A COP30, realizada este ano no coração da Amazónia, deveria ter sido um momento histórico para reafirmar o compromisso global com a sustentabilidade, mas deixou mais perguntas do que respostas. A incoerência que marcou esta cimeira lembra, aliás, outra época que agora se aproxima: o Natal. Uma celebração nascida da simplicidade absoluta, um menino numa manjedoura e uma família sem posses, transformou-se numa das épocas de maior consumismo e desperdício do ano. E o setor da construção não escapa a este paradoxo: é muitas vezes vítima da incoerência… e simultaneamente seu cúmplice.

Para receber a COP30, foi aberta em plena área protegida uma avenida com quatro faixas. A obra tornou-se o símbolo perfeito da confusão recorrente entre modernização e sustentabilidade. A correr contra o tempo, aceleraram-se intervenções e apostou-se sobretudo na aparência. Entretanto, os problemas estruturais, aqueles que realmente importam, permaneceram: águas residuais sem tratamento, bairros inteiros sem árvores, uma crise hídrica por resolver e até a falta de alojamento, colmatada com navios de cruzeiro, talvez o maior contrassenso ambiental de toda a conferência.

Este padrão é demasiado familiar. Também em Portugal ouvimos diariamente que “há falta de casas”, e por isso, continua a construir-se ao ritmo da especulação, enquanto milhares de edifícios devolutos permanecem por reabilitar e inúmeras famílias vivem sem condições mínimas de conforto. Em nome da urgência, erguem-se empreendimentos a contrarrelógio, ignorando que a verdadeira sustentabilidade está em aproveitar o que já existe, não em multiplicar o que não faz falta, como casas a preços incomportáveis. E há ainda quem celebre o “verde” revestindo paredes de vegetação ou usando materiais supostamente ecológicos, mesmo quando são aplicados em áreas protegidas e prejudicam ecossistemas inteiros. Podemos repetir slogans até à exaustão, mas nada muda enquanto continuarmos a criar cidades impermeáveis, sem sombra, sem conforto térmico e sem proteção da biodiversidade.

Apesar de se falar constantemente em descarbonização, ESG e economia circular, continua a construir-se sem atender ao ciclo de vida dos materiais, à pegada de carbono dos edifícios ou ao impacto real na biodiversidade. A incoerência é global: países que discursam sobre preservação abrem, no mesmo mês, novas licenças para exploração de petróleo. E depois chega o Natal… e a contradição repete-se. O Natal, idealmente uma época de paz, humildade e família, tornou-se um dos maiores picos de consumo do ano. Compramos desenfreadamente, acumulamos embalagens, luzes, objetos descartáveis, tudo em nome de uma tradição que nasceu precisamente do oposto: um momento feito do essencial.

O paradoxo da COP30 encontra no Natal o seu espelho. Ambos nos lembram o quanto nos afastámos da simplicidade e da coerência. E a grande lição que partilham é esta: estamos a esquecer o essencial. Tudo o que se perdeu nesta conferência, como oportunidade, coerência e integridade ambiental, é o que perdemos todos os anos quando confundimos desenvolvimento com luxo e Natal com consumo. Porque a sustentabilidade, tal como a manjedoura onde nasceu Jesus, não nasce do excesso. Nasce da humildade. Do essencial. Daquilo que permanece quando retiramos tudo o que é supérfluo.