Sempre foi um homem do futebol. Num fenómeno paralelo ao futebol como o conhecemos, depois dentro do futebol que conhecemos, de seguida num futebol que na verdade ficou sempre por conhecer. Peter Kenyon, hoje com 71 anos, é uma figura incontornável do fenómeno desportivo – e da própria Web Summit. Todavia, e mais do que nunca, estamos na presença de um inglês que dificilmente poderia estar mais calmo naquilo que diz, naquilo que sente e naquilo que faz. Afinal, mais de duas décadas depois, a vida deu voltas que provavelmente nunca teria pensado, tantas voltas e a uma velocidade tal que só acabou… na Fórmula 1.

Esta é apenas mais uma vida de um líder com múltiplas vidas. Nascido em Stalybridge, Cheshire, Kenyon teve a primeira ligação ao futebol através da Umbro, entrando na estrutura da marca desportiva para diretor e subindo depois a chefe executivo. Questão? Uma das parcerias mais fortes, certamente a mais emblemática de todas, era com o Manchester United, aquele que foi o seu clube de sempre desde miúdos. Alguém se consegue esquecer aquele equipamento Umbro dos red devils com a gola branca de Eric Cantona para cima? Nem ele, nem ninguém. E foi de forma natural que transitou para Old Trafford, assumindo a função de vice diretor executivo tendo assento no board de todas as decisões. Aí, teve uma “vitória” para a história.

Durante esse período no United, Kenyon teve uma ação determinante quando conseguiu dissuadir Sir Alex Ferguson da intenção original de deixar o comando da equipa de Manchester em 2002 para reformar-se. O técnico achava que estava na hora, o dirigente mostrou como a hora teria de ser adiada. Mais: além de ter mantido no cargo aquele que foi o treinador mais importante da história do futebol inglês, Kenyon conseguiu mudar o paradigma de contratações que vigorava em Old Trafford, dando o salto no plano financeiro para uma nova era com investimentos avultados em jogadores chave para acompanhar o reforço dos adversários diretos. Tudo mudaria em 2003, num ano de viragem na Premier League: o dirigente rumou ao Chelsea.

Alex Ferguson ficou dois anos sem falar com Kenyon, Kenyon deixou muitas vezes Ferguson sem palavras com outra medida que mudaria o rumo do futebol britânico como foi a contratação de José Mourinho ao FC Porto após sagrar-se campeão europeu em 2004. Como o inglês recordou numa entrevista ao The Telegraph, tudo poderia não ter acontecido tendo em conta que o primeiro encontro marcado numa zona de fronteira entre Portugal e Espanha teve um atraso enorme do português. Apareceu, falou no projeto já como “nós”, assinou. “Foi o José que construiu a base de tudo o que Chelsea alcançou ao longo dos últimos 20 anos”, assumiu o dirigente que ficou conhecido por outras “investidas” polémicas, do desvio de Ashley Cole dos rivais londrinos Arsenal à tentativa de assegurar Sven-Göran Eriksson quando estava na seleção.

Em 2009, Peter Kenyon deixou também o cargo de diretor executivo dos blues mas nem por isso perdeu o seu lugar no futebol, estando envolvido no Quality Sport Investments, fundo também associado ao agente Jorge Mendes que comprava percentagens de jogadores (como aconteceu em vários mercados, incluindo o português via Sporting) e, de acordo com o The Guardian, terá sido investigado pela FIFA por possíveis violações da regra do third-party ownership e um alegado conflito de interesse na representação de alguns jogadores. O caso acabou por não dar em nada, Kenyon acabou por desaparecer por uns tempos de todos os radares. Voltou. E agora está entre dois mundos, entre o papel de consultor do Al Qadisiyah, da liga saudita de futebol, e conselheiro da Atlassian Williams Racing, da Fórmula 1, para o comercial e marketing.

Foi nessa função atual que o inglês voltou à Web Summit, para falar no palco 7 do Sports Summit no painel “Reinventando o legado: por dentro do negócio do desporto de elite” (sem falar nunca do Al Qadisiyah). E foi nessa função que revelou algumas das grandes diferenças entre futebol e Fórmula 1 com o mesmo objetivo.

“A Williams é uma equipa que já foi várias vezes campeã e que está de novo a tentar ressurgir. É um grande desafio, sendo que o meu objetivo é potenciar as receitas da equipa. A Fórmula 1 é um desporto cada vez mais global, verdadeiramente global. Ao contrário do futebol, nós vamos a 24 países por ano. Quando nós olhamos para uma família que siga a Fórmula 1, o pai pode ter uma camisola de uma equipa, a mãe de outra e os filhos de outra ainda. No futebol não existe isso, é algo mais tribal. A série da Netflix e o documentário da Apple potenciaram ainda mais tudo. Nos EUA ainda temos um mercado pequeno mas para ir conquistando, a nível de seguidores já conseguimos estar 50/50 entre homens e mulheres”, começou por dizer o inglês.

“Como um dia ouvi dizer e com razão, as 24 corridas do Mundial equivalem a 24 Super Bowl porque em cada corrida são três ou quatro dias numa cidade com toda a gente de relevo dessa cidade a marcar presença. É um desporto onde o dia da qualificação é quase tão bom como a corrida, a corrida sprint também acrescentou mais emoção. Existem diferenças de meio segundo entre o primeiro e o décimo, de um segundo entre o primeiro e o 20.º, e tudo pode acontecer. Ser piloto é mais do que isso, vejo pelo Alex [Albon] e o Carlos [Sainz]. Só os 20 melhores é que estão na Fórmula 1 mas para lá chegar é preciso ganhar todas as outras categorias com um problema: ser campeão de Fórmula 2 e passar para a Fórmula 1 é quase como ir do basquetebol para o futebol porque é tudo diferente. Objetivos? Este ano acabar no quinto lugar no Mundial dos construtores, a partir de 2026 vai haver uma mudança completa dos regulamentos e vamos estar todos a começar no mesmo patamar. A partir daí, queremos vitórias, queremos mais pódios, queremos um dia voltar a ser campeões. Esse seria o melhor comeback da história do desporto”, acrescentou Peter Kenyon.

À margem dessa intervenções, o dirigente britânico falou de José Mourinho… e Ruben Amorim. “Quero que o José tenha sucesso e que seja no Benfica. Acho que ele é ótimo para o Benfica e espero que o clube seja bom para ele. Acho que ele sempre teve um desempenho acima da média do país. Se olharmos para os jogadores portugueses pela Europa e pelo mundo, penso que ele se encaixa perfeitamente. Sou um grande fã dele e um grande amigo. É um game changer”, apontou, dizendo mesmo que escolheria o Special One para a Fórmula 1: “Quando chegou a Inglaterra, foi o primeiro da nova geração e eu acreditei nisso. Não foi fácil, a envolvência nunca foi favorável mas acabou por correr bem por ter sido feito pelos motivos certos. Ele mudou o rumo e lançou as bases para os 15 anos de sucesso do Chelsea, mudou toda a nossa cultura”.

“Ruben Amorim? Acho que as pessoas não compreendem o quão difícil e o quão grande é o Manchester United. É uma envolvência muito diferente e penso que chegou o momento de reconstruir a sua cultura. Não se trata apenas de contratar um treinador mas sim descobrir o que vai fazer com que esta equipa volte a ser grandiosa. A exigência dos adeptos do United é enorme, ainda somos um dos maiores clubes do mundo e as expectativas são sempre gigantes. É difícil mas tenho gostado da honestidade. Não foge à responsabilidade e espero que as coisas comecem a resultar. Não se pode fazer nada sem tempo, não se pode dar um tempo infinito às pessoas. É preciso ver os resultados a começar a avançar na direção certa. Acho encorajador que isso esteja a começar a acontecer. Mas é um ambiente difícil…”, comentou sobre o técnico.