O concurso de segunda época para a colocação de médicos de família no Serviço Nacional de Saúde deixou quase dois terços das vagas por ocupar. Dos 142 lugares disponíveis, apenas 50 foram ocupados, o que corresponde a apenas 35% do total de vagas. O número de colocados é ainda mais baixo do que no último concurso de 2ª época, revelam os dados da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), enviados ao Observador.
“Terminada a segunda época do concurso destinado à contratação de médicos recém-especialistas para as áreas de medicina geral e familiar (MGF) (…), informamos que foram ocupadas 50 vagas em MGF”, indica a ACSS, explicando que, no último concurso, aberto em 2024, tinham sido colocados 62 médicos especialistas em Medicina Geral e Familiar (mais 12 do que desta vez).
Mais uma vez, as disparidades regionais na taxa de preenchimento das vagas são significativas. Enquanto na região Norte a larga maioria dos lugares foram preenchidos (15 em 18), em Lisboa e Vale do Tejo (a zona que concentra a grande maioria dos utentes sem médico de família atribuído), mais de 70% dos lugares ficaram desertos. Nesta região, foram colocadas a concurso 84 vagas mas apenas 24 destas foram preenchidas, sendo que nove destes 24 especialistas ficaram alocados à Unidade Local de Saúde Amadora-Sintra, onde há quase 200 mil pessoas sem médico. Nesta ULS tinham sido abertas 12 vagas, sendo expectável que os médicos contratados possam dar resposta a cerca de 14 mil utentes.
Duas ULS com menor cobertura do país só atraíram 3 médicos
As duas ULS com maior percentagem de utentes sem médico de família (onde quase metade das pessoas não tem médico) — ULS do Oeste e ULS do Estuário do Tejo — abriram 13 vagas mas só conseguiram atrair três médicos (dois para a ULS do Oeste e um para o Estuário do Tejo), um resultado insuficiente para suprir as necessidades.
Na região Centro, o cenário não é melhor do que em LVT. Foram preenchidas apenas 8 das 29 vagas (cerca de 28% do total), sendo que nas duas ULS mais carenciadas — a da Guarda e a da Região de Leiria, que tinham 20 lugares disponíveis — só foram preenchidas quatro vagas. No Algarve, das três vagas a concurso, apenas uma foi ocupada e no Alentejo entraram apenas dois médicos, sendo que outras seis vagas ficaram por preencher.
Ainda assim, a ACSS realça “que a colocação destes 50 médicos recém-especialistas permitirá atribuir médico de família a pelo menos 77.500 utentes, 37.200 utentes na região de Lisboa e Vale do Tejo onde existe maior carência de profissionais”.
Para o bastonário da Ordem dos Médicos, os resultados deste concurso são “mais um falhanço” das políticas do governo para atrair médicos para o SNS. “Falhou em toda a linha este concurso. O SNS tem uma incapacidade crónica [de atração]”, lamenta Carlos Cortes.
Para a vice-presidente da Federação Nacional dos Médicos, Joana Bordalo e Sá, “o que estes números mostram é mais um falhanço claro de Luís Montenegro na gestão do SNS”. A dirigente sindical salienta que o concurso de 2ª época para a colocação de médicos de família abriu demasiado tarde (já no final de dezembro de 2025) e que não foram colocadas a concurso todas as vagas necessárias. “O concurso abriu tarde demais e, quando abriu, já era demasiado tarde para muitos médicos. E deviam ter aberto todas as vagas necessárias. Se tivessem aberto as vagas todas, teríamos mais médicos no SNS“, realça Joana Bordalo e Sá, acrescentando que as políticas do Governo fazem com que o SNS tenha “menos médicos de família e mais utentes sem médico”.
Também Carlos Cortes defende que os concursos deveriam ser abertos mais cedo e com o maior número de vagas possível, de forma a dar maior liberdade de escolha aos médicos, nomeadamente em zonas onde as vagas são normalmente todas preenchidas.
Bastonário dos Médicos acusa Governo de se “resignar perante a falta de médicos”
O bastonário da Ordem dos Médicos também critica a estratégia do Governo para o SNS, que, diz, é baseada em medidas de contingência, sem caráter estrutural. “As decisões do Ministério da Saúde sobre o SNS têm sido focadas em medidas de contingência, de resignação perante a falta de médicos. Isso é insuficiente, tem de haver medidas para atrair os médicos e para os manter”, defende Carlos Cortes, lembrando o pacote de 25 medidas de atração de profissionais para o SNS, que a Ordem dos Médicos apresentou em 2025 ao Governo e à Assembleia da República e que, lamenta o responsável, ainda não foi aplicado.
“Esse pacote tem medidas na vertente remuneratória, que são importantes, mas não as únicas: atualização da carreira médica, questões da formação, condições de trabalho, valorização de papel dos médicos, desenvolvimento de projetos dentro do SNS, maior flexibilidade. Este plano já foi apresentado há mais de um ano e não estamos a ver que nenhuma das medidas esteja a ser implementada“, critica Carlos Cortes, antecipando que os próximos concursos tenham, mais uma vez, “resultados insuficientes”.
Dos 50 médicos colocados nas vagas de MGF, 38 eram internos, “três possuíam contrato de prestação de serviços, um tinha contrato de trabalho com termo certo e oito não possuíam vínculo com o SNS”, acrescenta ainda a ACSS. O bastonário da Ordem dos Médicos realça que estes dados indicam a incapacidade do SNS de atrair médicos que estejam a trabalhar fora do sistema público. “Dos médicos que terminaram o período de formação, só dois terços escolheram o SNS. E este concurso só conseguiu captar 12 médicos de família que estavam fora do SNS”, salienta Carlos Cortes.
Joana Bordalo e Sá defende ainda que devem ser melhoradas as condições de trabalho dos médicos de família nos centros de saúde, bem como a vertente remuneratória. “As condições de trabalho têm de ser melhoradas, nos centros de saúde faltam luvas, falta papel. E depois muitos médicos de família acabaram por sair do SNS, indo para o setor privado, para a prestação de serviços e até para o estrangeiro, não por opção ideológica mas por necessidade”, garante.
O resultado do concurso de segunda época, que decorreu entre 18 e 29 de dezembro de 2025, é muito semelhante ao concurso de primeira época em termos de percentagem de preenchimento das vagas. Em junho, no primeiro concurso do ano, apenas 231 das 585 vagas (39% do total) foram ocupadas, naquele que foi o valor mais baixo de colocados num concurso de 1ª época desde 2021.
Neste concurso de segunda época, foram ainda ocupadas 15 das 17 vagas existentes para Saúde Pública.
O número de utentes sem médico de família atribuído voltou a aumentar em dezembro de 2025, à semelhança do que já tinha acontecido nos meses anteriores. Assim, no final do ano de 2025, havia 1.563.710 utentes a descoberto, uma subida de cerca de 6 mil pessoas sem médico em relação ao mês de novembro, mostram os dados do Bilhete de Identidade dos Cuidados de Saúde Primários.
Nota: notícia atualizada às 17h40 com as reações da Ordem dos Médicos e da Federação Nacional dos Médicos