Era uma Assembleia Geral diferente, era uma Assembleia Geral “nova”. Ao contrário do que acontecia até aqui, em que qualquer sócio interessado em participar numa reunião magna tinha de deslocar-se ao Pavilhão da Luz, o Benfica montou uma operação para tornar o encontro mais abrangente, abrindo a possibilidade de acompanhar tudo através do site e da app oficiais do clube não só para seguir as intervenções mas também para colocar questões e votar pelos meios digitais. Objetivo? Ter o máximo de participação possível naquele que será um projeto que marcará as próximas décadas dos encarnados a vários níveis, o Benfica District.

Custo de 295 milhões entre estádio e projeto, o exemplo “à inglesa” e o sonho da NBA: District, um projeto com “impacto positivo nas contas”

“Esta é uma Assembleia Geral que decorre dos Estatutos, extraordinária, por solicitação da Direção. Vai debater um assunto muito específico, que é o Benfica District, proposta que a Direção colocou à apreciação dos sócios já há algum tempo, e está disponível; e esta assembleia vai versar única e exclusivamente sobre esta questão, ponto único da ordem de trabalhos. Por um lado, a apresentação da proposta, daquilo que é para apresentar em assembleia geral, que decorre daquilo que a Direção tem vindo a fazer. Depois, seguir-se-á um período de esclarecimentos da Direção. Em simultâneo com este período decorrerá logo o processo de votação, presencial e à distância”, explicara José Pereira da Costa, presidente da Mesa.

“Tendo o Benfica sócios em mais de 130 países, começava a criar algum ruído os sócios não poderem participar nas Assembleias Gerais à distância. É isso mesmo que vamos promover, o aumento da participação a bem da democracia no Benfica. O que há aqui é evolução na continuidade. As Assembleias Gerais continuam a ser realizadas como sempre, agora com duas novidades: transmissão para todos os benfiquistas que queiram assistir, colocando questões e deliberando, participando na vida associativa do Benfica. Vamos conseguir, sobre um assunto muito importante, ter a participação de todos os sócios que queiram fazê-lo, estejam onde estiverem”, acrescentou o responsável pela reunião magna deste sábado.

Também na antecâmara da Assembleia Geral houve vários momentos de explicação de todos os pontos do projeto, neste caso com os vice-presidentes do clube a assumirem o principal protagonismo a começar por Nuno Catarino, responsável pelas finanças do Benfica que esteve na BTV e depois numa conferência de imprensa realizada apenas para falar sobre o Benfica District. “A receita bruta potencial é de 37 milhões de euros, retirando os custos diretos será à volta dos 24 milhões. Será com esse valor que conseguimos pagar o project finance que permita pagar o Estádio ao final de 15 anos. É um projeto autossustentável e com o mérito próprio para viver”, destacou, falando de custos de 220 milhões de euros apenas para a parte do Benfica District mais 75 milhões de euros relativos às obras no interior da Luz.

“O estádio vai ter 80 mil lugares, é esse o plano. Há várias pequenas alterações que serão necessárias mas vou centrar nas quatro principais. O rebaixamento do relvado que vai permitir novas filas e aproximar bastante os adeptos do próprio jogo, um bocadinho mais à inglesa. O piso 1 que permita fazer parte da bancada mais para trás, como o estádio do Arsenal que tem esse formato e obriga a mudar toda a forma como se circula nesse espaço. No piso 0 é possível ter setores em safe standing, temos isso relativamente estudado para ver quantos lugares poderemos acrescentar. No piso 3 é possível fazer algum reforço da estrutura por fora porque a estrutura do estádio não aguenta mais peso. Está confortavelmente nos limites de segurança mas não dá para fazer mais. Passa por alguns daqueles espaços por trás dos ecrãs gigantes, colocar mais umas colunas por fora, o que faz sentido pois servem de apoio do fecho da envolvente do estádio no projeto. Aqui os dois projetos tocam-se pois partilham uma infraestrutura”, detalhou sobre as obras no Estádio.

“O projeto está bastante bem definido em termos arquitetónicos, temos estudos técnicos de acessibilidades, ruído, tudo o que é necessário para entregar na Câmara de Lisboa a pedir a alteração de loteamento. Temos tido reuniões com a Câmara para validar tudo isto no PDM, fizemos estudos de consulta às comunidades à volta do estádio para perceber as suas preocupações. Estamos prontos para entrar na nova fase, o ano de 2026 passará muito por detalhar e chegar ao pormenor. Procurar os melhores operadores internacionais para várias zonas específicas de modo a garantir as receitas e contactos com bancos. O Estádio será maior, o que nos permitirá dar uma melhor resposta à lista de espera dos Red Pass. A nossa premissa foi a de não parar a atividade no Estádio, ou seja, o projeto está pensado para manter a operacionalidade. Na parte de fora haverá condicionalismos, sendo que nas modalidades estamos a estudar várias soluções em termos de aluguer de pavilhões porque vamos ter dois anos sem pavilhões. Quanto ao Museu, à loja e a alguns serviços do clube a solução passará para instalações temporárias”, acrescentou ainda Nuno Catarino.

Já este sábado, e pela primeira vez desde a apresentação oficial no final de julho, foi a vez de Rui Costa, presidente do Benfica, falar sobre o Benfica District no arranque da Assembleia Geral com uma afluência bem mais modesta face à última, nesse caso para votação de Relatório e Contas antes do ato eleitoral.

“Desde o primeiro momento em que apresentámos o projeto Benfica District, assumimos um compromisso inequívoco: este seria um projeto construído com os sócios e decidido pelos sócios. Dissemos, sem ambiguidades, que o futuro deste projeto passaria por uma Assembleia Geral. Hoje estamos aqui a cumprir essa palavra. O Benfica honra-se quando respeita os seus compromissos e quando coloca os seus associados no centro das decisões estruturais do clube. Com o mesmo sentido de responsabilidade e com total transparência, colocámos o projeto em consulta pública, realizámos duas sessões de esclarecimento, em Faro e em Paredes, e recolhemos dezenas de sugestões e ideias enviadas pelos sócios”, começou por referir.

“O Benfica District é um projeto estratégico, que visa dotar o clube de infraestruturas que permitem ter um Benfica mais preparado para enfrentar os desafios do futuro. Um projeto que corporiza e traduz uma ambição na vanguarda do que de melhor se faz a nível mundial e sem paralelo na realidade portuguesa. Uma ideia inteiramente vinculada à modernidade, que responde às prioridades presentes e antecipa cenários futuros. O Benfica District, que hoje propomos para discussão e apreciação dos sócios, confere ao Benfica uma relação ainda mais próxima e envolvente com os seus adeptos, mais receitas, maior potencial de investimento nas nossas equipas e, por conseguinte, uma maior capacidade de competir a nível nacional e internacional”, prosseguiu Rui Costa, sem entrar em grandes detalhes sobre o projeto na parte “logística” e financeira tendo em conta as intervenções que se seguiriam do arquiteto Miguel Saraiva e de Nuno Catarino.

220 milhões de investimento, financiamento privado a 15 anos, 37 milhões/época de receita e três inspirações: o Benfica District, em números

“Trata-se de um projeto autónomo em termos de financiamento e que em nenhum momento irá comprometer a nossa capacidade de investimento nas nossas equipas. Pelo contrário, no médio prazo, irá permitir reforçar esse investimento e a nossa qualidade. O Benfica District engloba-se no objetivo mais lato de chegarmos, tão rápido quanto possível, a receitas consolidadas de 500 milhões de euros, ao mesmo tempo que o clube passa a dispor de melhores infraestruturas para acentuar a evolução associativa, desportiva, comercial e financeira que todos almejamos. Em paralelo e de mãos dadas com este projeto, vamos aumentar a lotação do nosso estádio para os 80.000 lugares. Pretendemos, assim, ir ao encontro da enorme procura por Red Pass e da vontade de cada vez mais adeptos marcarem presença no nosso Estádio da Luz”, frisou.

“Toda esta transformação e modernização que propomos à aprovação dos sócios respeita a indispensável sustentabilidade económica e financeira do clube e da SAD, respeita os nossos compromissos ambientais e honra a identidade inicial do nosso estádio, um princípio refletido na opção de se trabalhar com a Populous e a Saraiva e Associados. Com o Benfica District ganha o Benfica, ganha Lisboa e ganha Portugal. E seremos, uma vez mais, pioneiros. Toda a área envolvente do estádio será transformada, oferecendo uma nova centralidade à cidade e beneficiando o clube e os sócios com mais e melhores instalações, mais e melhores meios, e uma experiência de jogo ainda mais marcante. Mais do que um projeto desta Direção, trata-se de um projeto do Benfica para os próximos 50 anos, num rumo inovador para o futuro”, concluiu.

Três pavilhões (um com 10.000 lugares), teatro, nova praça, “outra” Luz: Benfica District, “o mais ambicioso projeto previsto para Lisboa”

Seguiram-se mais explicações, neste caso de Miguel Saraiva e Nuno Catarino, sobre um projeto que promete mudar a zona que circunda a Luz e que aumentará tudo aquilo que se conhece hoje na envolvência.

  • Aumento da Luz para 80.000 espectadores, com uma nova fachada “fluida e dinâmica na sua arquitetura, que redefine a sua forma através de uma perspetiva contemporânea, moderando a luz e o calor para proporcionar sombra aos átrios e com iluminação LED integrada que tece uma camada digital dinâmica em toda a estrutura, iluminando a arquitetura nos dias de jogo”. “Será adicionado um novo quarto nível à infraestrutura, fora da arquibancada, com possibilidade de escritórios e oferta de hospitalidade premium”, acrescentava o projeto além das explicações supracitadas;
  • Pavilhão ou Arena multiusos com 10.000 lugares, que permitirá não só receber grandes eventos no plano desportivo como concertos, eventos culturais ou eSports, com essa particularidade de passar a ser (de longe) a maior infraestrutura deste tipo a pertencer a um clube desportivo;
  • Dois pavilhões multiusos cobertos de última geração, com capacidade para 2.500 e 1.500 lugares, que acolherão os jogos de modalidades como basquetebol, voleibol, andebol, hóquei patins, futsal, boxe e muito mais, que irão substituir os dois pavilhões existentes e também a piscina;
  • Uma piscina comunitária com 25×25 metros, com comodidades modernas para “um recurso recreativo para adeptos e residentes”;
  • Um teatro/espaço para eventos, com capacidade para 500 pessoas;
  • Um campo de futebol ao ar livre no terraço e uma pista de corrida, “criando ambientes imersivos de treino e fitness no coração de Lisboa”;
  • Instalações comerciais, hoteleiras e residenciais;
  • Um novo espaço de convívio para antes e depois dos jogos com 100×40 metros, aumentando o que existe nesta altura como praça para sócios e adeptos em frente à fachada do Estádio “inspirada nas famosas praças cívicas de Lisboa como a Praça do Rossio” com capacidade para mais de 10.000 pessoas e que poderá funcionar também de forma diária por ter lojas, restaurantes e esplanadas.

Foram quase 50 os associados que quiseram usar da palavra, sendo que através das vias online chegavam outras perguntas sobre o projeto. Algumas dessas intervenções funcionavam quase como contraponto a tudo o que tinha sido apresentado, com dúvidas sobre possíveis derrapagens tendo como exemplo a renovação do Santiago Bernabéu pelo Real Madrid, custos elevados que iriam perdurar no tempo e a possibilidade de haver apenas um aumento da lotação do Estádio da Luz até pelas dificuldades em encher os pavilhões de todas as modalidades que já se veem agora. “Que o Sport Lisboa e Benfica se sobreponha ao Sport Lisboa e Betão”, pediu outro dos associados que falou nessas intervenções que foram sendo realizadas de manhã. “É decisivo lançar um concurso para um parceiro internacional e garantir que o estádio tenha cobertura”, disse também Mauro Xavier, que apontou para um projeto “que não ficará abaixo dos 450 a 500 milhões”.

“A matéria que oficialmente nos justifica esta espécie de Assembleia Geral extraordinária é a deliberação sobre um conceito para a modernização das infraestruturas do clube. O conceito é demasiado embrionário e indeterminado para motivar um debate com substância proporcional às suas implicações. Convocar para este efeito os sócios com escassa antecedência, tem como propósito imediato distrair os benfiquistas da depressão desportiva em que mergulhámos. Como diz o povo, com papas e bolos se enganam os tolos”, criticou Gonçalo de Almeida Ribeiro, antigo vice do Tribunal Constitucional e candidato derrotado à Mesa nas últimas eleições na lista de João Noronha Lopes, entre críticas também às mudanças introduzidas nesta reunião magna: “Em vez de Assembleias, passamos a ter referendos eletrónicos. Participar não significa apenas votar mas integrar um processo deliberativo que decorre numa atmosfera colegial”.

“Vi aqui vários exemplos de outros clubes cujos projetos estão em curso mas há um que está mais relacionado com aquilo que devia ser a visão do Benfica, que é o do Manchester United. É provavelmente a maior regeneração urbanística e desportiva depois dos Jogos de 2012, em todo o Reino Unido, em que a chave e a mensagem que quis deixar passar foi ‘Vamos ter a melhor equipa do mundo de futebol, no melhor estádio do mundo de futebol’. E acho que é isto que o Benfica é, é futebol e modalidades. E foi isto que tive o cuidado de analisar. Mais de 80% dos sócios quer saber do estádio, tudo o que está relacionado com o estádio, ou seja, futebol”, comentou também João Diogo Manteigas, candidato derrotado nas últimas eleições do Benfica.

“A questão do Benfica District, e passo para as perguntas, não tem uma resposta para aquilo que é essencial, que é como é que nós vamos voltar a ganhar e como é que vamos passar a ser hegemónicos com o Benfica District? Coisa que, obviamente, o senhor arquiteto não vai conseguir responder mas estou à espera de que os senhores atrás de mim me respondam, porque até agora não conseguiram responder”, prosseguiu, antes de deixar outras questões sobre licenciamentos, a hipótese de haver safe standings e também, ou ainda mais importante, sobre a relação entre a Benfica SAD e a sociedade Benfica Estádio.

Foi já depois dessas intervenções que José Pereira da Costa, líder da Mesa, admitiu a existência de alguns problemas na votação eletrónica. “Há muita gente a tentar votar, sinal da adesão dos sócios espalhados pelo mundo a esta AG. A esses sócios peço compreensão dos eventuais constrangimentos que possa haver no tempo de voto, sendo que estão asseguradas tecnicamente as condições para os sócios votarem. O facto de estar anunciado que a votação termina às 17h30 não quer dizer que termina a essa hora, quem se inscrever antes para votar, aqui na fila ou no site, votará. A data de encerramento de uma AG não é taxativa. Sócios que estejam em casa a tentar votar, vão votar pacientemente”, apontou perante os relatos que davam conta de erros na página, impossibilidade de acesso à mesma e constrangimentos na fase de votação. Mais tarde, o responsável acabou por confirmar que o processo de votação estaria aberto até mais tarde (21h).

Nuno Catarino voltou a tomar a palavra admitindo que precisava de “um ou dois dias” para responder a todas as dúvidas que tinham sido levantadas, Rui Costa quis também fazer uma última intervenção antes do fecho da Assembleia Geral com respostas a algumas das questões e críticas que tinham sido feitas.

“Não tinha obrigação de fazer esta Assembleia mas este processo não avançaria sem a apresentação aos sócios. Não iremos partir para nenhum projeto sem a aprovação dos sócios. Jamais iria meter o clube em risco com uma situação destas. Não sonho com centros comerciais nem com betão: o que quero no Benfica é a parte desportiva e não betão. Estamos a melhorar todas as condições do Estádio da Luz. Não queremos transformar o Benfica num clube de betão mas queremos elevar e fazer crescer o nosso clube.  Cumprimos uma promessa eleitoral, a pensar num projeto que tem de terminar em 2029. Só pode ir à Câmara depois desta Assembleia e quanto mais tempo se ganhar mais perto estamos de ter o Estádio em 2029. Que o dia acabe com mais uma vitória, que é o que todos nós desejamos”, apontou o líder das águias.

Mais tarde, e enquanto decorria ainda a votação, João Gabriel, antigo diretor de comunicação durante vários anos, criticou também a forma como o projeto estava a ser sufragado. “A nova direção do Benfica convocou uma Assembleia Geral para discutir o Benfica District. Trata-se de um projeto apresentado em contexto de campanha eleitoral, sem o necessário amadurecimento, sem informação clara sobre o seu modelo de financiamento, sem um estudo de viabilidade económica e, sobretudo, sem responder de forma objetiva às reais necessidades de intervenção no Estádio da Luz. Independentemente do sentido da decisão que venha a ser tomada, esta votação ficará inevitavelmente ferida de legitimidade. Não por falta de interesse dos sócios mas por falhas da estrutura do clube. Quando se promete inovação para o futuro, o mínimo é assegurar que se consegue oferecer aos sócios algo tão básico quanto o acesso funcional à internet. Sem isso, qualquer discurso sobre modernidade perde credibilidade e qualquer decisão tomada perde força”, apontou.

Faltava apenas conhecer a decisão final dos associados, que chegaria pouco depois das 21h15: entre um universo total de 28.228 sócios votantes, o “sim” conseguiu 59,24% contra 40,66% do “não”. “É uma vitória do ‘sim’ e da proposta apresentada. Foi uma votação esclarecedora na adesão dos sócios à Assembleia. Participaram mais de 30 mil sócios, quer à distância, quer na sede, e a Mesa não poderia deixar de saudar a todos os que participaram e que, com o seu contributo, desenvolveram a proposta pedindo esclarecimentos, fosse verbalmente, oralmente ou por escrito. É verdade que a adesão foi de tal forma avassaladora que gerou alguns constrangimentos durante o dia, constrangimentos esses que foram durante o dia corrigidos e serão aproveitados para no futuro desenvolvermos um método”, finalizou José Pereira da Costa.