana sozinha durante uma grande parte do tempo. O tempo livre que tinham, era entregue à família real e aos deveres dos rapazes, porque a princesa percebia o que significava a instituição em que os filhos estavam inseridos.
Paul não tem dúvida que Carlos amava os seus filhos, apenas o fazia de maneira diferente. Hoje, como Rei e líder da Igreja de Inglaterra, Carlos “tem o dever de perdoar”, e tomar iniciativa com o o filho Harry. A tensão vem principalmente do casamento de Harry com Meghan Markle, que o afastou da família real, diz, culminando no livro de memórias Na Sombra de Harry.
Paul diz que Harry se esqueceu de quais são os seus deveres como membro da família. “Diana diria que a obrigação de Harry era servir o irmão [William], ser um apoio no seu caminho até ao trono. Tudo isto mudou quando Diana morreu e subsequentemente quando Harry conheceu Meghan”.
“É uma questão difícil”, avança Burrell, “escolher amor ou dever”. “Harry escolheu o amor. E suponho que de certa forma, Diana também teria escolhido amor.” Porém, Paul reconhece ainda que supor não leva a lado nenhum, e que pensar no que Diana faria ou teria feito é redundante.
Paul sublinhou as diferenças entre William e Harry, considerando que o primeiro “é o rapaz que ficava no canto, observava, considerava, e media. Soube sempre que um dia teria de ser rei, porque foi assim criado”. Ainda compara o pequeno William ao seu filho George, “sério, bem educado, como William foi”.
Nos últimos minutos do podcast, o anfitrião pergunta-lhe o que Diana teria dito sobre Meghan e Kate. Paul respondeu, lembrando o “coração partido” de Harry visível enquanto caminhava atrás do caixão de sua mãe, argumentando que este esteve perdido durante estes anos todos porque “não sabia onde encontrar o amor”. “Quando ouviu uma mulher de 36 anos, madura, americana, a sussurar-lhe ao ouvido coisas como ‘eu e tu podemos ser uma boa equipa, podemos mudar o mundo’, ele não ouviu Meghan, ouviu a voz da mãe”, encontrando assim o amor que tanto procurava. Em última análise, “se Diana estivesse viva, duvido que Harry se tivesse casado com Meghan”, diz Paul.
Sobre Kate, Paul ressalva a quase perfeição desta, dizendo que “pode ter tido alguns confrontos com Meghan, porque tem atitude”, mas que “é o exemplo perfeito do que uma futura rainha deve ser”. O ex-mordomo da princesa diz que esta “teria adorado Kate; e teria amado aqueles miúdos”, enfatizando Charlotte.
O livro The Royal Insider, de Paul Burrell, foi publicado a 11 de setembro em Inglaterra.