O Bloco de Esquerda “perdeu encanto” mas não “utilidade” — e é agora “mais necessário do que nunca”. “Não está a chegar aos eleitores”, admite Marisa Matias. E nem todos se resumem nem aos fatores externos — o recuo da esquerda no mundo e a hegemonia de direitas em Portugal — nem às responsabilidades internas, que não são apenas sobre comunicação. No seu diagnóstico, o Bloco colocou-se numa posição “mais defensiva” e “os tempos exigem outra intervenção política”.

Em entrevista ao Observador a partir da XIV Convenção do Bloco de Esquerda, a ex-eurodeputada não atribui responsabilidades exclusivas a Mariana Mortágua, mas à direção como um todo. E percebe a decisão da saída de Mortágua porque “tem sido alvo de um ataque enorme” — a própria percebeu que “pode não ser tão útil neste momento dada a carga que paira sobre ela”, e que torna difícil passar a mensagem política. “Ficou refém de um contexto”.

Nesse sentido, a mudança de liderança é “positiva” para dar “melhores ferramentas para fazer política” e com menos ruído. Também por características pessoais de José Manuel Pureza, frisa.

Já na análise aos problemas que o próprio Bloco criou, Matias aponta o facto de ter ter centrado muito a sua intervenção na “política institucional”. E lembra uma frase de Miguel Portas: é preciso “correr por dentro e correr por fora”, com enraizamento nas comunidades. “E o Bloco perdeu um pouco isso”.

Mas as pessoas desencantadas e “tristes” com o partido não cortaram necessariamente de forma definitiva com o Bloco, aponta, e a nova liderança ajudará a fazer diálogos e alargar essa abrangência.

Matias regista que nenhum partido se dedicou tanto à causa palestiniana, e que em temas como esse “não há nenhum problema em ficar sozinho”. Mas é importante olhar para a capacidade de fazer pontes — mais uma vez, o exemplo dado é o da luta contra as novas leis laborais. Já a Presidência da República “infelizmente” não uniu os partidos para uma candidatura única, embora o Bloco tenha estado “empenhado” nisso — ao contrário, deixa no ar, de partidos como o PCP, que decidiram avançar sozinhos.