Era o adeus à versão bienal da Taça das Nações Africanas, era um marco na Taça das Nações Africanas. Foi uma competição com momentos emocionantes, que motivou um aumento de 90% das receitas face a anos anteriores, que teve um acréscimo no total de patrocinadores, que conseguiu “vender” o produto para outros mercados televisivos que ainda não tinham sido explorados como a China, o Japão ou o Brasil. Tinha tudo para terminar da melhor forma num Estádio Moulay Abdellah cheio e com um ambiente incrível, com o anfitrião Marrocos a poder ganhar a CAN 50 anos depois e o Senegal à procura da segunda CAN em cinco anos. No final, depois de um longo período de descontos de 30 (!) minutos no tempo regulamentar antes de um prolongamento com mais meia hora, os Leões de Teranga fizeram a festa. No entanto, houve muito mais para contar… e a ser difundido um pouco por todo o mundo, com um impacto que tão cedo não será apagado.

Abandonaram o campo, voltaram e fizeram a festa no final: Senegal conquista CAN após penálti falhado por Marrocos aos 90+24′

Entre vários episódios de uma final com inúmeros casos insólitos, houve um que apareceu apenas depois da decisão mas que mostra bem o que se viveu em Rabat: quando Édouard Mendy regressou à baliza mais de 20 minutos depois da marcação da grande penalidade a favor de Marrocos que poderia decidir o jogo no tempo regulamentar, houve uma autêntica rábula em torno da toalha do guarda-redes senegalês, com o suplente do agora guardião do Al Ahli, Yehvann Diouf, a ter de controlar as incursões dos apanha-bolas e de elementos da organização para garantir que o número 1 conseguia manter a dita toalha durante o encontro. Mais um capítulo de uma partida que ficará na história por vários motivos e que valerá inúmeros castigos.

Mais do que os dez milhões de dólares de prémio final pela conquista da Taça das Nações Africanas, mais 43% do que na edição anterior, o Senegal festejava a vitória depois de 72 horas onde aconteceu de tudo um pouco. Ainda antes do encontro, a Federação de Futebol do país queixou-se da falta de segurança na chegada da equipa a Rabat, lamentou depois que tivesse de trocar de hotel pelas condições da unidade hoteleira que tinha sido indicada pela organização, teve problemas com o centro de treinos para fazer a última sessão de preparação para a final e ainda contou com problemas de intoxicações alimentares que afastaram jogadores como Pape Sarr da decisão (tendo mesmo de ser conduzido a unidade hospitalar este domingo). Em campo, a final ficou marcada pelo momento em que a equipa do Senegal decidiu abandonar o campo na sequência de um golo anulado e da marcação de um penálti a favor de Marrocos no período de descontos.

Brahim Díaz falhou (já lá vamos), o Senegal foi mais forte no prolongamento com um golo de Pape Gueye mas é nos castigos que se seguirão que entronca agora a principal dúvida tendo em conta que os senegaleses poderiam mesmo falhar a fase final do Campeonato do Mundo. Depois da saída de campo, a Federação do país incorre numa multa entre 50 a 100 mil euros e possibilidade de ter jogos à porta fechada, sendo que os jogadores, treinadores e respetivo staff podem ter sanções que cheguem a quatro a seis jogos de suspensão, o que faria com que todos os convocados não estivessem aptos para a fase de grupos do Mundial.

Lamentavelmente, assistimos a cenas inaceitáveis em campo e nas bancadas. Condenamos de forma enérgica o comportamento de alguns adeptos, assim como de jogadores e membros da equipa técnica senegaleses. É inaceitável abandonar o terreno de jogo desta maneira, da mesma forma como a violência não pode ser tolerada no nosso desporto”, apontou Gianni Infantino.

“Devemos respeitar sempre todas as decisões que são tomadas pelos árbitros dentro e foca de campo. As equipas devem competir em campo dentro das Regras do Jogo, porque qualquer outra coisa coloca em risco a essência do futebol. Também é responsabilidade das equipas e dos jogadores atuarem de forma responsável e darem o exemplo adequado aos adeptos nos estádios e aos milhões que nos veem no mundo. As lamentáveis cenas que presenciámos devem ser condenadas e não se podem voltar a repetir. Espero que os órgãos disciplinares da Confederação Africana de Futebol tomem as medidas apropriadas”, destacou ainda o líder da FIFA, que deixou muitos elogios ao rei Mohamed VI de Marrocos “pelo seu constante apoio ao futebol” e a Fouzi Lekjaa, líder da Federação de Marrocos, “pela sua liderança e compromisso com o futebol”.

Outra “teoria” que também sobrou da final da CAN esteve relacionada com a grande penalidade falhada por Brahim Díaz, jogador do Real Madrid que assumiu o pontapé decisivo mas acabou por deixar a bola nas mãos de Mendy com uma tentativa falhada de penálti à Panenka. As lágrimas nos olhos e a cara desolada diziam tudo sobre o sentimento do médio ofensivo mas as teorias de que poderia ter falhado de propósito para levar tudo para prolongamento e “abafar” a polémica não demoraram a aparecer… e a serem refutadas.

“Claro que não, temos de ser sérios. A sério que alguém acredita que estás a um minuto do final, com um país que esperava há 50 anos por este título e falhas assim? Ele queria marcar, eu tive o mérito de defender, só isso. O que dissemos uns aos outros no balneário quando saímos de campo? Isso fica entre nós, não temos de estar a contar. Tudo o que fizemos, fizemos em conjunto. Queríamos manter a dignidade e o orgulho, fizemos isso e fomos recompensados. Estou muito feliz porque sabia que era aquele jogo em que não teria muitas defesas para fazer mas ajudei a minha equipa nesse momento chave. Antes de cada penálti, falamos sempre com o Sadio [Mané]”, comentou o guarda-redes Mendy em declarações à BeIN Sports.

“Não quero falar dos incidentes, peço desculpa ao futebol. Aceitamos os erros do árbitro. Não devíamos ter feito aquilo e agora apresentamos as nossas desculpas. Depois de fazermos uma reflexão, decidimos voltar ao campo”, acrescentou Pape Thiaw, selecionador do Senegal, a propósito de um momento onde ficou claro que Sadio Mané foi o único elemento que se recusou a sair de campo. “Foi uma final épica e conseguimos as cores do Senegal ao nível mais alto do futebol africano. Quando lhes entreguei a bandeira nacional, confiei-lhes uma missão que cumpriram de forma brilhante. Contra todas as adversidades e com uma pressão imensa, tiveram uma batalha cheia de coragem, disciplina e solidariedade”, apontou Bassirou Diomaye Faye, presidente do Senegal, numa mensagem deixada na rede X após o encontro.

Do lado marroquino, sobrava sobretudo a frustração de ter estado a 11 metros de uma vitória procurada pelo país há 50 anos. “Temos de aceitar o fracasso para voltarmos mais fortes. Não me escondo atrás de nada, a responsabilidade é minha como treinador. É um momento duro, estávamos a um minuto de sermos campeões africanos. O futebol pode ser cruel… Os jogadores lutaram até à morte”, assumiu o selecionador Walid Regragui, que já tinha levado os Leões de Atlas ao quarto lugar no Mundial de 2022. Já na conferência de imprensa, voltando a assumir a responsabilidade, o técnico falou sobre o penálti falhado: “É o primeiro da nossa hierarquia mas a larga paragem conseguiu trazer desestabilização. Isso não justifica a forma como rematou. Agora não há nada a fazer, não podemos voltar atrás. O futebol pode ser cruel…”.