1230,7kWh poupados 1230,7 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

A peça estreou-se em julho no Festival d’Avignon, no histórico Palácio dos Papas, onde colheu reações mistas do público
i

▲A peça estreou-se em julho no Festival d’Avignon, no histórico Palácio dos Papas, onde colheu reações mistas do público

Christophe Raynaud de Lage

▲A peça estreou-se em julho no Festival d’Avignon, no histórico Palácio dos Papas, onde colheu reações mistas do público

Christophe Raynaud de Lage

Depois de abalar Avignon, a perplexidade, o fascínio e a violência de "NÔT", de Marlene Monteiro Freitas, por fim entre nós

Para uns incompreensível, para outros fabulosa, a peça da coreógrafa que se estreou em julho no Festival d'Avignon, em França, abre-se ao olhar português este mês. Primeiro em Lisboa, depois no Porto.

Rostos atónitos multiplicavam-se na plateia da Cour d’Honneur do Palácio dos Papas, em Avignon, França. Alguns não resistiam a sair a meio do espetáculo, enfurecidos. Outros ficariam tempo suficiente para vaiar assim que as luzes se apagaram. Mas todos seriam rapidamente silenciados pelos aplausos.

As reações mistas do público a NÔT, espetáculo da cabo-verdiana Marlene Monteiro Freitas, marcaram a abertura do importante festival de teatro francês, em julho. Naquele palco monumental, reservado a figuras maiores do teatro mundial, Avignon abriu-se àquilo que não se explica: à estranheza, à violência poética, à radicalidade de corpos em luta. A escolha do diretor do certame, Tiago Rodrigues, para abrir com NÔT não foi inocente.

A coreógrafa, consagrada na Bienal de Dança de Veneza em 2018 como “um dos melhores talentos da sua geração”, não leu nenhuma crítica ao espetáculo, como é habitual. “Sei a natureza das críticas, mas não as li. Raramente leio”, admite ao Observador. Há um fascínio no que é indizível na dança de Marlene Monteiro Freitas e isso reflete-se também no modo como fala: em poucas palavras, baixinho, com pausas longas que parecem dar corpo ao silêncio. Essa mesma contenção, transformada em linguagem cénica, alimenta a sua visão singular na dança contemporânea, capaz de converter o palco num espaço de encantamento e assombro — um que agora chega aos palcos portugueses, primeiro na Culturgest, em Lisboa, entre os dias 11 e 14 de setembro, e depois no Teatro Municipal do Porto — Rivoli, na Invicta, a 19 e 20 de setembro.

▲ O livro "As Mil e Uma Noites" foi o ponto de partida da coreógrafa para "NÔT", que significa “noite” em crioulo cabo-verdiano

Christophe Raynaud de Lage

NÔT — “noite” em crioulo cabo-verdiano — é inspirada no cânone absoluto da literatura em árabe, As Mil e Uma Noites. O trabalho parte da ideia de Xerazade, que conta histórias para salvar a vida, transformando a imaginação em arma de sobrevivência. Só que a coreógrafa há muito radicada em Portugal não é uma contadora de histórias convencional. O espetáculo surge mais como uma colagem livre de imagens, com referências diretas ao clássico literário apenas pontuais.

Procurando decifrar o seu processo criativo, Marlene Monteiro Freitas explica ao Observador que NÔT nasce do diálogo entre duas ideias: a das Mil e Uma Noites e a da própria noite. Não é só a obra literária que a inspira, mas também essa zona ambígua em que o sono e o sonho se confundem, em que as histórias se inventam e se vivem. “As histórias estão contadas durante a noite e a estrutura da obra é pautada por uma suspensão, em que se sobrepõem, imagens dentro de outras imagens. Histórias que nós próprios construímos, que têm uma natureza parecida com a inventividade da Xerazade.”

Pais, filhos e fantasmas: as vozes da família ecoam nos palcos de Avignon

No palco, os corpos ganham tensão de marionetas, num jogo entre absoluta rigidez e momentos de libertação. Há uma estética clownesca, com máscaras e um humor desconcertante, como quando um intérprete desce até à plateia com um penico, fingindo urinar no colo do público. Cenas que provocam desconforto, mas que, em Avignon, já não chegam propriamente a escandalizar dado o histórico do festival anual.

▲ Em palco estão oito intérpretes: Ben Green, Henri “Cookie” Lesguillier, Joãozinho da Costa, Mariana Tembe, Marie Albert, Miguel Filipe, Rui Paixão e Tomás Moital

Christophe Raynaud de Lage

“Tudo o que ponho em cena são coisas que me fazem rir, ou que me emocionam… É muito difícil o meu gosto estar alinhado com o gosto de mil e tal pessoas”, diz, com um sorriso. “Não é para colocar as pessoas em desconforto, mas porque eu gosto.”

Esse afastamento em relação às convenções é algo que a própria reconhece: “Tem sido recorrente no meu percurso apoiar-me em determinadas obras e, depois, a tradução que faço nunca está alinhada com as expectativas (risos).” Foi assim em Bacantes – Prelúdio para uma Purga (2017), — “as pessoas não viam a tragédia grega” — ou em Lulu (2023), a ópera incompleta de Alban Berg, onde “as pessoas não viam a Lulu”. Perguntamos-lhe se não será esse o papel da arte, desafiar convenções, o esperado. “Talvez”, responde simplesmente. “Eu faço isso porque não sei fazer de outra maneira. Não é um esforço para o fazer”.

Num novo livro sobre a obra coreográfica de Monteiro Freitas, a investigadora, curadora e professora Alexandra Balona mergulha na forma como Monteiro Freitas tem construído coreografias que abrem “espaços de estranheza e contradição”, onde corpos e materiais em diáspora se transformam em busca de sentidos plurais. E NÔT, entre o grotesco e o sublime, encontra momentos dessa pluralidade e assombro coletivo. É o caso da interpretação de Mariana Tembe ao som de Les Noces, o sombrio bailado de Stravinsky sobre um casamento camponês russo marcado por uma profunda violência.

▲ A cenografia ergue-se em grelhas metálicas brancas que se cruzam e dividem o espaço, povoado por corpos mutantes que se entregam a movimentos de transe

Christophe Raynaud de Lage

Essa fisicalidade extrema convoca o fantasma de Xerazade, que, nas Mil e Uma Noites, negoceia a própria sobrevivência face ao rei Shahryar, que assassinava uma noiva a cada noite. É porventura o grande tema de que atravessa NÔT, a violência de género, com performers que se alinham para trocar lençóis ensanguentados, vezes sem conta, enquanto bonecas de avental transformam facas em instrumentos musicais antes de se atacarem mutuamente. O tilintar das facas convive como uma trilha sonora, que vai de Stravinsky a Prince ou Nick Cave (“O Nick Cave é um condenado à morte a aguardar a sua vez”, solta Marlene).

A cenografia, feita de estruturas metálicas, camas, facas, copos e pratos vazios, remete para a ideia de cárcere e poder, mas sem encerrar completamente o espaço. “Há qualquer coisa de rendilhado”, descreve a criadora, “entre a dureza do metal e uma leveza que permite ver através. Não é especificamente uma prisão”. Neste espaço repleto de ambiguidades, o que espera Marlene que este espetáculo provoque?

▲ Marlene Monteiro Freitas nasceu em São Vicente, Cabo Verde. Aos 18 anos mudou-se para Portugal para estudar dança e hoje afirma-se como uma das vozes mais relevantes da criação contemporânea

Stephie Grape

“Uma sacudida”, começa por dizer. “Gostava que provocasse movimento, acho que seria o meu maior desejo. A Xerazade está em confronto com um coração que perpetua uma matança constante. Essa matança é parada com o movimento dela. O espetáculo vem contar as histórias, dividir imagens, dividir essa matança”. Quem tem sangue nas mãos?

O Observador viajou a convite do Centro Cultural de Belém, Culturgest e Teatro Municipal do Porto

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.