Há cerca de 67.800 anos, alguém deixou a marca das suas mãos numa caverna na província Sulawesi, na Indonésia. Hoje, esse registo longínquo é reconhecido como a pintura rupestre mais antiga (conhecida) da humanidade, apesar de ter sido encontrada num local que é, paradoxalmente, um destino turístico bastante frequentado.
Scientists have identified a nearly 68,000-year-old hand stencil on the Indonesian island of Muna in the southeast of Sulawesi — the oldest cave art discovered anywhere to date.https://t.co/0PZMi3bZb0
— Science News (@ScienceNews) January 21, 2026
Trata-se do contorno vermelho de uma mão que, após a pintura original, foi retrabalhada: os dedos tornaram-se mais estreitos, adquirindo uma forma que pretende fazer lembrar uma garra. Este detalhe, que os investigadores responsáveis pela descoberta consideram intencional, é um dos aspetos mais relevantes da pintura. Além da simples silhueta da mão, observa-se um dos primeiros saltos da imaginação simbólica humana.
“O facto de o artista ter modificado o molde da mão — seja retocando o dedo com um pincel ou movendo a mão para criar um efeito semelhante a uma garra — mostra ‘um pensamento complexo'”, afirma Maxime Aubert, arqueólogo e geoquímico da Universidade de Griffith, na Austrália, que liderou uma equipa que percorreu cavernas da região e identificou 44 sítios de interesse arqueológico (14 dos quais eram completamente desconhecidos). “Eles estão a desenhar algo que não existe realmente”, frisa Aubert.
Os arqueólogos consideram ainda que a nova datação do uso da criatividade humana, retratada nas pinturas rupestres, reforça a hipótese de o Homo Sapiens ter chegado à Austrália cerca de 15 mil anos antes do que algumas teorias haviam defendido até agora. “Esta é a prova mais forte de que a nossa espécie estava presente no arquipélago indonésio naquela época e que transformou de forma divertida e criativa uma marca de mão humana noutra coisa”, explicou o arqueólogo Adam Brumm, também da Universidade Griffith e coautor do estudo publicado na quarta-feira na revista Nature, citado pela National Geographic.
A marca foi encontrada na gruta de Liang Metanduno, na ilha de Muna, integrada num conjunto de pinturas já conhecido por arqueólogos e rodeada por outras representações rupestres de cenas de caça, consideravelmente mais recentes. As evidências apontam para que os antigos humanos que habitavam estas ilhas asiáticas tenham feito das suas cavernas espaços de produção artística durante, pelo menos, 35 mil anos.
“Na verdade, essa caverna em particular é um destino turístico bastante conhecido, mas ninguém havia notado a presença de algumas impressões de mãos antigas e desbotadas até então”, observa Aubert.
Até há pouco tempo, o sudeste de Sulawesi permanecia largamente inexplorado do ponto de vista arqueológico, como atesta o estudo das Universidades de Griffith e de Southern Cross, na Austrália, em parceria com a Agência Nacional de Investigação e Inovação da Indonésia (BRIN), responsável pela descoberta.