Sete anos depois de transformar os corredores do Museu Picasso, em Paris, em passerelle, Simon Porte Jacquemus voltou a fazê-lo, com uma coleção que leva o nome de um estilo de cabelo popular nos anos 1980, o rabo de cavalo “Le Palmier”. O convite para o desfile vinha com um pente e as instruções para chegar ao apanhado perfeito — o visual necessário para ter acesso às festas mais badaladas da capital francesa naquela década. Um tema que evidencia as origens do designer, que dias antes nomeou a própria avó, Liline Jacquemus, de 79 anos, como a primeira embaixadora da marca. Em 2026, a galeria do museu transformou-se numa mansão para uma festa luxuosa, em que os modelos subiam e desciam escadas e passeavam pelos corredores, dividindo o espaço com os quadros nas paredes e o público que assistia das cadeiras posicionadas lado a lado, formando um ambiente intimista. Liline, inspiração para Simon desde a infância, assistiu a tudo da primeira fila. “A mensagem é: que seja divertido. É uma obsessão minha este ano. Quero que todos se divirtam, não se levem tão a sério“, disse o designer, minutos antes do desfile, citado pela WWD.

Talvez por isso a decisão de fechar com um look inspirado em Paloma Picasso, a filha do célebre pintor espanhol, quando foi fotografada por Helmut Newton em Saint Tropez em 1984. A coleção — masculina e feminina — traz ainda silhuetas esculturais, emprestadas da alta costura, com cintura marcada e ombros volumosos, e saias ajustadas que terminam com folhos que revelam a cor do forro a cada movimento. Os tecidos foram dos clássicos pretos e brancos, passando pelo bege, o animal print, tons pastel em amarelo, verde e rosa, até as transparências e os padrões às bolas. Há ainda acessórios chave que celebram ícones da cultura francesa que serviram de inspiração para a coleção, como os chapéus gigantes que já são clássicos da marca; mas também que marcam a irreverência e dão o tom divertido, como a mala em formato de ovelha ou as gravatas compridas vestidas ao contrário.

Tal como em outras edições, Jacquemus fechou uma Semana da Moda masculina de Paris marcada por grandes espetáculos, como a apresentação de Willy Chavarria, a estreia da portuguesa Ernest W. Baker, mas também pela despedida de Véronique Nichanian da Hermès depois de 38 anos à frente das coleções masculinas da maison. Antes de ser ovacionada por cinco minutos no fim do desfile no Palais Brongniart, Verónique apresentou uma coleção clássica e atemporal, que respeita os códigos da casa e a sua história na Hermès. Alfaiataria informal, peles, tricots, sobretudos e bomber jackets, peças para serem usadas sobrepostas e numa paleta sóbria mas colorida, com tons como o azul, ameixa, amarelo e o laranja. “Não há nostalgia. Estou feliz e orgulhosa de mim mesma. Trabalhei muito, e com paixão. Criei o estilo do homem Hermès, com linhas simples, e sou honesta comigo mesma. Amo brincar com os tecidos e a casa deu-me muita liberdade para criar. Faço o que é melhor para mim e para o homem Hermès. Vou direta ao ponto, e nunca mudo de opinião”, disse Nichanian sobre a praticidade da coleção, citada pelo WWD. A partir de 2027 é a jovem Grace Wales Bonner a assinar o universo masculino na Hermès, marcando uma nova era para a tradicional casa de moda francesa.

O inverno colorido de Dries Van Noten e Amiri

É a segunda coleção de Julian Klausner pela Dries Van Noten, e a cor continua bastante presente, tal como a proposta para o verão. Mas agora os tecidos finos como as sedas deram lugar às lãs e malhas, com padrões às listas, florais e paisley, sobrepostas com alfaiataria clássica, como sobretudos cinzentos ou blazers oversize. As sedas, entretanto, também estão presentes em camisas e calças com padrões, que dividem a passerelle com casacos de pele, gorros e luvas, revelando “aquele momento frágil entre ser um homem jovem e tornar-se adulto”, diz Klausner nos bastidores, em declarações à WWD. “Um homem jovem a sair de casa, a fazer a mala com as peças que ama, com o casaco do avô e o blazer da infância”, descreve o designer que já trabalha há oito anos na maison, mas assumiu a direção criativa depois de o fundador ter decidido deixar o cargo em 2024. As sobreposições e misturas de padrões e texturas podem parecer quase excessivas, se não fosse o respeito pela paleta de cores diversa mas harmoniosa, que preza pelos tons queimados, como o vermelho, o laranja, o verde e o azul.

A explosão de cores e texturas continua na coleção da norte-americana Amiri, fortemente inspirada no estilo californiano dos anos 1970, mais especificamente em Laurel Canyon, o reduto de nomes da música folk como Jim Morrison e Frank Zappa. Dos padrões paisley às franjas e as botas cowboy, as calças compridas levemente abertas na parte de baixo são uma peça central — que dão movimento e alongam a silhueta — e aparecem combinadas com fatos clássicos, jaquetas em pele e casacos de veludo. A combinação clássica do vermelho queimado e o rosa claro está muito presente assim como os bordados e aplicações brilhantes e metálicas nas golas, laterais e na parte de trás dos casacos. Destaque ainda para as camisas em tecidos fluidos e usadas por dentro das calças, ajustadas com cinto com fivela.

Sacai, Kiko Kostadinov e Dior: construir e desconstruir

A inspiração da Sacai em Muhammad Ali está nas paredes partidas do Le Carreau du Temple e nas peças — como uma T-shirt preta com a imagem do lutador a dar um golpe, que foi combinada com uns calções de boxe. “O que estás a pensar é o que te estás a tornar”, lê-se do lado de trás, uma das frases emblemáticas do boxeador. “Queria expressar poder suficiente para partir um muro, pensar fora da caixa. Queria uma declaração de liberdade”, disse  a designer Chitose Abe, fundadora da marca de luxo japonesa, citada pela WWD. Numa paleta predominantemente em pretos e brancos, a coleção masculina foi apresentada em conjunto com a feminina, em coordenados que misturam ambas, quebrando também a barreira do género. O design é muito focado nos casacos compridos e nas calças com uma espécie de kilt sobreposta. Os tecidos foram das peles às gangas, incluindo peças florais e o xadrez, havendo espaço também para os padrões geométricos e a combinação de texturas — frutos das parcerias como a com a gigante Levi’s. As gravatas usadas mais soltas, por fora da gola, também dão o tom rebelde e de liberdade que inspira a coleção.

Se Chitose Abe foi pela destruição, o búlgaro Kiko Kostadinov segue pelo caminho da construção, influenciado pelo arquiteto neerlandês e monge beneditino Hans van der Laan, figura de culto na arquitetura pós-guerra. O resultado são peças geométricas, casacos com dobras que parecem origamis, camisas e túnicas com mangas curvas, tecidos sobrepostos e drapeados, numa paleta de cores muito sóbria, entre os pretos, cinzas e cremes, mas incluindo alguns coordenados mais vibrantes em amarelo e vermelho. Ainda no mesmo tema vem Jonathan Anderson e a sua reconstrução da Dior. Inspirado na alta costura do século XX de Paul Poiret, o irlandês recupera os códigos da maison, como a Bar Jacket, mas com a cintura subida, tal como o fez na coleção feminina apresentada há uns meses. Aliás, a coleção volta a escancarar a ausência de fronteiras entre géneros, com peças com cortes mais femininos e até vestidos, além de tecidos brilhantes e lantejoulas, também inspirações no trabalho do costureiro francês que ia buscar referências do Norte de África, do Médio Oriente e do Leste Asiático. Também lá estão os tweeds, veludos e jacquards, que dividem espaço com gangas desbotadas, malhas e peles.