O número de utentes sem médico de família voltou a aumentar em maio para os 1.645 milhões, segundo os dados disponíveis no portal dos Cuidados de Saúde Primários. Confirma-se, assim, a tendência de crescimento deste indicador que se regista desde o início de 2025. Desde que a atual ministra da Saúde tomou posse pela primeira vez, em abril de 2024, há agora mais 79 mil utentes sem médico atribuído (um aumento de 5%).
A juntar a estes dados, somam-se os resultados do concurso para a contratação de médicos de família, cujos resultados foram conhecidos esta segunda-feira, e que deixou mais de 60% das vagas por preencher. O número de médicos colocados — 231 — é mesmo o mais baixo dos últimos quatro anos, o que leva o presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, que representa estes especialistas, a alertar que o número de utentes sem médico vai aumentar. “A situação vai agravar-se a médio prazo“, diz ao Observador Nuno Jacinto.
Em maio de 2025, cerca de 1,645 milhões de utentes não tinham médico atribuído, mais cerca de 11 mil pessoas do que em abril e mais 51 mil utentes do que em março. Depois de uma tendência de decréscimo neste indicador que se verificou entre agosto e dezembro do ano passado, o cenário inverteu-se a partir de janeiro: desde aí e até maio de 2025, há mais 81 mil pessoas sem médico atribuído.
Número de utentes sem médico está a aumentar desde janeiro
Ao mesmo tempo que tem aumentado o número de utentes sem médico, tem também crescido o número de inscritos nos centros de saúde. Desde abril de 2024 até maio de 2025, os inscritos passaram de 10.355 milhões para 10.580 milhões, ou seja, mais 225 mil pessoas. Nesse período e apesar de até se ter registado uma melhoria no número de utentes com médico atribuído (mais 145 mil), o esforço dos serviços dos centros de saúde não foi suficiente dado o volume de novas inscrições, havendo agora mais 79 mil utentes sem médico atribuído.
A situação mais crítica continua a ser a da região de Lisboa e Vale do Tejo, onde 30% da população não tem médico de família atribuído (são mais 1,1 milhões de utentes). No Algarve, 20% dos utentes (cerca de 429 mil pessoas) não têm médico. Segue-se o Alentejo, com 409 mil pessoas a descoberto (18% do total), a região Centro com 11% dos utentes sem médico de família (205 mil utentes) e a região Norte, onde apenas 3% da população está sem médico (113 mil pessoas).
E existe o receio de que a situação se possa deteriorar ainda mais. No concurso nacional para a colocação de médicos recém-formados em Medicina geral e Familiar (MGF), cujos resultados foram conhecidos esta segunda-feira, o número de médicos colocados é mesmo o mais baixo dos últimos quatro anos. Foram postas a concurso 585 vagas mas apenas 231 (39% do total) foram ocupadas, segundo os dados enviados ao Observador pela Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS).
Em 2024, tinham sido preenchidas 255 vagas num total de 904 lugares abertos no concurso normal (o primeiro do ano). Em 2023, foram colocados 314 médicos de família nesta fase, tendo sido abertas 978 vagas. Em 2022, foram preenchidas 272 vagas.
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Número de médicos colocados é o mais baixo em quatro anos
O presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF) está preocupado com os resultados do concurso deste ano. “Os resultados não são bons, vemos os números com grande preocupação. Continuamos a falhar o recrutamento dos recém-especialistas e continuamos sem capacidade de os atrair na medida que queríamos”, critica Nuno Jacinto, alertando que a tendência, a médio prazo, vai ser de aumento do número de utentes sem médico atribuído.
“A situação vai agravar-se a médio prazo. A curto prazo, vamos conseguir ter mais 400 mil utentes com médico aproximadamente. O problema é que daqui a seis meses, vamos lamentar-nos de que estaremos pior do que agora”, antecipa o presidente da APMGF. Isto porque, realça, se nos anos anteriores — em que foram colocados mais especialistas — o problema de cobertura piorou, no início de 2026 acontecerá o mesmo.
“Nos anos anteriores, 300 entradas não foram suficientes [para fazer diminuir o número de utentes sem médico], este ano com 230 entradas muito menos”, avisa Nuno Jacinto, reforçando que as consequências serão visíveis no início de 2026. “O panorama não é animador“, vaticina.
Este ano, o concurso para contratação dos médicos recém-formados voltou a ser centralizado pela ACSS, depois de ano passado se terem registado vários atrasos quando o Ministério da Saúde decidiu atribuir às várias Unidades Locais de Saúde a responsabilidade pela colocação dos médicos. Em setembro de 2024, muitos dos concursos ainda decorriam, o que levou a tutela a voltar ao sistema antigo no que diz respeito à MGF.
O concurso de primeira época agora concluído até foi mais rápido do que no ano passado e foi também um dos mais céleres dos últimos anos — mas nem por isso gerou melhores resultados no que diz respeito à quantidade de médicos colocados. Foram apenas 231, um número baixo em relação ao total de médicos que concluíram a especialidade em março (389) e que poderiam ter sido recrutados pelo SNS.
Ministério da Saúde não abriu todas as vagas, uma decisão muito contestada
Este ano, a ACSS não abriu todas as vagas necessárias para responder às longas listas de utentes sem médico de família, ao contrário do que tinha acontecido em 2023 (na última vez em que o concurso foi centralizado). Esta opção tem sido alvo de duras críticas. “Não faz sentido não colocarmos todas as vagas a concurso. No Alentejo, por exemplo, houve vagas que não foram abertas. Onde haja utentes à espera da atribuição de um médico de família, essas vagas devem ter sido colocadas a concurso“, defende Nuno Jacinto, dando o exemplo do concurso de 2023, em que foram abertas todas as vagas (978, quase o dobro deste ano) e em que foram colocados 314 médicos (muito mais do que este ano).
“Não podemos andar a selecionar vagas”, reforça Nuno Jacinto, acusando a tutela de não ter explicado porque decidiu não abrir todas os lugares. “Não temos nenhuma explicação para esta seleção. Voltámos a insistir num modelo errado, nunca demos oportunidade de se consolidar o modelo de colocar todas as vagas, como em 2023”, referiu.
Em 2025, foram 412 os médicos a apresentar candidaturas mas só foram preenchidas 231 vagas, já vez que muitos especialistas concorreram em zonas onde já existe uma elevada cobertura de médicos (nomeadamente nas regiões Norte e Centro), e onde foram abertas poucos lugares. Não é expectável que médicos que não conseguiram ser colocados nas ULS que pretendiam estejam disponíveis para concorrer a outras vagas no concurso de época especial que se seguirá, diz Nuno Jacinto. “Estamos a perder os recém-especialistas. Os colegas acabam por ir para o privado, para trabalho de prestação de serviços, para a investigação”, elenca o responsável.
Também a Ordem dos Médicos se insurgiu contra a opção do Governo. “O Ministério da Saúde, ao não abrir concursos nas regiões carenciadas, empurra médicos para fora do SNS, comprometendo o acesso das populações a cuidados primários de saúde”, disse o bastonário dos médicos, Carlos Cortes, num comunicado enviado às redações, em que critica também a falta de capacidade do SNS para atrair os jovens médicos de família. “É inaceitável que existam utentes sem médico de família e, em simultâneo, especialistas em medicina geral e familiar sem colocação. Este é um problema de gestão, não de recursos”, sublinhou.
Segundo a Ordem, a situação da Medicina Geral e Familiar “atingiu um ponto crítico”, em que a “resposta pública permanece marcada pela inação e por falhas gritantes na colocação de especialistas disponíveis”. Também o Sindicato Independente dos Médicos criticou a falta de abertura de todas as vagas necessárias, alegando que a liberdade de escolha, aliada a condições atrativas, é o que fixa médicos no SNS e “não a imposição administrativa”. Já a Federação Nacional dos Médicos considera que o Ministério da Saúde devia ter aberto cerca de mil vagas para médicos de família, alertando que abrir menos reduz a probabilidade de haver candidatos.
Nas zonas onde havia muitos lugares a concurso, sobretudo a sul do Tejo, o número de vagas que acabaram por ficar desertas voltou a ser elevado no concurso — uma realidade que se tem vindo a repetir ao longo dos últimos anos. Segundo os dados enviados ao Observador pela ACSS, foram abertas vagas em 34 das 39 ULS do país.
Reportagem. Porque é que nuns locais todos têm médico de família e noutros não?
Região de Lisboa e Vale do Tejo deixou mais de 230 vagas por preencher
A região de Lisboa foi a que deixou mais lugares por preencher. Nesta região foram abertas 341 vagas e ocupadas apenas 106 (31,1% do total). Na análise por ULS percebe-se que, dentro desta região, o caso mais crítico continua a ser o da ULS do Estuário do Tejo (que engloba os concelhos de Alenquer, Arruda dos Vinhos, Azambuja, Benavente e Vila Franca de Xira). Nesta ULS, foram colocadas a concurso 37 vagas e nenhuma foi ocupada. Esta é já a ULS com pior cobertura do país: 48% dos utentes (mais de 115 mil pessoas não tem médico atribuído).
Noutras ULS com alta proporção de utentes sem médico, o número de vagas ocupadas ficou muito aquém daquelas que foram disponibilizadas. Na ULS do Oeste por exemplo (onde 47% dos utentes não tem médico), foram preenchidas 11 das 20 vagas. Já na ULS do Arco Ribeirinho, que abarca os concelhos de Alcochete, Barreiro, Moita e Montijo, apenas foram ocupadas 14 das 50 vagas. Nesta ULS, 40% dos utentes não tem médico. Noutra ULS com grandes dificuldades em dar resposta na área dos cuidados de saúde primários — Amadora-Sintra — foram ocupadas apenas 16 das 46 vagas. Nesta zona um terço da população não tem médico (cerca de 190 mil pessoas).
Mesmo as maiores ULS da região de Lisboa tiveram dificuldades em atrair médicos. A ULS de Santa Maria preencheu 7 das 33 vagas e a de São José apenas 11 dos 40 lugares que tinha disponíveis. Só a ULS de Lisboa Ocidental (que abrange também os centros de saúde dos concelhos de Oeiras e Cascais, zonas onde habitualmente é mais fácil preencher vagas e onde não há falta de médicos) conseguiu um melhor desempenho no concurso, ao assegurar 20 médicos de entre as 23 vagas que tinha.
Mas se Lisboa só conseguiu preencher 31% das vagas, outra região teve um resultado ainda pior: no Alentejo, só foram colocados 10 médicos, sendo que tinham sido abertas 58 vagas. Na ULS do Alto Alentejo, que abrange o distrito de Portalegre, ficaram por ocupar todos os 12 lugares colocados a concurso. Na ULS do Litoral Alentejano, onde cresceu muito o número de inscritos (muito devido à imigração), foram abertas 26 vagas mas só foram colocados três médicos.
No Algarve, foram colocadas a concurso 34 vagas e colocados apenas 13 médicos (38% do total).
Já a região Centro, que tem vindo a revelar cada vez mais dificuldades em garantir cobertura a toda a população, preencheu apenas 52% das vagas (55 em 105). A situação mais delicada é a da ULS da Região de Leiria (que tem 110 mil pessoas sem médico, 27% do total) e que, neste concurso, preencheu apenas 23 das 48 vagas. Na ULS de Castelo Branco, outra zona muito carenciada, foram ocupadas apenas 2 dos 13 lugares.
Sem surpresa, a região Norte (onde apenas 3% da população se encontra a descoberto) preencheu todas as 47 vagas disponíveis. Para se ter uma ideia do nível de cobertura existente, a ULS de São João tinha apenas duas vagas disponíveis, a ULS de Gaia/Espinho uma e a ULS de Santo António nenhuma.
Governo promete incentivos para captar médicos. “Sem isso, é esperar um milagre”, diz a APMGF
Ou seja, nas regiões onde não há dificuldades de resposta a facilidade em colocar médicos é maior; nas zonas mais carenciadas, o cenário é o inverso, criando um círculo vicioso negativo em regiões como Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve. Mas como captar então os especialistas para estas zonas mais carenciadas? A APMGF defende que é há muito que é necessário criar incentivos que transcendam a dimensão financeira e que abarquem também áreas como o apoio à habitação e à família.
O Governo assumiu, no programa que passou no Parlamento, a intenção de “definir, nas zonas mais carenciadas do País, um novo conjunto de incentivos para atração e fixação de profissionais de saúde, em articulação com as autarquias locais”, nomeadamente no que diz respeito à “habitação a custos reduzidos, subsídios de deslocação, apoio familiar com acesso garantido a creches e escolas, e valorização da carreira profissional com acessos preferenciais à formação e progressão”.
Para Nuno Jacinto, as medidas são positivas, mas é preciso perceber “qual o valor e durante quanto tempo seriam aplicadas”, um fator importante para dar estabilidade aos novos médicos que se queiram deslocar para regiões do interior, por exemplo. “As vagas nestas zonas têm de ter uma discriminação positiva a nível salarial, de horário, no tamanho das listas de utentes. O que tem sido feito até agora é colocar a vaga a concurso e esperar por um milagre”, lamenta o presidente da APMGF.
O Observador questionou o Ministério da Saúde sobre o que falhou no mais recente concurso para a colocação de médicos de família recém-especialistas e sobre quando estará disponível o pacote de incentivos mas não obteve resposta.
Para as vagas que ficaram por preencher, o Ministério da Saúde está a preparar um despacho para autorizar as ULS a contratar diretamente os médicos de família, à semelhança do que aconteceu em 2024. “Haverá uma segunda do concurso em novembro e até lá a lei prevê que as ULS possam contratar”, disse Ana Paula Martins, em declarações à CNN. Trata-se de um mecanismo de contratação direta, em articulação com a Direção Executiva do SNS.