Numa terra onde antes se plantava batata, feijão e milho para se ter o mínimo para comer, hoje já quase nada cresce. O semiárido brasileiro — composto por 1.477 municípios, segundo os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) — tem chuvas irregulares, clima seco e lençóis freáticos em vias de desaparecerem. A água é escassa para as cerca de 28 milhões de pessoas que ali vivem, e, consequentemente, também para os seus poucos animais, que andam com os ossos salientes sob a pele, como era possível ver há um ano em Buíque e Inajá, ambos no estado brasileiro de Pernambuco.

Trata-se da caatinga, o bioma brasileiro que corresponde 12% do território daquele país, sendo caracterizado por um solo duro, arenoso, com baixa fertilidade e capacidade de drenagem, como define o Instituto Nacional do Semiárido (INSA). As plantas que ali se mantêm, por exemplo, são os pequenos arbustos e os cactos, que conseguem sobreviver com pouca água durante longos períodos de tempo. É onde também vive a maior parte da população brasileira abaixo do limiar da pobreza.

O aquecimento climático global está a alterar a classificação deste bioma de “semiárido” para “árido”, o que cria a possibilidade e a preocupação de que se torne o primeiro deserto do Brasil, não por sua amplitude, mas pelas características de empobrecimento da terra. É o que afirma o estudo Changes in the aridity index across Brazilian biomes [Alterações no índice de aridez nos biomas brasileiros], que detetou a primeira zona árida do país sul-americano, tendo como base científica a persistente queda da precipitação média anual nos últimos trinta anos. A investigação, cujos resultados foram publicados em 2025, foi realizada pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

O receio levou o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Brasil a lançar no dia 16 de dezembro um “plano nacional para fortalecer o combate à desertificação“, com indicadores de monitorização e ações que devem ser colocadas em práticas pelos próximos vinte anos. Com o desaparecimento da vegetação e a seca intensa, o solo fica exposto e mais vulnerável a erosões, refere o Governo, que mapeou em março deste ano que “o número de áreas afetadas por seca moderada a extrema quase dobrou” no país.

A  sub-região geográfica da qual a caatinga faz parte chama-se “sertão”, que ocupa o interior da região Nordeste. Se por um lado este ano o Brasil celebrou a saída do “Mapa da Fome” da Organização das Nações Unidas, por outro a preocupação com a desertificação da caatinga gerou debates e foi tema de investigações apresentadas na conferência climática da ONU, a COP30, realizada na capital Belém, em novembro passado. A situação é tão grave que em cidades onde há cisternas, o abastecimento de água é feito por vezes pelo Exército.

Larissa Faria

Área em risco de desertificação no Brasil concentra a maior parte da população abaixo do limiar da pobreza

As raízes secas e espinhosas resistem entre longas estradas de terra, onde o alcatrão está tão distante quanto qualquer estrutura básica de saúde e educação, deficiências estruturais que contribuem para o crescimento dos índices de desnutrição infantil e analfabetismo. Há um ano, o Observador viu como a passagem de um carro é rara, mas nota-se pela poeira alaranjada que toma o ar, mistura-se à cor do solo e das casas de taipa — construídas com barro, troncos e folhas, como estruturas rupestres de habitação. Paredes e chão são da mesma cor laranja, pois não há betão, apenas argila. Colchão e teto são do mesmo material: folhas secas.

Ter um frigorífico neste cenário onde não existe eletricidade em muitas das cidades é uma ideia distante e inútil, visto que não haveria sequer o que guardar no seu interior e o supermercado mais próximo na maioria dos casos fica a muitos quilómetros de distância. A carne dos pequenos animais, que vão servir de almoço, é colocada em estendais onde mosquitos pousam. Muitos têm acesso a alimentos com as doações de cabazes organizadas por organizações não governamentais, que chegam com camiões em vilas repletas de crianças e idosos a formar fila para levantar os mantimentos. Afinal, com a seca completa do solo, o pouco que antes ali era plantado pelas pessoas apenas para sobreviver agora já não cresce.