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Tiros junto ao Palácio. Sissoco Embaló diz que foi detido e deposto. Militares assumem "controle total" e suspendem processo eleitoral

Este artigo tem mais de 6 meses

Presidente foi deposto e detido em alegado golpe de Estado. Oposição fala em manobra para impedir anúncio de resultados das eleições. Militares suspendem processo eleitoral e detêm também opositor.

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AFP via Getty Images

AFP via Getty Images

Umaro Sissoco Embaló foi detido esta quarta-feira, três dias depois das eleições gerais cujos resultados oficiais ainda não foram divulgados. Mas antes de ser levado para a Fortaleza de São José de Amura, o Presidente da Guiné-Bissau revelou à Jeune Afrique a sua detenção num golpe de Estado, que atribuiu ao chefe de Estado Maior do Exército, o general Horta Inte Nan Tan. Do grupo dos detidos, farão parte ainda o ministro da Administração Interna, Botche Cande, o Chefe do Estado Maior das Forças Armadas, o general Biague Na Ntan, e o seu vice, o general Mamadou Toure, noticiou também a revista francesa.

Jornalistas no local, como os da Deutsche Welle e da AFP relataram que se ouviram tiros perto do palácio presidencial e da comissão eleitoral. No entanto, Sissoco Embaló revelou à Jeune Afrique que tinha sido detido perto das 12 horas, sem violência, no seu gabinete presidencial.

A meio da tarde já não se escutavam tiros no local, segundo garantiam os jornalistas da emissora alemã e da agência de notícias, a oposição falava em falso golpe de Estado para impedir o anúncio dos resultados eleitorais, agendados para quinta-feira, e os militares confirmavam ter assumido o “controle total do país”, suspendido todo o processo eleitoral e “deposto” o Presidente. O próprio Chefe de Estado, em declarações à France24, confirmou ter sido afastado, estando nessa altura ainda no edifício de Estado-Maior. “Não posso falar muito, porque vão confiscar o meu telefone”, disse ao canal televisivo francês.

Numa declaração ao país, os militares anunciaram ter assumido “a plenitude dos poderes do Estado da República da Guiné-Bissau”, impondo o recolher obrigatório das 21h às 6h, fechando as fronteiras terrestres e o espaço aéreo e o encerrando os órgãos de comunicação social. Dinis N’Tchama, porta-voz do autodenominado Alto Comando de Segurança Nacional para a Restauração da Ordem Pública (ACSNROP), disse que se tratava de manter os valores da “segurança nacional, paz civil e defesa da integridade territorial da Guiné-Bissau”.

Fotogaleria. Soldados na rua, civis a fugir, barricadas: o ambiente em Bissau durante o alegado golpe de Estado

Isto porque, argumentou, tinha sido descoberto um “esquema oriundo dos políticos nacionais com a participação de um conhecido barão da droga”, que teve a colaboração “também de forças estrangeiras”. Houve, de acordo com Dinis N’Tchama, uma “tentativa de manipulação de resultados eleitorais” e “foi descoberto um depósito de armamento de guerra”, indicou também.

Assim, “até que toda a situação seja convenientemente reposta e até ao pleno retorno da normalidade constitucional”, o ACSNROP assume o controlo de todas as instituições públicas e as funções governativas, garantiu.

Nessa comunicação, Dinis N’Tchama não referiu onde estava Sissoco Embaló, mas à AFP, fonte do alto comando militar que controla agora a Guiné-Bissau confirmou a detenção de Umaro Sissoco Embaló e destacou que o político estava a “ser bem tratado”.

No entanto, fonte ligada à oposição afirma ao Observador que os tiros escutados terão sido “a fingir” e que tudo não passará de uma manobra do Presidente para tentar suspender a contagem dos votos e a divulgação dos resultados oficiais nesta quinta-feira. Tanto o atual Presidente como o principal rosto da oposição, Fernando Dias — que se candidatou como independente pelo partido histórico PAIGC pela coligação PAI‑Terra Ranka e por uma ala do Partido da Renovação Social — têm reclamado a vitória nas eleições presidenciais e legislativas que decorreram no domingo.

A detenção do opositor e ex-primeiro-ministro enquanto Fernado Dias da Costa fugia

Num cenário que ainda está pouco claro, durante algumas horas houve a informação de que Fernando Dias e o líder do PAIGC, o ex-primeiro-ministro Domingos Simões Pereira, também tinham sido detidos. A notícia foi primeiro avançada pela RFI e confirmada mais tarde pela família, e pela  campanha de Fernando Dias da Costa. Na página oficial de Domingos Simões Pereira no Facebook estava um comunicado de imprensa a dar conta de uma “invasão brutal” à diretoria da campanha tendo sido detidos os dois políticos.

Quatro horas depois, na mesma página, surgia um vídeo de Fernando Dias da Costa a explicar como tinha escapado a uma tentativa de “rapto” de homens armados na sede da campanha onde estava reunido com observadores internacionais:
“Saímos por portas traseiras do edifício, perseguiram-nos de todas as formas, e felizmente conseguimos escapar-lhes. Estou num local seguro”, assegurou, sem dizer onde se encontra.

Ao mesmo tempo, confirmava a detenção de Domingos Simões Pereira e pedia à população para se manifestar exigindo a libertação imediata do líder do PAIGC, apelando ainda à comunidade internacional para agir de forma a permitir o anúncio dos resultados eleitorais.

Horas antes desta tentativa, Fernando Dias da Costa demarcou-se do alegado golpe de Estado. Num vídeo publicado pelo portal de notícias Bissau On-line, no Facebook, o político apelou aos “militares para se manterem distantes” e pediu à população para “manter a calma”. Reiterou ainda que venceu as eleições presidenciais, avisando que “quem tentar criar problemas” sofrerá “consequências”.

Portugal apela ao fim da violência, Guterres demonstra “profunda preocupação”

Portugal não demorou muito a manifestar-se sobre a crise guineense. A meio da tarde, o Ministério dos Negócios Estrangeiros apelou “a que todos os envolvidos se abstenham de qualquer ato de violência institucional ou cívica e que se retome a regularidade do funcionamento das instituições, de modo que se possa finalizar o processo de apuramento e proclamação dos resultados eleitorais”.

O Governo “está em contacto permanente com a embaixada portuguesa em Bissau, para se assegurar da situação dos cidadãos portugueses e, bem assim, da população em geral”, assegurou o MNE em comunicado divulgado à imprensa. A representação diplomática no país comunicou que “está a acompanhar atentamente a evolução da situação de segurança em Bissau, e nas restantes regiões da Guiné-Bissau, em estreita articulação com as autoridades guineenses e com os parceiros da União Europeia”. Recomendou ainda “a adopção de comportamentos prudentes e vigilantes, devendo ser evitadas deslocações que não sejam essenciais”.

Também o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) reagiu. O português António Guterres, através do seu porta-voz, demonstrou “profunda preocupação” com o que se está a passar na Guiné-Bissau. O antigo primeiro-ministro apelou também “ao respeito pelo Estado de Direito”.

E Moscovo não ficou em silêncio. A meio da tarde a embaixada russa em Bissau avisava que havia “informações contraditórias” sobre a situação “pouco clara” de Umaro Sissoco Embaló, segundo a RIA/Novosti. A agência estatal de notícias russa acrescentava ainda que homens armados tomaram o controlo do edifício da Comissão Nacional de Eleições.

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