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Uma equipa perdida que continua a votar pela lei de Murphy (a crónica do Benfica-Casa Pia)

Este artigo tem mais de 6 meses

Com dois golos de vantagem e o controlo completo do jogo, um autogolo após Trubin defender um penálti e um golo nos descontos valeram novo empate caseiro ao Benfica e maior atraso para o topo (2-2).

Tomás Araújo marcou na própria baliza depois de uma grande penalidade de Cassiano defendida por Trubin e Casa Pia reduziu desvantagem para empatar nos descontos por Nhaga
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▲Tomás Araújo marcou na própria baliza depois de uma grande penalidade de Cassiano defendida por Trubin e Casa Pia reduziu desvantagem para empatar nos descontos por Nhaga

FILIPE AMORIM

▲Tomás Araújo marcou na própria baliza depois de uma grande penalidade de Cassiano defendida por Trubin e Casa Pia reduziu desvantagem para empatar nos descontos por Nhaga

FILIPE AMORIM

Várias semanas depois, o momento da tranquilidade. Desde que assumiu o comando do Benfica que José Mourinho tem vivido numa espécie de realidade paralela entre a bolha mediática que foi envolvendo todo o ato eleitoral na Luz e o trabalho em campo com uma equipa que em alguns momentos ainda parece estar a consolidar a sua identidade tática dentro de uma ideia de jogo diferente daquela que tinha Bruno Lage. Não era pelas eleições que o futebol ganhava mais ou menos, os resultados mostraram também que não foi pelo futebol ganhar mais ou menos que as eleições inverteram o seu destino, mas tudo tem influência. Agora, ou a partir de agora, tudo isso iria acabar. E a receção ao Casa Pia, depois da quarta derrota consecutiva na Liga dos Campeões com o Bayer Leverkusen, surgia como um momento para selar essa “normalidade”.

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Na tribuna, Rui Costa lançara o repto para que todos os candidatos no sufrágio de 2025 pudessem assistir à partida ao seu lado no camarote presidencial. Nas bancadas, os sócios e adeptos poderiam saudar aquele que continua a ser um “filho pródigo” que ninguém deixa cair, o Maestro que transporta consigo a mística do que é ser Benfica mesmo quando os resultados não se coadunam com o que é ser Benfica. Em campo, uma equipa que saiu da última partida com a sensação de injustiça por ter desperdiçado inúmeras oportunidades para fazer aquilo que os germânicos precisaram apenas de uma chance para concretizar. A par disso, e na notícia que marcou este sábado o clube em paralelo com as eleições, havia o “problema” com Schjelderup, jogador norueguês que admitiu que deverá ser condenado por partilha de vídeo sexual a envolver menores perante a garantia de apoio total manifestado pelo presidente reeleito na primeira reação ao sucedido.

“A chave deste jogo com o Bayer foram todas as oportunidades que criámos e não concretizámos. Começou muito cedo, foi praticamente durante todo o jogo. Foi uma equipa a jogar muito bem com e sem bola, a ter algum percalço em transição ofensiva do adversário, mas uma equipa que teve muita qualidade na primeira e segunda fases e depois, na boca da baliza, falhou. Depois, dói-me o coração porque um miúdo [Dahl] que fez um excelente jogo faz o erro para o golo. A exibição foi boa, completa, o que faz com que não seja ainda mais completa é a falta de golos. As coisas que fizemos bem foram coisas que preparámos para fazer bem. É uma frustração a derrota e isso não há volta a dar mas é um jogo muito bem conseguido. Dizia aos jogadores que se jogarmos assim e fizermos golos, em dez jogos perdemos um. Foi hoje…”, lamentara José Mourinho após a derrota com os farmacêuticos na passada quarta-feira, também no Estádio da Luz.

Agora, chegava a hora da redenção. E uma redenção com pouca margem de erro perante aquilo que as duas últimas jornadas deram, entre as dificuldades que o FC Porto sentiu para vencer Moreirense e Sp. Braga pela margem mínima e o triunfo do Sporting nos Açores frente ao Santa Clara envolto em muita polémica que só surgiu nos descontos. Ou seja, a duas jornadas do dérbi na Luz com os bicampeões, o Benfica sabia que um triunfo permitia igualar a melhor série de vitórias na Primeira Liga esta temporada e também manter as distâncias mínimas para os conjuntos no topo numa fase de maiores problemas para os “grandes”.

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Mais uma vez, essa incapacidade de “fechar” jogos nesta fase da época ganhou um prolongamento e chegou à Luz. Durante uma hora, o Benfica foi melhor, permitiu pouco ou nada ao Casa Pia, teve oportunidades para aumentar a vantagem e fechar de vez com o encontro mas acabou por ficar à mercê da sua sorte depois de um penálti muito contestado por mão de António Silva e um autogolo de Tomás Aráujo após defesa de Trubin do castigo máximo. A 25 minutos do final, o jogo voltava à diferença mínima. É aqui que está a chave de tudo sobre o encontro. Pode olhar-se para as questões de arbitragem, como aconteceu no final da partida pelos intervenientes que falaram da parte do Benfica, pode olhar-se também para a incapacidade que a equipa da Luz mostrou para fechar de vez com o encontro. Numa semana marcada pela segunda volta das eleições, o Benfica mostrou de novo uma formação perdida que se voltou a entregar a uma lei de Murphy que custou mais dois pontos numa noite que deveria ser de festa também pela reeleição de Rui Costa.

[Ouça aqui a análise do ex-árbitro Pedro Henriques no Sem Falta da Rádio Observador]

SLB x CP. “Não há motivo para o penálti do Casa Pia”

Ficha de jogo

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Benfica-Casa Pia, 2-2

11.ª jornada da Primeira Liga

Estádio da Luz, em Lisboa

Árbitro: Gustavo Correia (AF Porto)

Benfica: Trubin; Dedic, António Silva, Tomás Araújo, Dahl; Enzo Barrenechea (Prestianni, 46′), Richard Ríos (Henrique Araújo, 90+4′), Aursnes; Lukebakio (João Rêgo, 88′), Sudakov (Leandro Barreiro, 79′) e Pavlidis (Ivanovic, 88′)

Suplentes não utilizados: Samuel Soares, Obrador, Schjelderup e Joshua Wynder

Treinador: José Mourinho

Casa Pia: Sequeira; André Geraldes, Kaique (Kevin Prieto, 81′), José Fonte, David Sousa, Larrazabal; Rafael Brito (Renato Nhaga, 76′), Seba Pérez (Tiago Morais, 81′); Livolant, Nsona (Miguel Sousa, 66′) e Cassiano (Livramento, 66′)

Suplentes não utilizados: Daniel Azevedo, João Goulart, Xander e Iyad Mohamed

Treinador: Gonçalo Brandão

Golos: Sudakov (17′), Pavlidis (60′, g.p.), Tomás Araújo (65′, p.b.) e Renato Nhaga (90+1′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a David Sousa (13′), Sudakov (53′), António Silva (63′), Richard Ríos (87′) e Sequeira (90+6′)

A atacar para a baliza Sul na primeira parte depois da escolha de José Fonte antes da partida para tentar tirar referências e hábitos à equipa da casa, o Benfica voltou a contar com Amar Dedic na lateral direita com saída de Leandro Barreiro do onze e António Silva no lugar do capitão Otamendi que estava castigado. Em tudo o resto, nenhuma surpresa no papel, algumas mexidas nos posicionamentos: logo nos minutos iniciais foi possível perceber a colocação de Sudakov mais no meio a apoiar Pavlidis, ficando Aursnes a jogar por dentro à esquerda para ser Dahl a dar largura à equipa. O próprio Mourinho não demorou a dizer ao que vinha, com um primeiro protesto veemente junto do quarto árbitro no primeiro pontapé de baliza do Casa Pia para fazer com que a questão de um possível anti-jogo fosse cortada quase à nascença. A ideia passava por marcar cedo e não deixar que a incerteza se arrastasse, algo que ficou perto de acontecer ainda antes dos dez minutos iniciais com um remate de Enzo Barrenechea depois de uma segunda bola a acertar no poste (9′).

[Clique nas imagens para ver os melhores momentos do Benfica-Casa Pia em vídeo]

Com uma pressão alta que não permitia sequer que o Casa Pia passasse do meio-campo com bola, a equipa encarnada procurava diferentes cenários e combinações para criar oportunidades para desfazer o nulo. Dodi Lukebakio era uma dessas soluções, procurando os habituais movimentos em diagonal da direita para o meio com Dedic a subir no flanco pelas costas com um remate que saiu por cima (12′). A circulação rápida entre corredores à procura do jogador solto outra e foi dessa forma que nasceu uma grande jogada coletiva que fez o 1-0: cruzamento de Dedic da direita, controlo com o peito de Pavlidis antes de assistir de cabeça na área e remate de primeira de pé esquerdo sem deixar cair a bola de Sudakov a inaugurar o marcador (17′). A partida estava desbloqueada como Mourinho pretendia, o que dava margem para estabilizar emocionalmente a equipa depois da deceção do encontro frente ao Bayer Leverkusen onde muito jogo deu… zero pontos.

A ala direita era cada vez mais o segredo do Benfica para quebrar o bloco central defensivo do Casa Pia, que estava colocado com linhas baixas mas organizado de uma forma que conseguia retirar muito espaço a todas as desmarcações de rutura dos médios vindos de trás, mas Pavlidis viu um desvio na área prensado por José Fonte e Richard Ríos teve um remate em boa posição na área mas ao lado de novo após jogada de Dedic. No entanto, o jogo iria conhecer depois uma fase de maior controlo em posse do Benfica, quebrada por duas boas oportunidades no mesmo minuto: Livolant apareceu em boa posição na área descaído sobre a esquerda depois de um erro dos encarnados na saída de bola para rematar para defesa de Trubin (39′), Lukebakio surgiu isolado após um grande passe em profundidade de Tomás Aráujo mas perdeu o duelo com Sequeira (39′). O intervalo chegava com a vantagem mínima de um conjunto da casa que foi sempre melhor.

Por entender que não seriam necessárias tantas unidades no meio-campo com características de recuperação e também por questões físicas, depois das queixas que Enzo Barrenechea foi mostrando em algumas fases da primeira parte, Mourinho apostou em Prestianni logo no arranque do segundo tempo, colocando o jovem argentino mais à esquerda com Ausrnes a jogar ao lado de Ríos no meio. E emoção não faltou no arranque da segunda parte, bem mais movimentada do que o primeiro tempo: Sequeira defendeu dois remates de meia distância de Ríos (47′) e Sudakov (51′), Lukebakio também ficou perto do golo com um remate em arco  na área, Pavlidis aumentou a vantagem de grande penalidade depois de um corte com o braço de Larrazabal (60′), o Casa Pia reentrou no jogo com um golo na própria baliza de Tomás Araújo na sequência de um penálti de Cassiano defendido por Trubin após grande contestação na Luz pela decisão (65′).

A vantagem voltava a ser mínima, aquilo que o Casa Pia estava a fazer do jogo também não colocava em risco a superioridade do Benfica. No entanto, e a partir desse momento, “esse” Benfica desapareceu. Ainda houve um golo anulado a Leandro Barreiro na sequência de um canto por fora de jogo mas o estado emocional dos encarnados mudou. Sucederam-se os passes errados, aumentaram os espaços que foram ficando para as transições, acabaram as oportunidades para sentenciar de vez o jogo. Era um Benfica que se colocava a jeito de mais uma surpresa e uma perda de bola de Richard Ríos a meio-campo valeu mesmo o empate em período de descontos: Nhaga lançou um ataque rápido 4×4, o cruzamento da direita foi intercetado por Trubin com um desvio para a frente mas o mesmo Nhaga aproveitou para rematar para o 2-2 (90+1′).

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