A morte de Pedro Ferraz Correia dos Reis, administrador português em Maputo, motivou uma petição pública lançada na tarde desta quarta-feira dirigida ao ministro dos Negócios Estrangeiros português e ao presidente da Assembleia da República.

No texto, que mais de 4.200 pessoas (às 23h) assinaram, é invocada a “incongruência das explicações” prestadas pelas autoridades moçambicanas para “exigir a intervenção do Estado Português neste caso, com vista a apurar a verdade dos factos e a proteger a família” do banqueiro de 52 anos.

“A investigação realizada pelas autoridades moçambicanas foi dada como concluída num curto espaço de tempo (horas), passando rapidamente da tese de homicídio a suicídio”, lê-se ainda. E a descrição do que se teria passado feita pelo Serviço Nacional de Investigação Criminal (Sernic) é igualmente questionada:

“A explicação de que o Pedro Ferraz Correia dos Reis ‘saiu do seu local de trabalho para ir a sua casa tirar uma faca da sua cozinha, deslocando-se, depois, a um estabelecimento comercial para adquirir mais duas facas, seguindo depois para outro estabelecimento comprar veneno para os ratos, para em seguida cometer suicídio num hotel’, é descabida e inimaginável”.

Finalmente, garante-se que “todos aqueles que tiveram o privilégio de privar com o Pedro Ferraz Correia dos Reis não acreditam que ele seria capaz de pôr termo à vida desta forma”.

A petição termina exigindo uma vez mais “que o Estado Português intervenha no sentido de apurar a verdade dos factos e honrar a memória do Pedro Ferraz Correia dos Reis. O seu percurso de vida e o respeito pela sua família tornam obrigatória uma intervenção por parte do Ministério dos Negócios Estrangeiros”.

As primeiras notícias que surgiram do caso, na terça-feira, apontavam para um homicídio. Pedro Ferraz Correia dos Reis tinha sido morto num hotel de luxo de Maputo, o Polana, na noite do dia 19. A polícia da República de Moçambique (PRM) disse à Lusa que se tratava de um assassinato. “Quanto às razões, são questões que só poderemos avançar depois da investigação que se está a fazer através do comando conjunto. Mas confirmo o caso”, disse Marta Pereira, porta voz da PRM, acrescentando que o crime aconteceu na segunda-feira, pelas 23h46, e que se tratou de “um homicídio voluntário”.

Mas algumas horas depois, o Sernic veio desmentir a PRM. “Não houve dúvidas, do trabalho feito pela equipa técnica do Sernic, em coordenação com a medicina legal do Hospital Central de Maputo, onde também estiveram presentes os magistrados do Ministério Público, de que não havia dúvidas nenhumas, até ao presente momento, de tratar-se de um caso de suicídio, não homicídio, conforme tem-se propalado”, disse Hilário Lole. “Tirou a sua própria vida por meio de instrumentos corto-perfurantes, facas, e uma substância vulgo Ratex, usada para matar ratos”, continuou o porta-voz do Sernic em conferência de imprensa.

Citou e mostrou imagens captadas por videovigilância para afirmar que o banqueiro usou uma faca que tirou da cozinha da sua casa e o Ratex que comprou num supermercado. “Saiu do BCI por volta da 14h00, primeiramente, dirigiu-se à cozinha da sua casa onde retirou uma faca e deslocou-se a um estabelecimento comercial onde teria adquirido mais duas facas que também foram encontradas no interior da sua viatura. Dirigiu-se a um outro estabelecimento comercial sito na Avenida Marginal, onde também adquiriu veneno para ratos”, descreveu. Foram “encontradas partes dessa substância no seu organismo, mediante aquilo [a] que foi feito exame médico legal”, referiu o porta-voz.

Depois, disse Hilário Lole, Pedro Ferraz Correia dos Reis foi para o hotel Polana, dirigiu-se diretamente para uma casa-de-banho onde se fechou e, apesar de ter ingerido o veneno para ratos, “desferiu vários golpes no pescoço, nos pulsos das mãos, coxas, e no peito perto do coração, com vários golpes”. (No vídeo da conferência de imprensa parece ouvir-se a palavra “costas”, o que tem sido muito questionado, mas numa escuta mais atenta percebe-se que disse coxas, apontando mesmo para essa parte do corpo; a imprensa moçambicana presente na encontro do porta-voz com os jornalistas tem escrito “costas” ou “coxas”. O porta-voz terá clarificado mesmo no decurso da conversa que se tratava das coxas, numa parte que não está no vídeo divulgado pelas televisões).

Texto atualizado às 23h20 do dia 22 de janeiro esclarecendo melhor a questão das “costas/coxas”.