Três horas para chegar a Leiria a partir de Lisboa durante a manhã. Comunicações por telefone e até internet que só chegaram depois das duas da tarde. O impacto como se fosse o de uma “bomba” no centro da cidade, segundo o presidente da câmara, Gonçalo Lopes. Uma roçadora gigante a derrubar árvores e painéis publicitários até lá chegar : “Não há 200 metros sem uma árvore caída”. Este era o retrato da destruição na cidade leiriense após a passagem da tempestade Kristin que provocou quatro mortes na região.

“Toda a cidade foi afetada. Por todas as ruas que passámos de carro, não há uma que tenha ficado intacta”, contava de manhã Nuno Serra Fernandes, diretor técnico da Rádio Observador, que teve de correr para Leiria sabendo que a infraestrutura que suporta a antena através da qual é emitida a Rádio Observador “caiu” com o vento, uma situação que está ainda a ser resolvida.

“Não há 200, 300 metros de estrada sem uma árvore caída no chão, cabos caídos no chão, trânsito tem de se fazer de forma alternada”, descreveu Serra Fernandes, contando que nesse percurso de entrada e saída da cidade de Leiria, havia bombeiros a dirigir-se para a cidade, brigadas da GNR e PSP, e equipas apetrechadas com motoserras para desimpedir as estradas, limpando os destroços. “Entrar e sair de Leiria é complicado”, resumia, num relato já a partir de Torres Novas, local onde conseguiu alguma rede para fazer um retrato do que se passa naquela região do país.

Isto porque, além de toda a destruição, a cidade estava incomunicável, sem rede móvel e fixa. E também sem que se pudesse pagar, nas bombas de gasolina, o combustível com multibanco, que estavam fora de serviço. “Em Óbidos e na Nazaré só aceitam dinheiro, mas não havia muitos carros”.

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“Muitas árvores caídas pelas estradas secundárias, telhas no chão, numa povoação perto de Leiria, Arrabal, um telhado completo de uma casa caído no chão”. Outra descrição de Nuno Serra Lopes, o coordenador técnico da Rádio Observador, que demorou cerca de uma hora e meia para entrar em na cidade esta manhã.

Pedro Jorge Castro, diretor-adjunto do Observador, chegou a Leiria ainda de noite. A viagem pela A1 foi tranquila até sair em Fátima rumo a Leiria por uma estrada secundária que ditou o fim do acesso à internet e se tornou numa verdadeira “corrida de obstáculos”. “Via-se dezenas de postes caídos, postes de eletricidade, placas de sinalização, árvores, muitas árvores caídas no chão”, relatou. Também os outdoors, muitos deles da campanha para as eleições presidenciais, desapareceram.

Com o aproximar do centro da cidade já se via sinais de movimentação. Já com a expectativa de se ficar pelo menos dois dias sem eletricidade, muitos acorriam aos supermercados. “Via-se os supermercados iluminados, abertos, com muita gente (…), as pessoas estão preocupadas, estão a tentar abastecer-se dos bens mais essenciais”, explicava em direto o diretor-adjunto do Observador. Sem eletricidade ou internet, houve quem, já durante a manhã, se juntasse nas esplanadas vazias dos cafés fechados para conviver.

O único ponto da cidade com rede era junto ao quartel dos bombeiros, que também sentiu os efeitos da tempestade. “Ao redor de todo o edifício há vidros caídos no chão, há estilhaços”, relatou Pedro Jorge Castro. Foi nesse quartel que se realizaram durante o dia as conferências de imprensa encabeçadas pelo presidente da Câmara de Leiria. O autarca, adiantou o diretor-adjunto do Observador, quis reunir todos os presidentes da junta e, por isso, foi de carro de freguesia a freguesia — ainda são umas dezenas — para os ir buscar e fazerem juntos um balanço da situação. “Para lá da tragédia, o que nos impressiona a todos é pensar o que teria sido isto se tivesse sido durante o dia”.

Uma equipa de reportagem acabou por partir mais tarde, cerca do meio-dia, para Leiria. Já viu uma zona mais limpa, mas só até Óbidos. “A partir da zona de Óbidos, sensivelmente, pela A8, viam-se árvores caídas na estrada no sentido norte-sul e três a quatro carros de equipas a tirarem os ramos. As árvores que estão de pé estão tortas (como se estivessem em itálico)”.

E depois, piorava. “O pior foi na Estrada Nacional 109, depois de sair da autoestrada e antes de se chegar a Leiria. Tudo destruído. Postos de eletricidade, placas de sinalização/trânsito todas tortas, telhas no chão e as estruturas metálicas que servem de telhado de armazéns voaram e estavam no chão ou presas pelos postes de luz que serviram de barreira e impediram que ainda voassem mais”. Quando chegaram à cidade, uma das primeira visões foi “o último andar do LISOTEL: estava destruído, como se fosse um piso completamente abandonado”.

A população continuava a acorrer aos supermercados. Quando a equipa do Observador se dirigia aos bombeiros de Leiria, por exemplo, passou por grupos de pessoas que vinham do supermercado com vários garrafões de água, uns atrás dos outros.

[Esta é a história de como dezenas de portuguesas se juntaram a mulheres de vários outros países e se tornaram seguidoras de uma seita controlada por um guru manipulador. Recrutadas numa escola de yoga em Lisboa, muitas acabaram em casas de massagens eróticas ou a serem filmadas em cenas de sexo e orgias. “Os segredos da seita do yoga” é o novo Podcast Plus, do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]