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Mandíbulas e dentes de 773 mil anos descobertos em Casablanca revelam ancestrais africanos da espécie humana

Este artigo tem mais de 6 meses

Mandíbulas de dois adultos e uma criança, um fémur, vários dentes e vértebras encontrados em Marrocos reforçam a hipótese da origem africana do homem. Fósseis revelam ancestral do Homo sapiens.

Mandíbula com 773 mil anos encontrada no sítio arqueológico Thomas Quarry I, em Marrocos/ Early hominins from Morocco basal to the Homo sapiens lineage
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Mandíbula com 773 mil anos encontrada no sítio arqueológico Thomas Quarry I, em Marrocos

Hamza Mehimdate/Programa da Pré-história de Casablanca

Mandíbula com 773 mil anos encontrada no sítio arqueológico Thomas Quarry I, em Marrocos

Hamza Mehimdate/Programa da Pré-história de Casablanca

Numa gruta em Casablanca, a “Grotte à Hominidés” (Caverna dos Hominídeos), foram desenterrados fósseis de ossos e dentes que podem trazer uma nova luz sobre a teoria da evolução, colmatando a “lacuna no registo fóssil de África”. Com 773 mil anos (com uma margem de erro de 4.000 anos), estes fragmentos encontrados em Marrocos apontam para um ancestral do Homo sapiens mais antigo. Ou seja, poderão ter sido encontrados os antepassados mais próximos da espécie humana, que seriam africanos, conclui um estudo publicado na revista Nature  na semana passada.

A equipa internacionl de investigadores considera que os fósseis podem representar uma população africana que existiu pouco antes da separação evolutiva das linhagens que deram origem ao Homo sapiens em África e aos dois hominíneos intimamente relacionados – os neandertais e os denisovanos – que habitaram a Eurásia.

“Eu seria cauteloso em chamá-los de ‘o último ancestral comum’, mas é plausível que sejam próximos das populações das quais acabaram por emergir as linhagens africanas (Homo sapiens) e eurasiáticas (neandertais e denisovanos)”, disse o paleoantropólogo Jean-Jacques Hublin, do Collège de France, em Paris, e do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, na Alemanha, autor principal da investigação.

Os restos mortais — descobertos e desenterrados em 2008 no sítio arqueológico Thomas Quarry I, em Casablanca — contam com duas mandíbulas de adultos, uma praticamente intacta, e uma de criança, um fémur e vários dentes e vértebras. Estavam numa caverna que os investigadores pensam que seria um covil de predadores que os hominídeos usavam apenas ocasionalmente (deixaram para trás ferramentas de pedra típicas da indústria acheulense). Prova disso é que o fémur de um deles tinha vestígios de mordidas que sugerem que possa ter sido caçado ou devorado por uma hiena.

Os ossos e dentes mostram “um mosaico de traços primitivos e derivados, coerente com uma diferenciação evolutiva já em curso durante este período, reforçando uma profunda ancestralidade africana para a linhagem do Homo sapiens, acrescentou Hublin.

Mandíbulas, dentes e vértebras descobertos em Casablanca e divulgados na revista Nature Early hominins from Morocco basal to the Homo sapiens lineage/ Nature

Mandíbulas, dentes e vértebras descobertos em Casablanca e divulgados na revista Nature

Curiosamente, os fósseis mais antigos conhecidos de Homo sapiens, datados de cerca de 315.000 anos, também foram encontrados em Marrocos, num sítio arqueológico chamado Jebel Irhoud. Mas acredita-se que os antepassados tenham divergido muito antes — entre há 750 mil e 550 mil anos — das linhagens euro-asiáticas que deram origem aos neandertais e aos denisovanos, dois dos primos dos já extintos.

Até então, os principais fósseis de hominídeos arcaicos deste período no ‘Velho Mundo’ ocidental tinham sido encontrado na Gran Dolina, em Atapuerca, Espanha, representando uma espécie humana conhecida como Homo antecessor. Os da Grotte à Hominidés têm aproximadamente a mesma idade dos de Atapuerca, mas Matt Skinner, co-autor do estudo, sustenta, em comunicado divulgado pelo Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, que os fósseis descobertos em Casablanca não têm semelhanças nem com o Homo erectus, nem com o Homo antecessor.

Embora intimamente relacionados, os fósseis marroquinos e espanhóis não são totalmente iguais, um sinal de “populações que estão em processo de separação e diferenciação”, acrescentou também o paleoantropólogo Hublin à agência France-Presse (AFP).

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Para os cientistas, os fósseis encontrados em Casablanca podem representar uma forma evoluída da espécie humana arcaica Homo erectus, que terá surgido há cerca de 1,9 milhões de anos em África e mais tarde se terá espalhado pela Eurásia.

Já o Homo antecessor, com aproximadamente 800.000 anos, combinava características que faziam lembrar o Homo erectus com outras semelhantes às do Homo sapiens e dos neandertais/denisovanos. Isto levou à hipótese, bastante debatida, de que o Homo sapiens teria tido origem fora de África antes de para lá regressar.

Mandíbula encontrada no sítio arqueológico Thomas Quarry I, em Marrocos J.P. Raynal/Programa da Pré-história de Casablanca

Mandíbula encontrada no sítio arqueológico Thomas Quarry I, em Marrocos

Havia uma “lacuna no registo fóssil de África”, explicou à AFP Jean-Jacques Hublin. Este estudo preenche esta lacuna ao datar os fósseis da “Caverna dos Hominídeos”, descoberta em 1969 em Casablanca, na costa atlântica de Marrocos.

Cerca de trinta anos de escavações conduzidas pela equipa franco-marroquina desenterraram vértebras, dentes e fragmentos de mandíbulas humanas, cuja morfologia intrigou imediatamente os investigadores. Em particular, uma mandíbula “muito graciosa”, descoberta em 2008.

“Os hominídeos que viveram há meio milhão ou um milhão de anos não tinham, geralmente, mandíbulas pequenas. Aqui, era claramente algo invulgar. E perguntávamo-nos qual seria a sua idade”, recordou Hublin.

Diversas tentativas de datação revelaram-se infrutíferas. Até 2022, altura em que foi utilizado um método baseado na inversão da polaridade magnética da Terra.

Há 773 mil anos, o campo magnético terrestre inverteu-se. Até então, o pólo norte magnético estava próximo do pólo sul geográfico. Rochas de todo o mundo preservaram evidências dessa mudança.

Os fósseis na “Caverna dos Hominídeos” foram encontrados precisamente nas camadas correspondentes a esta inversão, permitindo uma datação “muito, muito precisa”, salientou Hublin.

Graças a esta datação, a “ausência de antepassados plausíveis” do Homo sapiens em África foi eliminada, acrescentou.

Embora o Médio Oriente seja considerado a principal rota migratória dos hominídeos que saíram de África, a descida do nível do mar em determinados períodos pode ter criado passagens entre a Tunísia e a Sicília, e através do Estreito de Gibraltar.

Estes fósseis são “mais uma evidência que suporta a hipótese de possíveis intercâmbios” entre o Norte de África e o Sudoeste da Europa, segundo Hublin.

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