Investigadores portugueses desenvolveram uma molécula inovadora para usar na terapia fotodinâmica contra o cancro, que pode levar à destruição localizada de tumores sem atingir tecidos adjacentes. Trata-se de um tipo de terapia que passa por ativar o chamado “fotossensbilizador”, responsável por absorver luz infravermelha de forma a desencadear reações químicas que matam tumores.

Esta terapia já é utilizada em Portugal em áreas como a dermatologia ou oftalmologia, mas a descoberta traz fortes esperanças de que em “quatro ou cinco anos”, o tratamento chegue também a doentes oncológicos.

Uma das grandes vantagens desta terapia é a sua elevada seletividade: o fármaco é praticamente inócuo na ausência de luz, permitindo destruir o tumor apenas na área iluminada. O novo “fotossensibilizador” criado pelos cientistas portugueses, a molécula LUZ51, é o mais pequeno conhecido até agora. “Os estudos realizados comprovam que a Terapia Fotodinâmica com LUZ51 se acumula 13 vezes mais nos tumores do que nos tecidos adjacentes, é rapidamente internalizada pelas células tumorais e induz a sua morte quando ativada por luz infravermelha. Esta molécula permite-nos atacar tumores sólidos — tumores que se desenvolvem em órgãos específicos — e nos estudos animais curou ratinhos com tumores agressivos e relativamente grandes, preservando os tecidos saudáveis circundantes e minimizando efeitos adversos”, indica a Universidade de Coimbra em comunicado.

Ciência. Luís Arnaut: “Nova molécula é francamente muito mais potente”

“Um dos resultados mais notáveis foi observado no tratamento do equivalente humano do cancro da mama triplo negativo, caracterizado pela sua diversidade e por ser um tipo mais agressivo e com pior prognóstico. Mesmo quando o tumor primário já apresentava sinais de metastização para os pulmões, o tratamento local com LUZ51 levou a uma redução significativa e, em alguns casos, à eliminação das metástases pulmonares”, acrescenta, na mesma nota, Luís Arnaut, professor do Departamento de Química da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra e investigador do Centro de Química de Coimbra. O porta-voz da equipa de investigadores revela existirem dados que sugerem que a molécula poderá também ativar o sistema imunitário do hospedeiro, promovendo uma resposta antitumoral para além da área diretamente tratada.

Investigadores melhoraram molécula já existente

Ao Observador, o cientista destaca a importância dos estudos passados para chegar até aqui, visto que a LUZ51 é a versão melhorada de uma molécula desenvolvida no início da década passada — a Redaporfin. Tal como a LUZ51, nasceu de um processo conjunto entre a Universidade de Coimbra e a Luzitin, empresa portuguesa que explora soluções na área da terapia fotodinâmica. “Com a Redaporfin aprendemos que para tornar o processo mais eficaz tínhamos que ser capazes de colocar mais moléculas dentro dos tumores e que era mais fácil fazer isso se as moléculas fossem mais pequenas. A LUZ51 tem cerca de metade do tamanho da Redaporfin e consequentemente, tem muito maior eficácia e é muito mais capaz de destruir todas as células cancerígenas dentro dos tumores.”

Com a melhoria da molécula, a cura poderá estender-se a mais tipos de cancros mais agressivos: “Estamos neste momento muito interessados em fazer o tratamento do pâncreas e o tratamento da mama triplo negativo”.

Como funciona a molécula LUZ51

Este tipo de terapia difere em muitos aspetos dos tratamentos mais comuns para combater o cancro, sobretudo pela sua precisão. “A molécula é administrada por via intravenosa e tem a capacidade de, cerca de 15 a 30 minutos depois, encontrar o seu caminho para o interior do tumor. Depois, distribui-se muito competentemente por todas as células tumorais que se encontram no tumor. De tal forma que quando iluminamos o tumor pouco tempo depois da administração já conseguimos fazer a destruição da massa tumoral. Além disso, a molécula é rapidamente eliminada do organismo: Passadas 12 horas da administração já só se encontra praticamente no tumor e já foi eliminada do sangue, portanto não é suscetível de provocar efeitos adversos”, explica Luís Arnaut ao Observador.

Equipamentos têm custo menor que os usados noutras terapias

Luís Arnaut recorda que no passado, foi feito um ensaio clínico no IPO do Porto com a molécula Redaporfin que deixou esperança em relação à facilidade com que este tipo de tratamento pode vir a ser introduzido nos hospitais. “O ensaio clínico foi feito em colaboração com oncologistas do IPO do Porto e por isso já há médicos em Portugal que sabem fazer terapia fotodinâmica. Aqueles que não sabem conseguem aprender com relativa rapidez. A capacidade em termos de recursos humanos existe e trata-se de algo fácil de treinar e pôr em prática.”

O investigador considera o preço do equipamento “extremamente baixo”: “Em medicina, quando se diz que um equipamento custa entre 10 e 20 mil euros, é quase de borla. Não estamos a falar de equipamentos que custam entre 1 e 10 milhões de euros, que são necessários para a radioterapia, por exemplo. Além disso, o processo na prática é muito mais simples. Como na radioterapia a radiação utilizada é muito perigosa, obriga a múltiplos tipos de cuidados, até junto do pessoal que administra a radioterapia. Mas nós usamos luz infravermelha — algo bastante barato por poder ser feito com leds ou lasers — e esses cuidados não são necessários. Há uma segurança e economia muito maiores”, conclui.

Em relação ao futuro, Luís Arnaut explica o percurso (cada vez mais curto) que falta percorrer até esta molécula ser usada no tratamento de tumores em humanos, algo que prevê acontecer dentro de quatro ou cinco anos. “A nossa expectativa é que seja possível, em colaboração com a indústria farmacêutica e com investidores, iniciar ensaios clínicos dentro de um ano. Neste período de um ano ainda vamos fazer alguns estudos para ter a certeza de que esta molécula é completamente segura e não tem efeitos de toxicidade. Os ensaios clínicos tipicamente demoram entre três a quatro anos até serem conclusivos, visto que temos que perceber as vantagens que oferecem relativamente aos tratamentos já existentes e verificar no ensaio clínico aquilo que estamos a verificar nos estudos com animais.”

O estudo Seamlessly Overcoming Biological Barriers with a Small Photosensitizer to Treat Metastatic Tumours with Photodynamic Therapy (ou ultrapassar facilmente barreiras biológicas com um fotossensbilizador para tratar tumores metastásicos com terapia fotodinâmica, em tradução livre) foi publicado numa das revistas científicas mais conceituadas do mundo na área da química, a Angewandte Chemie International Edition. “Houve uma revisão por pares em todo o mundo, que apontam este trabalho como um dos melhores sobre fotossensibilizadores para a terapia fotodinâmica”, congratula-se o investigador.

Texto editado por Leonor Riso