Acabou de ser libertada da prisão a luso-venezuelana Carla da Silva, informou fonte oficial do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Estava condenada por conspirar para derrubar o Governo então liderado pelo Presidente Nicolás Maduro. “O Ministério dos Negócios Estrangeiros está a acompanhar o caso e em contacto com a família. Estava condenada a mais de 20 anos de prisão, dos quais já tinha cumprido cerca de 5 anos”, declarou o MNE na noite deste domingo em nota enviada aos jornalistas.
Carla Rosaura da Silva Marrero estava na prisão desde 5 de maio de 2020, mas a condenação só chegou quatro anos depois. O excesso de prisão preventiva levou a ONG Foro Penal (FP) a pedir a sua libertação, em outubro de 2023. “Carla da Silva é uma das presas políticas na Venezuela. Foi detida arbitrariamente em 5 de maio de 2020, e encontra-se em ‘El Helicoide’ [prisão em Caracas], lugar do qual tanto se conhece porque vários presos políticos estão aí (…). Em conformidade com a nossa lei, deveria estar em liberdade, porque ninguém pode estar mais de três anos privado da liberdade preventivamente”, explicou o diretor da ONG.
A condenação foi conhecida apenas em maio de 2024, num tribunal de Caracas. Carla foi então condenada a uma sentença a 21 anos de prisão pelos crimes de conspiração e associação para cometer crimes na “Operação ‘Gedeón'” — em que estava em causa um alegado golpe de Estado e uma tentativa de assassinato de Maduro. A luso-venezuelana cumpria pena no Instituto Nacional de Orientação Femenina (INOF) desde 27 de setembro, depois de ter sido transferida de outro estabelecimento prisional.
Lusodescendente condenada a 21 anos de prisão por tentar derrubar governo da Venezuela
A ativista agora detida foi condenada juntamente com outras 28 pessoas (militares e civis) por conspiração. A sentença foi conhecida depois de uma audiência de mais de 15 horas, em que foram acusados outros crimes: traição, conspiração, rebelião, tráfico de armas de guerra, associação para cometer crimes e financiamento de terrorismo. Vinte dos acusados foram condenados a 30 anos de prisão.
Através de um vídeo partilhado nas redes sociais, Miriam Marrero, mãe de Carla da Silva, defendeu que a filha era “uma presa política sequestrada pelo regime”. “Na minha casa há um lugar vazio na mesa, na cama, e quando acordo pela manhã não posso dar os bons dias à minha filha, nem a bênção, porque foi sequestrada, torturada”, disse a professora de filosofia num vídeo divulgado em 2023. Acrescentou que Carla da Silva denunciou ter sido torturada por três funcionários das Forças de Ações Especiais (FAES).
Carla Da Silva, Lic en administración, luso-venezolana, privada de libertad con fines políticos desde el 05/05/2020.
Venezuela#LiberenACarla#LiberenALasPresasPoliticas pic.twitter.com/7YeRb8kU5i— Foro Penal (@ForoPenal) February 18, 2024
Segundo a imprensa venezuelana, citada na altura pela agência Lusa, Carla da Silva foi detida durante uma festa infantil na qual terá conhecido uma mulher que teria alegadamente participado, dois dias antes, na Operação Gedeón. Acabou levada por agentes das FAES para ser interrogada, ficando impossibilitada de regressar a casa. Só depois de 20 dias é que os familiares tiveram conhecimento do seu paradeiro e que estaria detida. Depois de ter sido detida, foi torturada durante dois dias, sendo espancada quando estava amarrada e com um saco de plástico na cabeça. O seu telemóvel ainda foi inspecionado e a jovem submetida a um teste do polígrafo.
O calvário de Carla chegou, aparentemente, ao fim, no mesmo dia em que “pelo menos 80 presos políticos” foram libertados de prisões na Venezuela, revelou a ONG que durante anos expôs as condições da luso-venezuelana. A FP enaltece o avanço no processo de libertação de detidos, que tem decorrido de forma lenta e sob a pressão de Washington. “Pelo menos 80 presos políticos, cujos casos estamos a verificar, foram libertados hoje em todo o país. É provável que ocorram outras libertações”, escreveu o diretor da Foro Penal, Alfredo Romero, numa publicação na rede social X.
Al menos 80 presos políticos que estamos verificando han sido excarcelados el día de hoy en todo el país. Probablemente se producen más excarcelaciones.
— Alfredo Romero (@alfredoromero) January 25, 2026