A Netflix anunciou esta sexta-feira que chegou a acordo com a Warner Bros. Discovery para comprar os seus estúdios de cinema e televisão, assim como da sua subsidiária HBO Max, por 83 mil milhões de dólares (cerca de 71,1 mil milhões de euros), incluindo dívidas.

“A nossa missão sempre foi entreter o mundo”, afirmou Ted Sarandos, co-CEO da Netflix em comunicado. “Ao combinar o incrível acervo de programas e filmes da Warner Bros. — desde clássicos intemporais como Casablanca e Citizen Kane até favoritos modernos como Harry Potter e Friends — com os nossos títulos que definem a cultura, como Stranger Things, KPop Demon Hunters e Squid Game, poderemos fazer isto ainda melhor. Juntos, podemos oferecer ao público mais do que ele gosta e ajudar a definir o próximo século de narrativas”, sublinhou.

Também David Zaslav, presidente e CEO da Warner Bros. Discovery, disse que o anúncio desta sexta-feira “combina duas das maiores empresas de storytelling do mundo para levar a ainda mais pessoas o entretenimento que elas mais gostam de assistir”.

As negociações exclusivas avançaram depois de uma disputa entre Netflix, Comcast e Paramount. As três empresas apresentaram propostas esta semana, mas a da Netflix acabou por ser escolhida. Segundo o New York Times, que cita fontes familiarizadas com o assunto, a oferta incluiu o compromisso de manter a exibição nos cinemas os filmes produzidos pela Warner Bros. Discovery, algo que a plataforma não costuma priorizar.

Warner Bros. Discovery recebe propostas de venda e analisa alternativas estratégicas

O acordo terá, agora, de ser avaliado pelas autoridades federais. A análise da administração Trump às questões de concorrência dependerá da evolução do setor, num período em que a Apple e a Amazon se posicionam como concorrentes diretas de empresas tradicionais. Além disso, as relações políticas dos diferentes intervenientes neste processo poderão ter impacto: David Ellison, presidente executivo da Paramount que tentou adquirir toda a Warner Bros. Discovery, tem procurado estar próximo de Donald Trump, enquanto Brian Roberts, líder da Comcast, tem sido criticado publicamente pelo Presidente norte-americano.

A Warner Bros. Discovery, empresa de entretenimento que detém as sagas de Harry Potter e Batman, apresenta um catálogo de filmes diversificado, incluindo clássicos como Casablanca ou O Feiticeiro de Oz. Nos últimos meses, o estúdio registou uma sequência de filmes com resultados fortes ao nível da bilheteira, entre os quais Sinners, de Ryan Coogler, e One Battle After Another, de Paul Thomas Anderson.

Também a HBO mantém uma posição relevante no mercado de televisão por subscrição, com séries como Euphoria, The Gilded Age e The White Lotus. O catálogo mais amplo da Warner Bros., que inclui personagens como Bugs Bunny e séries como Friends e Game of Thrones, reforçaria a competitividade da Netflix.

Cinemas europeus expressam “forte oposição” aà compra da Warner Bros. pela Netflix

A possibilidade de a Netflix dominar uma fatia tão grande do mercado está também a criar receios dentro da própria indústria. Segundo o New York Times, um grupo de produtores de cinema enviou, na quinta-feira, uma carta anónima ao Congresso a expressar “graves preocupações” com o negócio.

“A Netflix vê qualquer tempo passado numa sala de cinema como tempo que não é gasto na sua plataforma”, escreveu o grupo, acrescentando que a empresa “não tem incentivo para apoiar a exibição [dos filmes] em sala e tem todos os incentivos para a eliminar”. Os autores da carta dizem ter omitido as assinaturas “por medo das represálias”.

Também a União Internacional de Cinemas (UIC) expressou esta sexta-feira a sua “forte oposição” à compra dos estúdios de cinema e televisão, alertando para a consequência de uma redução do número de filmes em salas. Em comunicado, a presidente executiva da UIC, Laura Houlgatte, afirmou que, caso se concretize o negócio anunciado, representará “um risco a dobrar”.

“Se um estúdio desaparece, isso inevitavelmente significa que os cinemas vão ter menos filmes para exibir às suas audiências, o que leva a uma redução de receita, encerramentos de cinemas e perdas de postos de trabalho na indústria”, afirmou aquela responsável, acrescentando que, “de muitas formas, isto é pior do que a compra de um estúdio por outro”. Houlgatte lembrou, ainda, que, “quer nas suas palavras quer nas suas ações, a Netflix tem repetido de forma clara que não acredita nos cinemas e no seu modelo de negócio”.

Citado no mesmo texto, o presidente do conselho de administração da UIC, Phil Clapp, apelou aos reguladores para que avaliem a compra à luz dos potenciais riscos que o negócio representa e as eventuais consequências para o setor da exibição de cinema, alertando para um “impacto profundamente danoso para a paisagem cultural da Europa”.

“A UIC vai fazer tudo ao seu alcance para tornar esses potenciais impactos — e a sua forte oposição ao negócio — claros para todas as autoridades na Europa e além dela”, realçou o presidente da UIC, que tem entre os seus membros a NOS Cinemas e o grupo AMC.

A publicação especializada Variety classificou o negócio como um momento que vai “refazer de forma dramática o negócio do entretenimento”. Já o Financial Times (FT) escreveu que a compra vai transformar a Netflix “no ator dominante de Hollywood, ao acrescentar uma atrativa biblioteca de conteúdo que inclui as franquias Harry Potter e Batman, o negócio de streaming da Warner Bros. Discovery e a programação ‘premium’ da HBO”.

O FT lembra que o acordo tem de ser aprovado pelos acionistas da Warner Bros. Discovery e pelos reguladores, havendo uma expectativa de que esteja fechado dentro de 12 a 18 meses.