Em dois dias, centenas de milhares de pessoas cancelaram as suas passagens aéreas da China para o Japão, depois de Pequim ter aconselhado os chineses a não viajar para o país. Este é o último desenvolvimento da crise diplomática que se abriu entre os dois Estados, com alterações no processamento de vistos e a interrupção de programas de câmbio intercultural depois de a primeira-ministra japonesa ter admitido uma eventual intervenção de Tóquio em Taiwan. Na segunda-feira, pelo menos sete companhias aéreas chinesas, incluindo as três estatais, garantiram o reembolso de bilhetes comprados para território japonês.
Cerca de 500 mil passagens aéreas para o Japão foram cancelados entre 15 e 17 de novembro, noticiou o The Guardian, citando um analista de viagens. O jornal online chinês Jimu News informou que a companhia aérea Sichuan Airlines, a maior do oeste da China, cancelou mesmo os voos entre Chengdu e Sapporo entre janeiro e março de 2026. Também a companhia aérea low cost Spring Airlines fez o mesmo a “vários” voos para o Japão. Ambas as companhias justificaram a decisão com “razões de planeamento da empresa”.
O problema estendeu-se aos eventos culturais. Foram adiadas indefinidamente as estreias de pelo menos dois filmes japoneses na China, e as receitas de bilheteira para um filme japonês já antes estreado em salas de cinema chinesas, Demon Slayer: Infinity Castle, caíram nos últimos dias. O desinteresse pelo filme, que inicialmente se revelou popular, dever-se-á à “forte insatisfação do público chinês” com a primeira-ministra japonesa.
A tensão entre os dois países agravou-se quando Sanae Takaichi afirmou que se um ataque chinês a Taiwan colocasse em risco a sobrevivência do Japão, o país poderia reagir com uma resposta militar. A declaração levou o governo chinês a emitir alertas àqueles que se preparavam para viajar para o Japão, incluindo estudantes chineses.
Também as ações das empresas japonesas dos setores de turismo e de retalho terão caído na sequência dos avisos. A China é a segunda maior fonte de turistas para o Japão e os estudantes chineses constituem a maior parte do grupo de estudantes internacionais do país.
Na segunda-feira, o Japão terá enviado um diplomata a Pequim para se reunir com o seu homólogo chinês, Liu Jinsong, na tentativa de acalmar as tensões. A primeira-ministra japonesa recusou-se a retirar as suas declarações, a principal exigência de Pequim para o restabelecimento do clima de confiança.
E, à cautela, Tóquio, fez também uma recomendação aos seus cidadãos residentes na China e a viajantes para a grande potência asiática, avança a Reuters. A embaixada do Japão em Pequim pede que os japoneses respeitem a cultura local e tenham cuidados na interação com cidadãos chineses. O comunicado aconselha os japoneses a estarem atentos quando estiverem ao ar livre, a não viajarem sozinhos e recomenda cuidados redobrados com as crianças. “Se vir uma pessoa ou grupo que pareça minimamente suspeito, não se aproxime e saia imediatamente do local”, publicou a embaixada, citada pela Reuters.
Texto editado por Dulce Neto