O escritor timorense Luís Cardoso tenta “enterrar os fantasmas do passado” no seu mais recente livro, Hotel Timor, em que conta a história do irmão, que defendia a integração de Timor-Leste pela Indonésia e que foi fuzilado nas montanhas.
Em declarações à Lusa a propósito do lançamento da obra, no sábado, o escritor considera que este é o “mais íntimo” e difícil dos seus livros, um romance para enterrar os fantasmas do passado, e que demorou cinco anos a escrever.
Confessa que a morte prematura do irmão mais velho, durante a ocupação indonésia de Timor-Leste era uma dor muito pessoal que carregava sozinho: “Somos sempre amigos dos heróis, o difícil é dizer que o nosso irmão foi traidor”.
“Eu nunca disse, porque ele foi coerente com o que sempre defendeu, mesmo antes de existirem partidos políticos, mas a sua morte tem esse lado turvo, que sempre me perseguiu. Precisei de ganhar coragem, também para me libertar e poder caminhar para a minha própria morte sem nenhum fantasma do passado”, refere.
“Faltava-me despir a morte do meu irmão Bonifácio, favorável à integração pela Indonésia, que foi levado para as montanhas como prisioneiro político, e mais tarde fuzilado pelas forças revolucionárias. Essa dor ficou sempre dentro de mim. Era o meu irmão querido e eu não consegui falar dele estes anos todos”, diz.
O escritor conta que a viagem a Díli, em 2023, na qual foi agraciado pelo Presidente timorense, José Ramos-Horta, com o Colar da Ordem de Timor-Leste, foi decisiva para encontrar o fio da meada: “eu tinha o livro quase pronto, mas só ali percebi que tinha de mandar fora o que estava escrito e começar de novo. Então, encontrei um alter ego, que é o marinheiro e cantor romântico que apanha boleia do escritor, para regressar em busca do corpo do irmão”.
“Do aeroporto para o Hotel Timor, ele vai com um motorista de táxi que se chama Bonifácio, e que representa o meu irmão. A ficção permite-nos isso e eu ressuscito o meu irmão, para poder lançar os seus restos mortais à ribeira de Karau-Ulun , na aldeia da minha avó, que os dois atravessávamos todos os dias para ir para o colégio missionário”, recorda.
“Como não consegui localizar o lugar onde foi morto, nem os seus restos mortais, este livro serve para enterrar o meu irmão, que é o meu fantasma”, acrescenta Luís Cardoso, autor de Plantador de Abóboras, vencedor do Prémio Oceanos 2021.
Ainda sobre o livro, recorda os episódios de mortes por vingança pessoal porque “muitas vezes era isso que acontecia. As mortes dos prisioneiros ocorriam a mando de hierarquias intermédias, por vinganças pessoais, e não a mando da Fretilin. O livro também retrata isso”.
Hotel Timor é o nono livro do escritor timorense, que assume a autobiografia ficcional, como marca da sua obra: “todos os meus livros se enquadram nesse registo. Sou muito sincero, porque tudo tem a ver com a minha realidade. Este é o livro mais íntimo, o mais importante, por ser o mais difícil de deitar cá para fora, com medo e receio de não ser a hora oportuna. É uma dor que guardo desde a invasão, nunca falei desse irmão”, diz.
Do manuscrito original, apenas sobrou o nome, cujo simbolismo o autor quis sublinhar: “Hotel Timor, porque esse hotel representa tudo o que podemos encontrar no país, é mais do que um lugar de passagem, é testemunha e símbolo da história recente do país”.
Luís Cardoso que chegou a Portugal com 16 anos, tendo escolhido ficar a viver no país, fala sobre a forma como hoje se recebem os imigrantes, ou os que “parecem” imigrantes: “Muitas vezes sinto uma certa aversão, porque sou visto como imigrante. Mas eu não sou, eu sou português. Tenho bilhete de identidade português, cumpri serviço militar, a minha vida é toda feita em Portugal. Mas sinto uma aversão aos estrangeiros, não ao branco, mas ao castanho, como dizem alguns políticos. E sinto até uma certa agressividade”.
A obra, com a chancela da editora The Poets and Dragons Society, será lançada no sábado, no auditório da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA), em Lisboa.
O escritor dedica este livro a todos os amigos: “Em primeira instância foram a minha pátria, antes de conseguir a pátria pela qual foram sacrificadas vidas inocentes”.