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Este é o som do Quente e Frio, todos os dias, de segunda a sexta, depois das 16h, com a Filomena Martins. Filomena, muito bem-vinda.
Olá, Vicente.
E agora sim, Filomena, bem-vinda.
Pronto. Olá, Vicente. Agora sim.
Vamos fazer a pergunta que não quer calar. Se este calor de ananases, vou chamar-lhe assim, vai mesmo continuar ou vem algum ventinho mais fresquinho que dava algum jeito, Filomena?
Vamos dizer que sim. A partir de amanhã, as temperaturas vão cair bastante, entre quatro e nove graus em vários pontos do país. Podem chegar aos 10°. Vai ser uma mudança abrupta, muito repentina. Vem também algum ventinho, aquele que estás a pedir para quarta-feira, que não vai ajudar nada os incêndios. E estas quedas de temperatura vão ser acentuadas mesmo em alguns sítios. Leiria é um dos exemplos mais expressivos. A máxima cai nove graus, dos 34 para os 25. Coimbra também são nove graus, dos 35 para os 26. Santarém vai passar dos 38 para os 30, uma queda de oito graus neste caso. E Lisboa, seis graus, dos 35 para os 29. Viseu, dos 34 para os 30. São muitos os exemplos. Nalgumas zonas a descida continua até na quarta-feira. Bragança, por exemplo, terá ainda 34 amanhã, mas desce para 25 na quarta.
Quase 10° de descida.
São os tais nove. E na Guarda, dos 30 passamos para 24 na quarta. Castelo Branco também amanhã ainda vai estar muito quente, 37, e depois serão 31 na quarta. Mas há uma exceção importante aqui, que é engraçada, que no Algarve, Faro faz o caminho contrário amanhã. A máxima sobe para os 31, depois para os 35 e depois desce para 32 na quarta e para 26 na quinta.
Está o Algarve com dificuldades em despedir-se do verão.
Sim.
Resta saber se vamos mesmo mudar, Filomena, para o tempo de outono, se ele já está aí.
Pois, isso é que não. Vou dizer-te que não. Nada disso.
Ainda vai, talvez.
Esta descida vai durar pouco. É uma espécie de pausa para a semana de trabalho. Durante a semana está mais fresquito.
Estão a haver permissões para siestas, digamos.
Exatamente. A partir de sexta-feira e sobretudo durante o fim de semana, os termômetros voltam a subir e nalguns locais quase tão depressa como desceram. Leiria é outra vez o melhor exemplo, depois de chegar aos 24 na quarta, volta aos 34 no sábado e aos 35 no domingo. São 11 graus de subida.
É uma rainha das amplitudes aqui em Leiria.
E Coimbra também, dos 26 terça passamos para 34 no sábado e 36 no domingo. E Lisboa, depois dos 26 de quarta, que é o dia mais fresco desta semana, vai chegar aos 34 no sábado e aos 35 no domingo. E Braga, para chegarmos lá acima, passa dos 28 desta quarta para 33 no sábado e 35 no domingo.
No interior, presumo que seja mais quente, um pouco.
Sim, no interior está sempre quente, não vai baixar muito dos 30, mas Santarém chega aos 36 no sábado e 37 no domingo, Évora volta aos 35 no sábado e aos 36 no domingo, Beja vai estar com 34, 35. Portanto, é uma semana em que há uma mudança muito rápida nas quedas, que chegam aos oito ou nove graus, e alguns dias depois, no fim de semana, vai haver uma recuperação que vai chegar aos 10, 11 graus. Outras duas coisas só para acompanhar, a temperatura da água do mar, sobretudo no Algarve, onde por causa do afloramento costeiro, que é aquelas águas que vêm lá do fundo e vêm para cima, vai descer muito os valores, portanto os banhos se calhar estão mais fresquinhos, e para as tais poeiras do Norte de África, do Saara, que poderão chegar ao continente ainda hoje e amanhã, terça e depois quarta.
Certamente vai fazer-se sentir.
Para quem estiver a limpar as janelas e a lavar os carros.
Vai chegar ao carro e vai ter sujo, "limpa-me", qualquer coisa assim escrita no vidro do carro. Vamos ao fenômeno e é engano meu ou este ano ainda não houve assim um daqueles furacões, Filomena?
Nada.
Nada.
Não estás enganado, estás certíssimo. Estamos em meados de setembro. Já passámos a altura em que, estatisticamente, a época dos furacões no Atlântico costuma atingir o pico e não houve um único furacão. Houve cinco tempestades tropicais desde o início da época. Nenhuma conseguiu chegar a furacão, nem grande, nem pequeno. Zero. É tão invulgar que 2026 acaba de bater o recorde desta era dos satélites para o aparecimento mais tardio do primeiro furacão no Atlântico. O recorde anterior era partilhado em 2012 e 2013. Nesses dois anos foi preciso esperar por 11 de setembro, uma data fácil de se fixar, em que apareceu o Gustav em 2002 e o Humberto em 2013. E este ano já vamos a 14 de setembro e continuamos à espera do primeiro.
Resta esperar então que não vai ter. Também é sempre um exercício engraçado.
É o primeiro sempre, está definido. Por acaso eu não sei qual é de cor.
Deve começar por A, com toda a certeza.
Diz.
Podemos chamar-lhe Aida, se quisermos, mas vamos continuar nós. O que se passa? O mar não está tão quente como dizem e acaba por ser um contrassenso, sendo que estamos a falar do aquecimento das águas.
Não, este é até um aparente paradoxo, mas fácil de explicar. O Atlântico está quente, está muito quente, e não falta água quente para alimentar um furacão ou estes sistemas. Só que a água quente só por si não faz um furacão. Este ano há um El Nino do outro lado, um El Nino muito forte, e uma das consequências é haver condições particularmente desfavoráveis no Atlântico. Uma delas, talvez mais importante, chama-se wind shear. São diferenças importantes na velocidade ou na direção do vento entre diferentes altitudes. E um furacão precisa de conseguir organizar-se na vertical. Se os ventos em altitude forem demasiado fortes, podem inclinar e desorganizar a tempestade antes de ela conseguir crescer, que é o que está a acontecer. Além disso, tem havido ar seco e movimentos descendentes na atmosfera, em regiões importantes para a formação destes sistemas, que se formam sempre ali, para ficares a saber, para quem não saiba, entre o Senegal e Cabo Verde. Todos os furacões nascem ali. E, portanto, o resultado é que até agora é muito simples, são cinco tempestades tropicais, zero furacões e zero grandes furacões. Isto não significa Que a época tenha terminado e que não vão acontecer, porque oficialmente só acaba a época a 30 de novembro e o Atlântico está, de facto, muito quente pra permitir a formação de furacões, se as restantes condições atmosféricas o permitirem. Portanto, a pergunta é: quanto mais tempo vai o Atlântico passar assim limpinho, sem furacões este ano?
Vamos também à curiosidade do Quente e Frio de hoje. Filomena, e se a guerra estiver a criar zonas onde não é possível fazer observação da atmosfera?
E está. A guerra entre a Rússia e a Ucrânia tem uma batalha que não se vê, que é esta interferência nos sinais dos satélites de navegação. Chama-se GNSS Jamming. É um novo estudo, que apareceu agora, que sugere que isto pode ter uma consequência inesperada. Estamos a perder essas observações da atmosfera. E isto é mais importante do que parece, porque os sinais dos satélites GPS não servem apenas pra dizer onde é que nós estamos. Quando eles atravessam a atmosfera, sofrem alterações para que outros satélites consigam medir dados e a partir daí, retiremos informações sobre a temperatura, a pressão, a umidade da atmosfera. A técnica chama-se radioocultação GNSS, quando estão sobre esses pontos de guerra, e esses dados depois são utilizados pra prever o tempo e para monitorizar o clima. Quando alguém interfere deliberadamente com os sinais de navegação, essas medições deixam de ser utilizadas. Os investigadores dizem que o efeito não vai ficar necessariamente limitado à zona da guerra, porque encontraram uma perda sistemática de observações que se estende pra além da região do conflito. E há uma preocupação a mais longo prazo. Se durante muito tempo desaparecerem sistematicamente medições das mesmas regiões, vão ficar buracos nas séries de observação da atmosfera e esses erros podem tornar-se suficientemente importantes pra afetar até o cálculo das tendências de temperatura. Há também uma ressalva importante. Este estudo não é ainda definitivo, não passou pela revisão dos pares, mas revela uma consequência que se calhar não é muito óbvia desta guerra, que interferir com um simples sinal de GPS, pode parecer simples no solo, pode acabar por retirar depois informação a um satélite que está a centenas de quilômetros de altitude e que usamos para observar o tempo e o clima e para fazer as previsões que dizemos aqui todos os dias.
São os efeitos quase nunca indiretos, quase todos os efeitos da guerra são sempre diretos. Filomena Martins, no Quente e Frio desta segunda-feira, com a promessa de baixa de temperaturas nos próximos dias, mas de forma temporária, porque ainda não está para chegar o outono. Um abraço, Filomena.
Até amanhã.