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Todos olhavam para os números do clube. Para os 40.085 votantes de 2021, percebendo que Rui Costa foi legitimado com quase 85% após assumir a liderança de forma interina quando Luís Filipe Vieira se demitiu na sequência da Operação Cartão Vermelho. Para os 38.102 votantes de 2021, percebendo que Luís Filipe Vieira teve a vitória com margem mais apertada ao longo de quase duas décadas contra João Noronha Lopes. No entanto, essa visão ficou curta desde manhã. Ficou curta porque muito rapidamente se percebeu que todos esses registos não demorariam a ser “atropelados” por uma realidade oposta. Ficou curta porque, à hora de almoço, a possibilidade de haver recorde mundial já era grande. Ficou curta porque, andando pelos arredores do Pavilhão da Luz, a sensação que ficava era a do sufrágio de 2000 ganho por Manuel Vilarinho.
Eleições Benfica. Maratona terminou com 85.422 votantes, votos já começaram a ser contados
Aí, havia sobretudo vontade de votar. Só com duas listas entre o presidente da altura, João Vale e Azevedo, e o candidato da mudança, Manuel Vilarinho, os associados dos encarnados rumaram ao Pavilhão da Luz de uma forma que ficou para a história, superando a barreira dos 21 mil votantes (21.804) na sequência de uma campanha sempre tensa que teve prolongamento pela madrugada até ao triunfo de Vilarinho por 62%. Mais do que o resultado, mais do que o vencedor, mais do que o número de votantes, os mais velhos recordavam esse filme de 2000 pela manifestação de benfiquismo que arrastava todos os sócios às urnas. E é por aí, com um puxar da fita atrás um quarto de século, que podemos começar aquele que foi um dia longoooooo que promete ser ainda mais longoooooooo mas onde foi feita uma história que é independente do resultado.
Pouco depois das 8h, havia uma única roulotte na zona de acesso ao Estádio do lado do Colombo – o mesmo número que sobrava nessa mesma eleição ganha por Vilarinho a Vale e Azevedo. Poucas horas depois iriam chegar ou abrir muitas mais, além dos habituais postos para vender cachecóis, camisolas e bandeiras como acontece sempre em dia de jogo. Pois, essa era a questão: era dia de jogo. E se a roulotte podia tentar abrir o apetite apesar da hora madrugadora, a zona do túnel de acesso ao perímetro da Luz mostrava que ir ser um dia diferente em tudo, com uma passagem estreita pela direita apenas destinada para quem fosse votar num caminho que chegava à zona da entrada principal e virava depois para as traseiras do Pavilhão número 2 fazendo uma espécie de gincana de vai-e-vem com barreiras de segurança logo à frente do Museu.
Essa zona já estava cheia, a fila até chegar a esse espaço ainda não era longa como viria a acontecer durante várias horas. José Pereira da Costa, presidente da Mesa da Assembleia Geral, preferiu primeiro garantir que tudo decorria dentro da normalidade nos outros locais de votos antes de falar, o início poucos minutos das 8h30 foi o pontapé de saída que “fintava” alguns atrasos, filas e problemas noutros pontos (em Beja, por exemplo, não chegaram os boletins de dez votos e foram enviados boletins de 50 votos em duplicado) mas que marcava uma cadência que se foi mantendo de forma quase inalterável até às 13h30 com uma média de 160 a 180 pessoas a entrarem no Pavilhão da Luz a cada cinco minutos de contagem. “Tudo tem corrido conforme estava previsto, dentro da normalidade, e o número é de facto grande. Votaram já 7.572 sócios em duas horas, o que permite antever um dia de grande votação”, apontava Pereira da Costa às 10h30.
Rui Costa já tinha votado com mulher, um dos filhos e os pais, num caminho que pareceu menos efusivo do que é normal quando o presidente do Benfica está no meio dos “seus”, João Ferreira Leite, líder da lista A que concorria apenas pela Assembleia Geral falou também aos jornalistas (recusando colocar-se ao lado de um dos seis candidatos), Jaime Antunes e Shéu Han chegaram ao interior do Pavilhão numa altura em que a fila já se começava a alongar até ao Colombo – o que motivou atrasos de todos os candidatos em relação à hora tendencialmente prevista de votação. Entre adeptos que tinham na maioria algo do clube entre camisolas, cachecóis, casacos ou chapéus, passaram nesse período da manhã pela Luz figuras como o candidato à presidência da República e antigo líder da IL João Cotrim de Figueiredo, o ex-presidente Manuel Damásio, os antigos vices José Manuel Capristano, José Eduardo Moniz e Varandas Fernandes, o músico Samuel Úria, o escritor Jacinto Lucas Pires ou o empresário Carlos Santos Silva, entre muitos outros.
Romaria à Luz envolveu também um Super Mario do Benfica que não passou ao lado de todos os presentes
Estava na hora de começar a cadência mais frequente de candidatos a passarem pela zona destinada a todos os meios de comunicação, com Cristóvão Carvalho a abrir hostilidades seguindo-se depois em menos de duas horas Martim Mayer, João Noronha Lopes (que fez um compasso de espera para não coincidir com o gestor enquanto falava à imprensa) e João Diogo Manteigas – Luís Filipe Vieira preferiu votar na Casa do Seixal, ficando mais tempo à espera na fila do que aconteceria na Luz mas marcando uma posição a ponto de deixar a garantia de que, em caso de vitória, iria colocar o gabinete da presidência no Benfica Campus. Seguiram-se Humberto Coelho (ainda a recuperar de uma intervenção à anca), Nuno Gomes ou Abel Xavier. Antes, neste caso na Casa do Seixal pelo estágio antes do jogo, votou todo o plantel sénior do futebol.
A partir das 14h, e durante duas/três horas, as coisas foram “acalmando”. Por um lado, a chuva começou a cair com alguma intensidade, o que levou alguns sócios a resguardarem-se junto do Estádio da Luz antes de avançarem para a fila. Por outro, havia filas muito maiores nas Casas espalhadas pelo país do que nos dois pavilhões da Luz, com uma média de meia hora. Por fim, porque o recorde do clube foi confirmado de forma natural após a atualização das 15h (mais de 42 mil, superando a barreira de 2021), ficando todas as atenções focadas na possibilidade de chegar aos 57.088 das eleições que colocaram Sandro Rosell como líder do Barcelona em 2010 (os catalães tinham também a segunda mais participada com 56.300 em 2021, com o Boca Juniors a juntar-se ao pódio no sufrágio que deu a vitória a Juan Román Riquelme em 2023).
Toni, atual vice-presidente da Federação que foi campeão como jogador e treinador pelos encarnados, foi a presença mais “notada” nesse período vespertino, recebendo uma grande salva de palmas quando saiu do Pavilhão 1 após votar que o deixou emocionado. Pouco depois, Pereira da Costa confirmava o inevitável: o recorde mundial da votação em eleições de clubes estava superado depois da atualização das 17h, ainda a cinco horas do fecho das urnas. “Aquilo que parecia ser uma evidência, tornou-se uma realidade. O Benfica bateu o recorde mundial de votação, já votaram 58.808 sócios. Um agradecimento especial a todos aqueles que estão aqui a trabalhar, aos que colaboram, aos órgãos que estão aqui a trabalhar, aos órgãos de comunicação, mas sobretudo aos trabalhadores”, salientou o presidente da Mesa da Assembleia Geral.
José Pereira da Costa, presidente da Mesa da Assembleia Geral (e Eleitoral) do Benfica, anunciou número final de votantes depois das 23h
O aproximar da hora do encontro foi desmobilizando em grande parte as pessoas, que começaram aí a virar a página por alguns momentos tendo em conta a importância da receção ao Arouca depois da derrota frente ao Newcastle. Assim, o único ponto a causa maior ruído foi a falta de boletins em alguns locais de voto, por atrasos ou por terem simplesmente esgotado perante a autêntica avalanche de associados às urnas (em alguns casos boletins de 50 votos, noutros de 20). Quinta do Conde – o que fez com que Manuel Vilarinho se tivesse de deslocar a Palmela para conseguir votar este sábado –, Montijo, Mafra, Moita, Charneca da Caparica, Santo Tirso ou Matosinhos foram alguns desses exemplos. Na Luz, outro dos temas falados era a mensagem que teria sido enviada pela campanha de João Noronha Lopes a apelar ao voto. Ao Observador, a explicação sobre esse texto enviado era que se tratava de algo num circuito fechado de voluntários ligados à campanha, sem que tivesse existido um envio indiscriminado de informação a quem não estivesse na lista.
As urnas fecharam às 22h, conforme esperado, sendo que todos os sócios que estivessem no local a essa hora podiam votar caso existisse fila (algo que deixou de existir na Luz). No epílogo de um dia onde já havia um vencedor chamado Benfica qualquer que fosse o resultado na Luz ou nas eleições, e que decorreu com os pequenos supracitados problemas mas sem qualquer tipo de tensão ou quezília (houve apenas dois sócios mais idosos assistidos depois de sofrerem pequenas quedas), faltava apenas saber o número final que iria ficar para a história com essa certeza de que, de acordo com a última atualização antes do fecho das urnas, mais de 50% dos sócios que podiam ir votar foram às urnas. Sobrou esse número: 85.422 votantes.