“Ansioliticamente falando”, de Raquel Castro
Centro Cultural de Belém — Pequeno Auditório, Lisboa (4 a 9 de novembro)
Farta de fazer espetáculos autobiográficos, Raquel Castro lançou-se a encenar peça A Gaivota, de Anton Tchékhov. Ansioliticamente falando, que se estreia no Pequeno Auditório do CCB, é o resultado dessa tentativa fracassada: a de fugir de si mesma. “Por mais que tente, a Raquel não se consegue ver livre dela. A sua vida está por toda a parte. Até em Tchékhov”, lê-se na pequena sinopse que anuncia o espetáculo.
▲ O elenco da peça "Ansioliticamente Falando", a nova criação de Raquel Castro (ao centro)
Na linha de criações anteriores como A Morte de Raquel ou As Castro, a biografia da artista cola-se à pele como uma segunda sombra: muda de forma, mas nunca desaparece. A voz de Castro continua lá, infiltrada nas falas alheias, a respirar por entre as palavras de Tchékhov e da própria (que assina o texto e integra o elenco). Afinal, o teatro — como a vida — é sempre autobiográfico. Mesmo quando jura que não é.
“Sem Rede”, com Rui Paixão
Teatro Oficina, Guimarães (4 de novembro)
Rui Paixão é uma figura ímpar do novo circo e da performance contemporânea. Passou pelo Cirque du Soleil e colaborou enquanto intérprete ou cocriador com nomes como Adam Read, Hugo Bélanger, Visões Úteis, John Romão e Marlene Monteiro Freitas — integrando Lulu e NÔT, obras que consolidaram o seu reconhecimento internacional.
▲ Rui Paixão apresenta-se no Teatro Oficina, em Guimarães, para uma única performance
Conhecido pela sua forma singular de transformar o riso em matéria de reflexão, Paixão apresenta no Teatro Oficina uma performance que promete revelar “o que acontece quando um nariz cai demasiadas vezes”. “É que ao palhaço, mesmo que a comédia seja a sua tragédia, não devemos ver nem a sua montagem nem a sua desmontagem: e essa é uma máscara que também montámos em torno do vício do sucesso”, consta na breve nota que anuncia a performance, de entrada livre, mediante inscrição.
“José Afonso, ao vivo nos Coliseus, 1983”, de Gonçalo Amorim/TEP
Teatro Municipal do Porto — Rivoli Grande Auditório, Porto (7 e 8 de novembro)
A 29 de janeiro de 1983, José Afonso subiu ao palco do Coliseu dos Recreios, em Lisboa, para aquele que seria um dos seus derradeiros concertos. O artista estava já gravemente debilitado pela doença que o levaria à morte quatro anos depois. O concerto, registado pela RTP, deu origem ao duplo-álbum Ao Vivo no Coliseu, lançado poucos meses depois, e a um filme-concerto. José Afonso, ao vivo nos Coliseus, 1983, a nova criação do Teatro Experimental do Porto, é um espetáculo que presta homenagem a esse momento, entrelaçando música, teatro, performance e poesia.
▲ "José Afonso, ao vivo nos Coliseus, 1983", a nova criação do Teatro Experimental do Porto, é um espetáculo que entrelaça música, teatro, performance e poesia
Encenado por Gonçalo Amorim, com textos de Lígia Soares, Marta Figueiredo, Miguel Cardoso, Rui Pina Coelho (que também faz a coordenação dramatúrgica do projeto) e Susana Moreira Marques, o espetáculo propõe, mais do que reconstituir o concerto original, uma reinvenção, um gesto teatral que revisite o legado de José Afonso com liberdade, emoção e um olhar contemporâneo. A direção musical é de Mariana Leite Soares e Pedro João.
“Flesh can’t can’t not’t ’tis flesh h…”, de Mario Barrantes Espinoza
Sala Estúdio Valentim de Barros/ Jardins do Bombarda, Lisboa (16 a 18 de novembro)
Mario Barrantes Espinoza (Costa Rica/Nicarágua) imagina um universo de ficção científica atravessado pelo reggaeton, pelo perreo e pela experiência de habitar uma língua estrangeira. Inspirado na história da América Central — e na sua herança de exportação de corpos e frutas tropicais —, o espetáculo convoca um futuro à beira do colapso, onde o desejo e a exaustão se confundem.
▲ A nova criação de Mario Barrantes Espinoza, "Flesh can't can't not't 'tis flesh h...", é um dos destaques da edição deste ano do Festival Alkantara
Em palco, dois intérpretes guiam o público por paisagens em mutação: corpos que se desfazem, resistem e renascem ao ritmo de um mundo turbulento. À volta, ecoam vozes distorcidas, locutores de rádio e fragmentos de arquivos, como rastos sonoros que denunciam os circuitos da migração, de pessoas, palavras e mercadorias. Entre batidas urbanas e memórias coloniais, Flesh can’t can’t not’t ‘tis flesh h… funde dança, texto projetado, escultura e DJ set. O que fica é um delírio coreográfico onde o corpo diz o que a linguagem já não consegue articular.
“Branca de Neve & Outros Dramalhetes“, de Robert Walser, encenação de Nuno Carinhas
Teatro Nacional São João, Porto (20 de novembro a 14 de dezembro)
Sete anos depois, Nuno Carinhas regressa ao Teatro Nacional São João para encenar Branca de Neve & Outros Dramalhetes, a partir de três poemas dramáticos do autor suíço de expressão alemã Robert Walser (1878-1956). São eles Branca de Neve, Gata Borralheira e A Bela Adormecida.
▲ “Branca de Neve & Outros Dramalhetes", de Robert Walser, com encenação de Nuno Carinhas, é um dos destaques da rentrée do Teatro Nacional São João, no Porto
Tomando como ponto de partida os contos tradicionais, Walser subverte os percursos das histórias e a identidade das suas personagens, para explorar temas como a liberdade e a procura da felicidade. Como notou Walter Benjamin, estes pequenos dramas em verso parecem começar “onde os contos dos Irmãos Grimm acabam”. A Branca de Neve perdoa à rainha malvada pela tentativa de homicídio, a Gata Borralheira duvida do príncipe e aprecia o ódio das meias-irmãs e a Bela Adormecida deplora o facto de ter sido acordada por uma absurda e despretensiosa personagem walseriana. Para esta reinterpretação que desafia a nossa definição de conto de fadas, Carinhas conta com o elenco residente do São João: Joana Carvalho, Lisa Reis, Patrícia Queirós, Paulo Freixinho e Pedro Almendra, e ainda Alberto Magassela, Luísa Cruz e Sara Carinhas.
“Violetas”, de Vânia Doutel Vaz
TBA — Teatro do Bairro Alto, Lisboa (21 a 23 de novembro)
Vânia Doutel Vaz leva ao Teatro do Bairro Alto, em Lisboa, Violetas, uma peça minimalista e sem música na qual cinco mulheres afroportuguesas habitam o palco e os seus limites, experimentando o corpo que dança. Entre o movimento e a contemplação, cada bailarina ocupa o espaço à sua maneira — cada corpo, voz e presença a revelar uma história íntima. Fragmentos que, juntos, desenham uma sequência de pulsos, como se cada solo fosse parte de um mesmo respirar.
▲ "Violetas" é a primeira peça de grupo de Vânia Doutel Vaz, intérprete e criadora angolana nascida em Portugal, que em 2022 levou ao TBA, em Lisboa, o solo "O Elefante no Meio da Sala"
Esta é a primeira peça de grupo de Vânia Doutel Vaz, intérprete e criadora angolana nascida em Portugal. Vaz dirige o movimento para Zia Soares, Teatro Griot, Aurora Negra e Gio Lourenço e trabalha como intérprete e diretora de ensaios com Trajal Harrell desde 2018. Em 2022, estreou o solo O Elefante no Meio da Sala, também no TBA. Desde 2024 que colabora com Legia Lewis substituindo-a no solo A Plot | A Scandal.
“Empregos Modernos”, de Chris Thorpe, direção artística de Alfredo Martins
Teatro Viriato, Viseu (27 e 28 de novembro)
O trabalho é um dos pilares da organização social. Determina onde, como e com quem passamos grande parte do tempo, a nossa condição social e posição na sociedade. É força motriz da economia e pode até ser um símbolo de reconhecimento, mas, quando se transforma em mercadoria, revela também o seu lado mais desigual. Empregos Modernos, do dramaturgo britânico Chris Thorpe, pretende problematizar o conceito de trabalho e as formas contemporâneas que este assume. Em palco, um coro de trabalhadores (reminiscente do coro brechtiano) partilha a sua rotina laboral, deixando a nu tensões, angústias e relações de poder.
▲ É no Teatro Viriato, em Viseu, que se estreia "Empregos Modernos". A peça chegará a Lisboa, ao Teatro São Luiz, em fevereiro do próximo ano
© Pedro Granadeiro / Global Imagens
Com direção artística de Alfredo Martins e coprodução do Teatro Viriato, o elenco é composto por Anabela Almeida, Cláudia Gaiolas, Duarte Guimarães, Mauro Hermínio e Sara Duarte.
“A Vida Secreta dos Velhos”, de Mohamed El Khatib
Theatro Circo, Braga (28 de novembro)
É um título provocatório o de Mohamed El Khatib, que em nada condiz com a sensibilidade do espetáculo que leva a Braga depois de uma fugaz passagem no último festival Alkantara. A Vida Secreta dos Velhos é uma peça sobre o amor e o desejo na velhice, sobre a descoberta da sexualidade com um ritmo próprio.
▲ "A Vida Secreta dos Velhos" foi uma das peças que se destacou da última edição do festival Alkantara, em 2024. Torna a Braga para uma apresentação única
Mohamed El Khatib, autor e encenador reconhecido pelas suas epopeias íntimas em que a performance, a literatura e o cinema se cruzam, constrói esta narrativa a partir de encontros e entrevistas com pessoas idosas de diferentes origens. O resultado é um retrato multifacetado do amor perante o envelhecimento e um convite a reconhecer, sem pudor, que o desejo também envelhece, mas não desaparece.