Siga aqui o liveblog que acompanha a guerra na Ucrânia
A Europa “nunca se preparou, a sério, para uma guerra” no continente, ao passo que a Rússia “foi-se sempre preparando” – e, agora, a Europa arrisca tornar-se mais um dos “impérios” que caíram aos pés de “invasores bárbaros”. O alerta é do chefe dos serviços de informação militar do Ministério da Defesa da Ucrânia, Kyrylo Budanov, uma das principais figuras do setor militar ucraniano.
Numa entrevista ao Canal 24, Budanov afirmou que “a Europa não se preparava, de forma séria, para uma guerra no seu território. Ninguém na Europa se preparava para uma guerra em território europeu. E não uma guerra qualquer, mas uma guerra grande. Absolutamente ninguém”.
“A Rússia foi-se preparando, a Europa não“, rematou.
Na análise deste responsável militar, a Europa não se preparou porque existe uma “ilusão de segurança” que, muitas vezes, assola os “impérios”. “Sempre foi assim, todos os impérios que floresceram convenceram-se sempre, a si próprios, de que eram os mais fortes e os mais poderosos – e pareciam sê-lo”, afirmou, continuando: “porém, todos esses impérios têm uma coisa em comum, deixaram de existir quando confrontados com invasores bárbaros“.
Ao longo da História, refere Kyrylo Budanov, “os bárbaros acabaram sempre por vencer, porque uma vida confortável leva as pessoas a viverem numa realidade paralela – foi isso mesmo que aconteceu agora com a Europa”.
O militar diz ter “esperança” de que a Europa não venha a sofrer, ela própria, “uma invasão bárbara direta”. Mas, dada a diferença no nível de preparação militar, “se isso acontecesse hoje, por algum motivo, o resultado seria óbvio“, avisa Kyrylo Budanov.
Olhando para o estado atual da guerra na Ucrânia, o responsável referiu que poderá haver uma “janela de oportunidade” para pôr fim à guerra da Rússia na Ucrânia entre fevereiro e meados de 2026. A expectativa deste responsável é que, primeiro terminarão os combates na Ucrânia mas, depois disso, a Rússia poderá ampliar a sua ofensiva militar.
Budanov indicou que, segundo os planos que existem atualmente, a Europa tem até 2030 para se preparar, embora os russos estejam a reduzir estes prazos.
Durão Barroso: “Se queres a paz, prepara-te para a guerra”
O antigo presidente da Comissão Europeia Durão Barroso defendeu esta semana a necessidade de a Europa estar preparada para uma provável guerra contra a Rússia, considerando que a única forma de manter a paz é estar pronta para o conflito.
“Se a União Europeia quer existir como entidade política, tem também de fazer algo pela sua própria defesa, não numa perspetiva militarista, que não é a minha, mas precisamente para garantir a paz”, afirmou, em entrevista à agência Lusa, à margem do Fórum EuroAméricas, que decorreu em Carcavelos, Cascais.
“Mais do que nunca, aplica-se o princípio de ‘se queres a paz, prepara-te para a guerra'”, defendeu, considerando que, neste momento, “a única forma de evitarmos uma guerra generalizada na Europa é mostrar aos potenciais agressores que estamos preparados e que não terão sucesso”.
Para Durão Barroso, que foi primeiro-ministro entre 2002 e 2004, o investimento em defesa não põe em causa o bem-estar social da Europa.
Custará muito mais uma guerra do que o investimento em defesa para evitar essa guerra. Custará muito mais se tivermos uma guerra, não apenas em vidas humanas, que é o mais importante, mas também até em termos económicos”, sublinhou.
Além disso, ressalvou, investir em defesa “não é só investir em tanques e armas, é investir em capacidades de defesa que incluem, por exemplo, tecnologia”, sector onde os norte-americanos têm vantagem sobre a Europa precisamente pelo investimento que fizeram nessa indústria.
Embora admitindo que não gostaria que os seus netos fossem chamados para combater numa guerra, Durão Barroso considera que “é muito possível” que Portugal tenha de participar num conflito alargado.
Nós aqui, em Portugal, talvez não sintamos isso de maneira tão clara, mas eu estive há pouco tempo na Polónia. Eles estão a preparar-se ativamente para uma guerra que acham que é muito provável que aconteça. E a Polónia é um país da União Europeia, é um país da NATO [Organização do Tratado do Atlântico Norte]. Se a Polónia for atacada, Portugal tem o dever, pelos tratados que assinou, de ajudar a Polónia”, lembrou.
Um cenário que o também ex-ministro dos Negócios Estrangeiros acha “muito possível”.
“Todos os chefes militares dos principais países europeus dizem o mesmo: preparemo-nos porque há uma possibilidade grande de um ataque da Rússia a um país da NATO e da União Europeia”, avançou, sublinhando que o alerta é lançado “por especialistas”. A única forma de evitar que o Presidente russo, Vladimir Putin, avance é, “obviamente, não permitir que ele tenha uma vitória na Ucrânia“, concluiu.