Hoje resume-se a peça de museu, presença num antiquário ou parte do espólio de um colecionador, mas já teve um papel fundamental no século XIX e na primeira metade do século XX. Falamos do escarrador, ou cuspidor. Ou mesmo cuspideira ou escarradeira. Diferentes formas, pouco ou nada glamourosas, de referir o mesmo objeto, assíduo nas casas mais abastadas e em destinos públicos, dos teatros aos hospitais — houve-os até de bolso, pessoais e portáteis — sempre providenciais face à ameaça da tuberculose. Numa época em que cuspir para o chão era prática corrente, o utensílio ganhou diferentes imagens, mais simples ou abundantemente decorado, em materiais como vidro, metal, ou claro a porcelana que aqui nos traz. O icónico Escarrador – Agiota (1908-1920) é uma das estrelas do primeiro Grande Leilão da Bordallo Pinheiro, que terá lugar este sábado, 22 de novembro, às 16h, numa parceria com a Cabral Moncada Leilões. Mas há mais, como uma versão John Bull, uma personificação gráfica do Reino Unido, ou em modo “Rã Bizantina”.

A iniciativa destina-se a reunir, junto de colecionadores e do público em geral, peças que se destacam pela sua antiguidade, raridade e relevância artística, oriundas de diferentes épocas e representativas da criatividade e irreverência bordallianos. No total serão 153 criações em destaque, que ficam expostas a partir desta quinta-feira no espaço da leiloeira. Entretanto, está já aberta a licitação online, no site da Cabral Moncada.

De entre este acervo contam-se imagens, processos e histórias que permitem viagem a outras eras, seguindo mais objetos entretanto caídos em desuso. É o caso da Bilha com Pegas, sob direção artística de Rafael Bordallo Pinheiro, ou do Tinteiro – Zé Povinho e Maria da Paciência, de um Paliteiro Porco Sentado ou ainda um Porta Subscritos Danças Fandango.

Entrando no típico zoológico de faiança, conte com um Bule toureiro, um Castiçal cabeça de gato, uma Saboneteira lagartixa, um Prato com lagostas, um Açucareiro com friso de patos, e muito mais espécies a descobrir. Para uma passagem pela mesa, multiplicam-se os pratos decorativos, como o Maçãs (1908-1920), sob direção artística de Manuel Gustavo Bordallo Pinheiro e ainda o emblemático Figo da pintora Paula Rego (1935-2022).

Cruzando artes tradicionais da cerâmica e a modernidades de diferentes estilos, a Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha foi fundada em 1884, marcada pela originalidade do seu criador, Raphael Bordallo Pinheiro, num imaginário que colou a transgressão e o humor ao serviço da crítica social, indo além do mero fator decorativo. Comprada por parte do Grupo Visabeira em 2009, a empresa aposta hoje em colaborações com nomes das artes como VHILS, Estúdio Campana, Joana Vasconcelos, ou Pedro Cabrita Reis, que resgatam para a atualidade uma vasta coleção.

Para este sábado, o futuro do leque de figuras, taças, jarras bojudas, e outros acessórios domésticos, mais previsíveis ou inesperados, como uma Floreira de suspensão – Sapato de quarto feminino, pode ser acompanhado presencialmente ao leilão, e existe também a possibilidade da participação online, através do site da leiloeira. Veja alguns destaques na fotogaleria em cima.