O líder da oposição guineense, Domingos Simões Pereira, disse esta quinta-feira, em Bragança, esperar que os militares não se eternizem no poder na Guiné-Bissau e pediu um sinal de que querem o regresso à normalidade constitucional.

“Eu espero que não, por isso é que eu disse e continuo a reiterar que se as entidades que controlam o país querem um voto de confiança e uma oportunidade devem alinhar-se com os princípios da reposição da normalidade constitucional”, afirmou, quando questionado pela Lusa sobre se teme que a Guiné-Bissau siga o caminho dos Estados do Sahel que sofreram golpes de Estado.

Os militares tomaram o poder na Guiné-Bissau há quase um ano e o Governo de transição anunciou esta quinta não haver condições para a realização das eleições gerais que tinham marcado para 06 de dezembro.

O líder da oposição, Simões Pereira, foi detido no golpe militar e libertado em julho para fazer tratamento em Portugal, onde se encontra atualmente, tendo participado, em Bragança, numa conferência na Universidade Politécnica (UPB), a convite dos estudantes guineenses.

Questionado sobre a situação política guineense, à margem do evento, Simões Pereira disse que, naquele momento, ainda não tinha conhecimento da decisão de adiamento das eleições na Guiné-Bissau e que dará a conhecer a sua posição depois de reunir as estruturas do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), a que preside.

Reiterou, contudo, que a realização de eleições na Guiné-Bissau “seria praticamente impossível, até porque, em termos de prazos, o prazo para a deposição das candidaturas terminou antes de ontem [terça-feira, dia 6]”. “Era só uma questão de confirmação política daquilo que tecnicamente já estava ultrapassado”, considerou.

Simões Pereira espera que a Guiné-Bissau não faça o percurso dos Estados que constituíram a Aliança do Sahel — Níger, Mali e Burkina Faso —, em que os militares permaneceram no poder depois de golpes de Estado para períodos de transição política.

O presidente do PAIGC continua a dizer que não sabe quando vai regressar a Bissau, nem o que vai fazer ao completar-se, neste mês de outubro, o prazo de três meses que lhe foi dado para deslocar-se a Portugal para tratamento, quando foi libertado em julho.

O político reiterou que se a sua libertação “foi condicional ou negociada”, ninguém lhe transmitiu “as condições dessa negociação”.

Acerca da recente decisão judicial que atribui uma indemnização de 30 milhões de francos CFA (cerca de 46 mil euros) aos cinco políticos presos no golpe militar, incluindo Simões Pereira, o político guineense entende que confirma o que tem defendido.

“Esta decisão por um tribunal da CEDEAO [Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental] vem confirmar a leitura que se faz, mesmo a nível internacional, e igual àquela que nós já tínhamos: a prisão foi, não só ilegal, como arbitrária“, disse.

Apesar do clima político e da instabilidade na Guiné-Bissau, Simões Pereira deixou uma mensagem de confiança aos jovens guineenses estudantes da Universidade Politécnica de Bragança (UPB), onde hoje falou na conferência sobre “Juventude e Participação Cívico-Política”.

O convite partiu do Núcleo de Estudantes Guineenses, que reúne os cerca de 200 estudantes da Guiné-Bissau espalhados pelas escolas da UPB.

O presidente do Núcleo, Rajik Mendes, defendeu que os jovens têm que “continuar a ver futuro” na Guiné-Bissau, mas reconheceu que o país não oferece aos jovens oportunidades para regressarem, pelo que a maioria acaba por ficar em Portugal, mesmo tendo que trabalhar fora da sua área de formação.

A instabilidade política trava projetos dos jovens estudantes e outros, como a disponibilidade dos politécnicos portugueses de desenvolvimento do ensino superior na Guiné-Bissau.

O reitor da UPB, Orlando Rodrigues, esteve em Bissau, em 2025, com uma missão dos politécnicos que não teve seguimento.

“Vontade do lado português e das instituições portuguesas havia, aqui o que está a falhar é, sobretudo, a possibilidade de estabelecer um diálogo institucional do lado da Guiné-Bissau”, disse à Lusa.

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