O impasse parece ter chegado ao fim. No próximo ano, a cimeira das Nações Unidas sobre as alterações climáticas deverá ser afinal um esforço conjunto entre a Austrália e a Turquia. Os dois países voluntariaram-se para receber a Conferência das Partes (COP) de 2026, mas perto da reta final da cimeira, que está a decorrer desde a semana passada na cidade brasileira de Belém, Pará, nenhum parecia disposto a abdicar da candidatura. Esta quinta-feira chegaram finalmente a um acordo: a Turquia deverá ficar com a presidência da COP e por isso acolher o encontro, enquanto a Austrália deverá presidir as negociações. Por outro lado, a pré-COP, evento preparatório que antecede a cimeira, deverá acontecer numa ilha do Pacífico.

A proposta foi discutida esta quinta-feira numa reunião de alto nível para fechar uma decisão sobre o país anfitrião, numa altura em que já se sabia o destino da COP de 2027 — a Etiópia. A Turquia já tinha proposto liderar a COP em conjunto com a Austrália, mas no início da semana o primeiro-ministro Anthony Albanese recusou a hipótese: “Não, não seremos co-anfitriões porque ser co-anfitrião não está previsto nas regras da UNFCCC [Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas]”, sublinhou Albanese numa conferência de imprensa a partir de Melbourne. “Essa não é uma opção e as pessoas estão cientes de que não é uma opção, e é por isso que foi descartada”, acrescentou. Já esta quarta-feira, o governante sublinhava que não vetaria a escolha da Turquia. “Se a Austrália não for escolhida e a Turquia for, não vetaríamos”, garantiu.

O impasse parecia tão longe de ser ultrapassado que nos corredores da cimeira em Belém se chegou a falar na hipótese de a Alemanha ser obrigada a entrar em jogo e receber a COP. Isto porque a decisão sobre o país anfitrião exige um consenso entre os participantes e, à falta dele, a conferência deve acontecer na cidade sede da UNFCCC: Bona.

A ideia, porém, não agradou à Alemanha, que não estava inclinada a acartar os elevados custos associados à organização de um evento desta dimensão, disse ao Observador uma fonte com conhecimento das discussões. “Nós seríamos obrigados a sediar, mas não queremos”, chegou a admitir o secretário de Estado alemão do Ministério do Ambiente, Jochen Flasbarth. O Governo australiano também fez saber que considerava a hipótese ideal, com Albanese a notar que “não enviaria um bom sinal sobre a união” exigida no mundo para fazer face aos problemas ambientais.

Esta quinta-feira, pelas 17h30, representantes australianos e turcos sentaram-se com as restantes delegações mundiais. Os diplomatas de Melbourne propuseram então receber as negociações e a pré-COP, mas ser a Turquia a acolher a logística do evento, explica a mesma fonte. A Turquia acedeu, acrescenta, tendo destacado que se esta opção fosse aceite a COP 31 sairia fortalecida.

No final da reunião, Jochen Flasbarth, da delegação alemã, confirmou o acordo. “A Turquia vai ser o anfitrião e presidente da COP e a presidência para as negociações e as preparações durante o processo será com a Austrália”, afirmou, acrescentando que ainda não viu a proposta escrita.

Flasbarth destacou o “espírito positivo” das negociações. É algo extraordinário que dois países de lados opostos do planeta cheguem a um acordo”, disse aos jornalistas. “Vi muito apoio, nenhuma oposição generalizada, mas algumas perguntas, porque os membros do grupo precisam de entender melhor o que o acordo representa”, notou, assegurando que está “otimista”. “Teremos isso por escrito, depois vou convocar outra reunião e vamos decidir muito rápido”, garantiu.