Passou um mês e dez dias desde que o Sporting deixou sangue, suor e lágrimas nos Açores para vencer o Santa Clara. Num jogo que acabou por provocar uma gigantesca polémica relacionada com a arbitragem, os leões só resgataram os três pontos já bem dentro do período de descontos e não fugiram à ideia de que visitar o Estádio de São Miguel é uma das deslocações mais complexas do Campeonato. Na Taça de Portugal, portanto, queriam melhorar a imagem deixada em novembro em Ponta Delgada. 

Depois de dois jogos sem ganhar entre Benfica e Bayern Munique, o Sporting goleou o AVS no fim de semana e regressou às vitórias antes dos oitavos de final da Taça de Portugal. Rui Borges acrescentou ao extenso lote de lesionados as ausências de Geny Catamo e Diomande, que já estão com Moçambique e Costa do Marfim na CAN, mas continuava sem pré-justificar um eventual desaire com o facto de estar novamente a jogar de três em três dias com um plantel delapidado.

Ficha de jogo

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Santa Clara-Sporting, 2-3

Oitavos de final da Taça de Portugal

Estádio de São Miguel, em Ponta Delgada

Árbitro: João Pinheiro (AF Braga)

Santa Clara: Neneca, Lucas Soares (Tiago Duarte, 67′), Sidney Lima (Luís Rocha, 59′), Frederico Venâncio (Paulo Victor, 59′), MT, Henrique Silva, Djé Tavares (Pedro Ferreira, 81′), Serginho, Luquinhas, João Costa (Brenner Lucas, 67′), Gabriel Silva (Adriano Firmino, 95′)

Suplentes não utilizados: Gabriel Batista, Elias Manoel, Adriel Moraes

Treinador: Vasco Matos

Sporting: João Virgínia, Iván Fresneda (Ricardo Mangas, 90′), Eduardo Quaresma, Gonçalo Inácio, Matheus Reis (Salvador Blopa, 76′), Hjulmand, João Simões (Kochorashvili, 76′), Alisson Santos (Ioannidis, 66′), Trincão, Maxi Araújo (Flávio Gonçalves, 90′), Luis Suárez

Suplentes não utilizados: Rui Silva, Vagiannidis, Rodrigo Ribeiro, Rômulo Júnior

Treinador: Rui Borges

Golos: João Simões (12′), Lucas Soares (28′), Gabriel Silva (86′), Luis Suárez (90+16′), Ioannidis (98′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Luis Suárez (41′), a Gabriel Silva (44′), a Luquinhas (74′), a Iván Fresneda (89′), a Salvador Blopa (111′); cartão vermelho direto a Paulo Victor (88′)

“A motivação extra é saber que nos quartos de final jogamos em casa, algo que motiva qualquer equipa. As lesões e a cara… É a mesma cara. Temos demonstrado qualidade. A equipa está ligada e sabe o que vai encontrar, as qualidades do adversário, e temos de estar preparados. A parte competitiva tem de lá estar, a atitude também. Nada me preocupa, é sinal de que a equipa está ligada. É natural haver uma ou outra opção diferente, até pelas baixas que temos. Era cínico dizer que não ia haver uma ou outra alteração, vai de ter haver e estou confortável com isso”, explicou o treinador leonino na antevisão da partida.

Assim e também sem Morita, que ficou em Lisboa devido a uma gripe, Rui Borges lançava Matheus Reis na esquerda da defesa e João Simões a fazer companhia a Hjulmand no meio-campo, com Maxi Araújo a surgir novamente no ataque e Alisson a aparecer também no apoio a Luis Suárez. Do outro lado, num Santa Clara que vinha de uma derrota com o Sp. Braga, Vasco Matos tinha João Costa como referência ofensiva.

O Santa Clara entrou a todo o gás e aproveitou um arranque passivo do Sporting para criar desde logo duas situações de perigo, com Gabriel Silva a rematar para João Virgínia encaixar (2′) e Lucas Soares a obrigar o guarda-redes a uma intervenção mais atenta (4′). Os leões demoraram a encontrar o ritmo certo, mas a verdade é que só precisaram de chegar perto da baliza contrária uma vez para abrir o marcador.

Trincão soltou-se na direita e jogou com Fresneda, o lateral cruzou para a área e encontrou João Simões, que recebeu com o pé direito e rematou com o esquerdo, à meia-volta, para bater Neneca (12′). O golo do Sporting, porém, não mudou as dinâmicas do jogo. O Santa Clara continuou completamente descomplexado e, mesmo que fossem os leões a ter mais bola e a jogar mais tempo no meio-campo contrário, eram os açorianos a causar mais calafrios sempre que entravam no último terço.

E a verdade é que, já perto da meia-hora, a equipa de Vasco Matos conseguiu mesmo empatar. Lucas Soares recebeu um passe longo na direita, deixou Matheus Reis para trás e, já em posição frontal, atirou forte para bater João Virgínia (28′). Os leões só reagiram por intermédio de Alisson, que rematou por cima a partir da esquerda (32′), e o último quarto de hora acabou por ser fértil em interrupções, faltas e duelos, sem grandes aproximações às duas balizas.

Ao intervalo, Santa Clara e Sporting estavam empatados nos Açores e voltava a confirmar-se a ideia de que os açorianos causavam muitas dificuldades aos leões. A equipa de Rui Borges foi eficaz, chegou a parecer ter o controlo das ocorrências, mas demonstrava-se demasiado permissiva ao ataque corajoso do adversário e tinha algumas dificuldades na hora de construir lances verdadeiramente perigosos.

Nenhum dos treinadores fez alterações ao intervalo e o Sporting quis entrar com outra atitude, criando desde logo uma situação perigosa com João Simões a cruzar rasteiro na esquerda e Luis Suárez a falhar o desvio por pouco (47′). Maxi Araújo obrigou Neneca a uma defesa atenta com um remate já na área (52′) e o Santa Clara, embora se recusasse a afundar por completo, parecia mais preso às tarefas defensivas e não conseguia soltar-se como tinha acontecido na primeira parte.

Vasco Matos foi o primeiro a fazer substituições, lançando Luís Rocha e Paulo Victor à passagem da hora de jogo antes de também apostar em dose dupla em Brenner Lucas e Tiago Duarte, e Rui Borges respondeu com Ioannidis. O Sporting tinha a bola, dominava de forma genérica, mas não construía oportunidades e a insistência na total e constante utilização da largura acabava por afastar as jogadas da grande área e precipitar cruzamentos inconsequentes.

Kochorashvili e Salvador Blopa entraram já dentro dos últimos 20 minutos, com Maxi Araújo a recuar para a esquerda da defesa, e a apatia demonstrada pelos leões acabou por permitir que os açorianos crescessem e recuperassem alguma presença no meio-campo contrário. Já nos derradeiros dez minutos, essa presença teve consequências: Gabriel Silva recebeu à entrada da grande área de costas para a baliza, livrou-se de Gonçalo Inácio e rematou, com a bola a desviar em Eduardo Quaresma e a trair João Virgínia (86′). 

Rui Borges lançou Ricardo Mangas e Flávio Gonçalves, Paulo Victor foi expulso com cartão vermelho direto na sequência de uma confusão em campo e, já nos descontos, lançou-se o quase incompreensível. O jogo esteve parado mais de dez minutos para uma revisão do VAR, João Pinheiro acabou por ser chamado ao monitor e assinalou grande penalidade de Tiago Duarte sobre Hjulmand, com Luis Suárez a converter e a empatar novamente a partida (90+16′), atirando a eliminatória para o prolongamento.

Em superioridade numérica, os leões conseguiram chegar à vantagem ainda na primeira parte da meia-hora extra, com Ioannidis a cabecear na área após cruzamento de Trincão na direita (98′). O Sporting venceu o Santa Clara nos Açores e está nos quartos de final da Taça de Portugal, onde já sabe que vai defrontar o AVS — e com Ioannidis a resgatar uma equipa das sombras já para lá da hora.