Umaro Sissoco Embaló foi detido esta quarta-feira, três dias depois das eleições gerais cujos resultados oficiais ainda não foram divulgados. Mas antes de ser levado para a Fortaleza de São José de Amura, o Presidente da Guiné-Bissau revelou à Jeune Afrique a sua detenção num golpe de Estado, que atribuiu ao chefe de Estado Maior do Exército, o general Horta Inte Nan Tan. Do grupo dos detidos, farão parte ainda o ministro da Administração Interna, Botche Cande, o Chefe do Estado Maior das Forças Armadas, o general Biague Na Ntan, e o seu vice, o general Mamadou Toure, noticiou também a revista francesa.
Jornalistas no local, como os da Deutsche Welle e da AFP relataram que se ouviram tiros perto do palácio presidencial e da comissão eleitoral. No entanto, Sissoco Embaló revelou à Jeune Afrique que tinha sido detido perto das 12 horas, sem violência, no seu gabinete presidencial.
A meio da tarde já não se escutavam tiros no local, segundo garantiam os jornalistas da emissora alemã e da agência de notícias, a oposição falava em falso golpe de Estado para impedir o anúncio dos resultados eleitorais, agendados para quinta-feira, e os militares confirmavam ter assumido o “controle total do país”, suspendido todo o processo eleitoral e “deposto” o Presidente. O próprio Chefe de Estado, em declarações à France24, confirmou ter sido afastado, estando nessa altura ainda no edifício de Estado-Maior. “Não posso falar muito, porque vão confiscar o meu telefone”, disse ao canal televisivo francês.
The military has seized power in a coup in Guinea-Bissau. President Umaro Embaló has been arrested after a disputed election.
The opposition was disqualified from contesting.
He dissolved the Parliament for 2 years.
His administration survived two previous coup attempts. pic.twitter.com/9ZLPxErOED
— Africa Facts Zone (@AfricaFactsZone) November 26, 2025
Numa declaração ao país, os militares anunciaram ter assumido “a plenitude dos poderes do Estado da República da Guiné-Bissau”, impondo o recolher obrigatório das 21h às 6h, fechando as fronteiras terrestres e o espaço aéreo e o encerrando os órgãos de comunicação social. Dinis N’Tchama, porta-voz do autodenominado Alto Comando de Segurança Nacional para a Restauração da Ordem Pública (ACSNROP), disse que se tratava de manter os valores da “segurança nacional, paz civil e defesa da integridade territorial da Guiné-Bissau”.
Isto porque, argumentou, tinha sido descoberto um “esquema oriundo dos políticos nacionais com a participação de um conhecido barão da droga”, que teve a colaboração “também de forças estrangeiras”. Houve, de acordo com Dinis N’Tchama, uma “tentativa de manipulação de resultados eleitorais” e “foi descoberto um depósito de armamento de guerra”, indicou também.
Assim, “até que toda a situação seja convenientemente reposta e até ao pleno retorno da normalidade constitucional”, o ACSNROP assume o controlo de todas as instituições públicas e as funções governativas, garantiu.
Nessa comunicação, Dinis N’Tchama não referiu onde estava Sissoco Embaló, mas à AFP, fonte do alto comando militar que controla agora a Guiné-Bissau confirmou a detenção de Umaro Sissoco Embaló e destacou que o político estava a “ser bem tratado”.
No entanto, fonte ligada à oposição afirma ao Observador que os tiros escutados terão sido “a fingir” e que tudo não passará de uma manobra do Presidente para tentar suspender a contagem dos votos e a divulgação dos resultados oficiais nesta quinta-feira. Tanto o atual Presidente como o principal rosto da oposição, Fernando Dias — que se candidatou como independente pelo partido histórico PAIGC pela coligação PAI‑Terra Ranka e por uma ala do Partido da Renovação Social — têm reclamado a vitória nas eleições presidenciais e legislativas que decorreram no domingo.
A detenção do opositor e ex-primeiro-ministro enquanto Fernado Dias da Costa fugia
Num cenário que ainda está pouco claro, durante algumas horas houve a informação de que Fernando Dias e o líder do PAIGC, o ex-primeiro-ministro Domingos Simões Pereira, também tinham sido detidos. A notícia foi primeiro avançada pela RFI e confirmada mais tarde pela família, e pela campanha de Fernando Dias da Costa. Na página oficial de Domingos Simões Pereira no Facebook estava um comunicado de imprensa a dar conta de uma “invasão brutal” à diretoria da campanha tendo sido detidos os dois políticos.
Quatro horas depois, na mesma página, surgia um vídeo de Fernando Dias da Costa a explicar como tinha escapado a uma tentativa de “rapto” de homens armados na sede da campanha onde estava reunido com observadores internacionais:
“Saímos por portas traseiras do edifício, perseguiram-nos de todas as formas, e felizmente conseguimos escapar-lhes. Estou num local seguro”, assegurou, sem dizer onde se encontra.
Ao mesmo tempo, confirmava a detenção de Domingos Simões Pereira e pedia à população para se manifestar exigindo a libertação imediata do líder do PAIGC, apelando ainda à comunidade internacional para agir de forma a permitir o anúncio dos resultados eleitorais.
Horas antes desta tentativa, Fernando Dias da Costa demarcou-se do alegado golpe de Estado. Num vídeo publicado pelo portal de notícias Bissau On-line, no Facebook, o político apelou aos “militares para se manterem distantes” e pediu à população para “manter a calma”. Reiterou ainda que venceu as eleições presidenciais, avisando que “quem tentar criar problemas” sofrerá “consequências”.
???? URGENT – Présidentielle en Guinée-Bissau : des tirs entendus près du palais présidentiel après que les deux camps revendiquent leur victoire https://t.co/INWK3OOon4 pic.twitter.com/DzAgXEDUui
— FRANCE 24 – Urgent (@UrgentF24) November 26, 2025
???????? Des militaires en Guinée-Bissau ont annoncé mercredi prendre le "contrôle total du pays", "suspendre le processus électoral" et fermer les frontières, alors que le pays est dans l'attente des résultats des élections présidentielle et législatives organisées dimanche ⤵️ pic.twitter.com/dxiwbnYaQj
— Agence France-Presse (@afpfr) November 26, 2025
Portugal apela ao fim da violência, Guterres demonstra “profunda preocupação”
Portugal não demorou muito a manifestar-se sobre a crise guineense. A meio da tarde, o Ministério dos Negócios Estrangeiros apelou “a que todos os envolvidos se abstenham de qualquer ato de violência institucional ou cívica e que se retome a regularidade do funcionamento das instituições, de modo que se possa finalizar o processo de apuramento e proclamação dos resultados eleitorais”.
O Governo “está em contacto permanente com a embaixada portuguesa em Bissau, para se assegurar da situação dos cidadãos portugueses e, bem assim, da população em geral”, assegurou o MNE em comunicado divulgado à imprensa. A representação diplomática no país comunicou que “está a acompanhar atentamente a evolução da situação de segurança em Bissau, e nas restantes regiões da Guiné-Bissau, em estreita articulação com as autoridades guineenses e com os parceiros da União Europeia”. Recomendou ainda “a adopção de comportamentos prudentes e vigilantes, devendo ser evitadas deslocações que não sejam essenciais”.
Também o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) reagiu. O português António Guterres, através do seu porta-voz, demonstrou “profunda preocupação” com o que se está a passar na Guiné-Bissau. O antigo primeiro-ministro apelou também “ao respeito pelo Estado de Direito”.
E Moscovo não ficou em silêncio. A meio da tarde a embaixada russa em Bissau avisava que havia “informações contraditórias” sobre a situação “pouco clara” de Umaro Sissoco Embaló, segundo a RIA/Novosti. A agência estatal de notícias russa acrescentava ainda que homens armados tomaram o controlo do edifício da Comissão Nacional de Eleições.