Primeiro Jennifer Capriati, agora Rafa Nadal, pelo meio os incontornáveis Mats Wilander e John McEnroe no papel de comentadores do Eurosport. Estrelas não faltam em Melbourne neste primeiro Grand Slam da época, com um especial destaque para o espanhol que terminou há pouco tempo a carreira e que chegava à Austrália para a “Noite das Lendas”, que mais não seria do que um tributo especial ao segundo jogador com mais vitórias em Majors e que ganhou ali por duas ocasiões (2009 e 2022). De forma inevitável, o espanhol falou ao site oficial da prova sobre a final masculina entre Carlitos Alcaraz e Nova Djokovic. Sem ponta de saudade, com muito respeito, admitindo que seria justo que ambos ganhassem, com um “favorito” óbvio.

A fénix renasceu para evitar novo capítulo da rivalidade da moda: Djokovic bate Sinner e vai defrontar Alcaraz na final do Open da Austrália

“A parte da minha vida a jogar acabou mas claro que estará sempre no meu coração. Agora estou com um mindset completamente diferente, muito mais relaxado, sem pressão nenhuma. Vai ser um prazer poder ver a final ao vivo, não estou num jogo profissional há algum tempo. Agora só quero desfrutar de nova grande batalha a um nível de ténis altíssimo”, apontou. “Tive uma história incrível com o Novak, foram muitos anos a competir por grandes objetivos. É um exemplo positivo de compromisso, resiliência. Por razões óbvias já não está no seu topo mas é muito competitivo e tem todo o crédito por chegar à final com esta idade. Já o Carlos é do meu país. Tenho uma relação boa com ele, fizemos juntos os Jogos Olímpicos. Se o Novak ganhar, ficarei feliz por ele porque o que está a fazer neste ponto da carreira é espectacular. Mostra enorme paixão pelo jogo. Mas se tiver de torcer por alguém, claro que vou apoiar o Carlos”, acrescentou Rafa Nadal.

A final masculina do Open da Austrália iria sempre atrair um interesse acima do normal pelo mundo. Era assim, seria sempre assim. A partir do momento em que Carlitos Alcaraz conseguiu uma recuperação épica frente a Alexander Zverev, evitando uma remontada do alemão que a perder por 2-0 em sets chegou a estar a servir para ganhar no quinto e último parcial, mais interesse gerou. A partir do momento em que Djokovic teve a capacidade de virar um parcial desfavorável de 2-1 em sets para voltar a uma decisão em Melbourne afastando Jannik Sinner qual Fénix renascida, ainda mais interesse gerou. O El País falava em “dois corpos que saíram amachucados”. “Sei que amanhã vou acordar dorido…”, dizia o espanhol. “Biologicamente, acho que para ele será um pouco mais fácil recuperar”, comentava o sérvio. Mas, apesar de tudo, era uma final.

Segredos da recuperação? Dormir o máximo e o melhor possível, fazer banhos de gelo, passar mais tempo do que é habitual nas massagens, perder algum tempo nos exercícios de recuperação, aumentar o número de pickle juices, essa bebida que será boa para acelerar o restabelecimento e evitar cãibras. No entanto, havia algo tão ou mais importante: a parte mental. E era também por aí que poderia surgir a decisão da final.

Alcaraz chegava ao Open da Austrália pronto para fazer história, podendo tornar-se o mais novo de sempre a ganhar os quatro Grand Slams tendo um histórico de seis vitórias em sete finais (duas em Roland Garros, duas em Wimbledon e duas no US Open, perdendo apenas uma decisão de Wimbledon no ano passado com Sinner). Mas este não era um torneio qualquer, tendo em conta a separação de Juan Carlos Ferrero, o seu treinador de sempre, para a aposta em Samu López, que também já o conhecia. Acima da possibilidade de ganhar o único Major que lhe faltava, o espanhol de 22 anos estava apostado em mostrar que esse virar de página tinha sido ponderado e que não causaria mossa na carreira em crescendo até ao momento. Principal obstáculo? Ele e o seu corpo, tendo em conta os vómitos e depois as cãibras que condicionaram o jogo frente a Alexander Zverev sobretudo a partir do terceiro set (com muitas críticas do jogador alemão).

Já Djokovic era talvez o jogador que tinha menos para mostrar em Melbourne mas que mais queria mostrar em Melbourne. Depois de dois anos em que a dupla Alcaraz-Sinner dominou por completo o circuito mundial a nível de Grand Slams, o sérvio de 38 anos regressava a uma final do Open da Austrália três anos depois na edição em que talvez menos se apostasse que lá conseguisse chegar. Houve quase uma conjugação cósmica para desenhar este regresso épica às grandes decisões mas o jogador também fez por isso, aproveitando todo o trabalho na sombra que foi fazendo quando os holofotes estavam centrados no espanhol e no italiano para superar obstáculos, contar com a “sorte” da lesão de Musetti quando estava encostado às cordas nos quartos e dar tudo na meia-final frente a Sinner. Agora, estava muito próximo de uma histórica 11.ª vitória em Melbourne, aquele que seria também o 25.º Grand Slam da carreira para se isolar ainda mais nos maiores entre todos os maiores. Principal obstáculo? Ele e o seu corpo, tendo em conta a idade e a natural dificuldade em recuperar para nova batalha 48 horas depois mesmo tendo menos um jogo que Alcaraz.

Havia também uma outra curiosidade a juntar ambos. Os primeiros triunfos de Carlos Alcaraz mereceram um especial destaque pelas mudanças no serviço que tinha feito. Mais: era nesse gesto que estava uma das grandes armas este ano na Austrália. Pormenor? Todos comparavam a pancada como se tivesse sido tirada de um mestre chamado… Novak Djokovic. “Tenho muita margem de melhoria. O serviço está a funcionar bem, com uma percentagem alta, e isso faz-me sentir confortável. O mais importante é ter boas sensações, mas ainda há coisas a afinar. Quero encontrar uma mecânica mais fluida e natural”, comentou. “Assim que vi o novo serviço dele, enviei-lhe uma mensagem. Disse-lhe ‘Temos de falar sobre os direitos de autor’. Quando o vi aqui, disse-lhe que também tínhamos de falar sobre a percentagem dos ganhos. Cada ás que ele fizer, espero que me renda homenagem”, atirou o sérvio. “Quando se vê os dois serviços lado a lado, percebe-se que são parecidos. O Novak serve muito bem e o gesto dele sempre me agradou,mas não foi algo copiado”, defendeu o espanhol. Agora, a arma que um foi buscar ao outro estava em confronto… dos dois lados.

O histórico entre ambos era equilibrado, com Djokovic a ter cinco triunfos contra apenas quatro de Alcaraz. No Open da Austrália, na única vez que se defrontaram (no ano passado), o triunfo foi para o sérvio. Em finais do Grand Slam, ambas em Wimbledon, a vitória foi para o espanhol. Em decisões, aí, havia um total empate, com o balcânico a equilibrar as derrotas na relva londrina com vitórias em Cincinnati (naquele que e considerado um dos melhores encontros de sempre a três sets) e nos Jogos Olímpicos de Paris. Agora, houve menos história mas um definitivo virar de era: com Rafa Nadal a aplaudir nas bancadas e Djokovic a não poder fazer muito mais do que dar a bênção em court, Alcaraz conquistou pela primeira vez o Open da Austrália, ganhou o sétimo Grand Slam da carreira e tornou-se o mais novo de sempre a vencer os quatro Majors tendo apenas 22 anos, sendo que com essa idade o recordista sérvio tinha ganho… apenas um.

Novak Djokovic começou a servir e, ao contrário do que acontecera com Sinner, segurou o seu serviço com grande autoridade, permitindo que Alcaraz entrasse apenas num ponto. Na resposta, o espanhol fez também a diferença mas a partir do serviço, ou com ases, ou com winners logo a seguir à resposta. O sérvio seguiu a cadência: bons serviços, esquerdas paralelas, grande confiança no seu jogo. A história do jogo estava a ser escrita pela eficácia dos serviços até que no quarto encontro Alcaraz fez a sua primeira dupla falta, teve o seu primeiro break salvo com um amortie fantástico, evitou ainda uma outra vez a perda do serviço mas já tinha Djokovic a dominar o andamento dos pontos, com o sérvio a fazer o break, a confirmar depois o 4-1 e a ir em busca de novo break logo de seguida, não conseguindo confirmar um 0-30 perante um Alcaraz à procura de confiança no jogo que não evitou um jogo em branco para o 5-2. O sérvio sentia que estava a dominar por completo e quis fechar de imediato o primeiro set, fazendo novo break cedendo apenas um pontos.

Djokovic ganhava em três campos chave: 93% de pontos ganhos no primeiro serviço, menos de metade de erros não forçados (9-4) e 46% de pontos conseguidos no serviço do espanhol. Ainda era cedo mas Alcaraz já começava a ficar encostado às cordas, até pelos sinais de ansiedade que começava a deixar. O número 1 do mundo precisava de encontrar respostas onde só via problemas, levando o primeiro jogo de serviço logo às vantagens com uma melhor adaptação ao jogo central do sérvio, fazendo o 1-1 em branco e conseguindo os dois primeiros pontos de break no terceiro jogo, quebrando com uma grande resposta a um serviço volley que forçou depois o erro. O momentum tinha passado por completo para Alcaraz, que ainda teve de salvar um ponto de break para o 3-1 mas que fechou o segundo set com mais um break para o 6-2. Os números tinham mudado por completo, com Djokovic a fazer apenas 50% de pontos no primeiro serviço, mais do dobro de erros não forçados (11-5) e três vezes menos winners (9-3) no segundo parcial.

Djokovic foi ao balneário quase respirar fundo para procurar ainda uma forma de reentrar na partida, Carlos Alcaraz ficou no court a perguntar ao árbitro o porquê de estarem a fechar o teto (que não aconteceu na sua totalidade) quando não havia previsão de chuva ou vento. Até se poderia pensar que o espanhol ficara um pouco “desconcentrado” com essas dúvidas mas bastou chegar o primeiro jogo no serviço de Djokovic, que foi às vantagens, para se perceber que continuava focado naquilo que tinha de fazer. O sérvio ainda esboçou uma reação mostrando argumentos que até aí tinham ficado de fora mas a dinâmica do espanhol continuava a ser um rolo compressor no court, alternando bem pontos mais compridos com bolas em força para fechar em menos pancadas e agarrando-se ao serviço para se manter por cima e conseguir depois o break que faria toda a diferença no 3-2, onde Djokovic cometeu demasiados erros e fez apenas um ponto apesar da veia guerreira que permitiu evitar quatro set points no seu serviço antes de Alcaraz fazer mesmo o 6-3 entre um aviso duro do árbitro de cadeira a dizer que quem se manifestasse durante os pontos ia para a rua…

Para se ter noção da longevidade de Djokovic, o sérvio ganhou o seu primeiro Grand Slam na Austrália em 2008 quebrando uma série de 11 Majors consecutivos para Roger Federer e Rafa Nadal e queria chegar ao 25.º (11.º em Melbourne) em 2026 depois de oito vitórias seguidas de Jannik Sinner e Carlos Alcaraz. No entanto, o corpo de 38 anos começava a ceder em definitivo, com a ida de uma médica à cadeira perante as queixas do sérvio. Quase como uma Last Dance com aparentes poucas possibilidades de sucesso, Djokovic tentou ligar o instinto de sobrevivência para salvar seis break points logo no arranque para o 1-1 (o que puxou ainda mais pelos milhares de sérvios nas bancadas ou no complexo de Melbourne). A partida estava a entrar numa fase que o sérvio parecia querer segurar os seus serviços até encontrar uma brecha para passar para a frente, nem que fosse no tie break. Ainda teve um set point no serviço de Alcaraz para o 6-4, não resistiu depois ao jogo de serviço que começou com um ponto com 24 pancadas e perdeu por 7-5.