O caso da grávida que morreu este fim de semana, após uma cesariana de emergência, levou à demissão do presidente do Conselho de Administração da Unidade Local de Saúde de Amadora-Sintra, à qual pertence o hospital conhecido pelo mesmo nome. A ministra da Saúde aceitou a demissão, falando numa “falha grave” na informação que lhe foi transmitida sobre o caso.
Esta segunda-feira, a ministra falou brevemente aos jornalistas, a partir de um evento onde estava, no Porto, para dizer que na sexta-feira — dia em que o caso foi noticiado e em que falou no Parlamento, no contexto de uma audição sobre o Orçamento do Estado — tinha mencionado informação que lhe tinha sido “dada” por terceiros. “Tenho sempre muito cuidado com estas informações”, explicou, acrescentando que geralmente não compete à ministra perguntar por “casos clínicos”.
Neste caso, e porque ia ao Parlamento e os deputados tinham “todo o direito a perguntar”, pediu essa informação, assumiu. Já no domingo, o presidente do conselho de administração da ULS informou-a de que “parte da informação” dada era “incompleta”. “A informação não era total”.
Isto porque, depois de a ministra ter vindo dizer que a mulher, Umo Cani, não tinha tido acompanhamento até dar entrada no hospital, com 38 semanas de gravidez, a família veio corrigir e demonstrar que na verdade tinha tido consultas de vigilância no centro de saúde e tinha, efetivamente, sido seguida durante a gravidez, tendo sido referenciada em agosto para o Amadora-Sintra por “elevado risco obstétrico”.
Assim, a ministra considerou a falha “grave” e, tendo o presidente da ULS Amadora-Sintra, Carlos Sá, posto o lugar à disposição por lhe ter transmitido estas informações, Ana Paula Martins aceitou a demissão. Confirmou-o sem aceitar mais perguntas dos jornalistas.
Minutos depois, foi a vez de o próprio Carlos Sá emitir um comunicado em que explicava as razões para ter colocado “à consideração” da ministra a sua “continuidade em funções”, após uma “análise detalhada dos factos e circunstâncias” e tendo em conta o seu “dever ético e profissional”.
Nesta nota, Sá diz que as informações transmitidas à ministra, que as transmitiu depois aos deputados, “corresponderam integralmente às informações de que o Presidente do Conselho de Administração dispunha no momento da sua comunicação”.
No entanto, “informações adicionais vieram a ser conhecidas apenas em momento posterior”, admite (ou seja, cruzando a informação do hospital com a do o centro de saúde foi possível perceber que a grávida já estava a ser acompanhada).
“O Presidente do Conselho reafirma o seu entendimento de que a responsabilidade política e pública é pessoal, indelegável e insuscetível de diluição” e por isso, “ciente do imperativo de transparência, responsabilidade e dever público valores que devem prevalecer em todas as circunstâncias, o decidiu colocar à consideração de Sua Excelência a Senhora Ministra da Saúde, a decisão quanto à sua continuidade em funções”, explica.
A situação, que a ministra veio voltar a lamentar já depois de ter recusado demitir-se na sequência do caso, acabou com a morte de Umo Cani, mulher de 36 anos que tinha sido sujeita a uma cesariana de emergência na chegada ao hospital. A bebé ficou internada nos cuidados intensivos neonatais, com prognóstico muito reservado, tendo acabado por morrer também, na manhã de sábado. A Entidade Reguladora da Saúde e a Inspeção Geral de Atividades de Saúde vão investigar as circunstâncias das duas mortes.
Na tarde de quarta-feira, a mulher, grávida de 38 semanas, tinha tido uma consulta no Amadora-Sintra, onde foi detetado um episódio de hipertensão ligeira. Contudo, seguindo o protocolo clínico, a mãe foi enviada para casa. Na madrugada de sexta-feira, o INEM foi contactado para transportar para o hospital uma grávida que “apresentava falta de ar”.
Menos de meia hora depois da primeira chamada para o INEM, foi acionada a Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER) do Hospital Amadora-Sintra, uma vez que a utente tinha entrado em paragem cardiorrespiratória. Na chegada ao hospital, foi realizada uma cesariana de emergência e declarado o óbito.