Aryna Sabalenka estava a servir no nono encontro do segundo set quando apareceu a mensagem nos ecrãs da Rod Laver Arena: “No final da partida, as duas jogadoras não se irão cumprimentar. Por favor, respeitem”. A edição deste ano já tivera casos em que esse gesto acabou por ser incompreendido pelo público, que esquece os motivos que levam à decisão e assumem que é apenas um gesto de mau perder, e a organização optou por prevenir em vez de “remediar”. Conseguiu. Tal como tinha acontecido no início da primeira meia-final do Open da Austrália no quadro feminino, aí naquela habitual fotografia que é tirada com o árbitro quando é atirada a moeda ao ar, Elina Svitolina voltou a recusar cumprimentos ou proximidades com a bielorrussa Aryna Sabalenka como tem feito com todas as jogadoras russas que defronta. A número 1 “aceita” isso.

Durante o encontro, que terminou com uma vitória natural de Sabalenka por claros 6-2 e 6-3 e onde Svitolina apenas esteve por cima no arranque do segundo parcial ao fazer o break, o respeito pelo “jogo” voltou a estar presente, com pelo menos uma ocasião no segundo set em que a jogadora ucraniana, perdendo um ponto bem trabalhado pela adversária, fez o gesto de aplauso com a mão na raqueta. Svitolina, que desde que teve início a invasão da Rússia ao seu país tem um registo particularmente positivo com jogadoras russas ou bielorrussas (até este encontro, 12-2), teve uma semana e meia ao mais alto nível, fez prevalecer toda aquela perseverança de quem é a tenista que necessita de mais presenças para chegar pela primeira vez a uma meia-final em Melboune (13) mas não teve hipóteses contra uma Aryna Sabalenka cada vez melhor. Ainda assim, até no final do encontro se começou a gerar uma nova polémica pelo “f*** you” que a jogadora bielorrussa soltou após o último ponto sem que se percebesse quem poderia ser o destinatário da mensagem embora tudo aponte para que fosse para a árbitra de cadeira, com quem teve um desaguisado durante o jogo.

Se esta era apenas a quinta vez na Era Open em que as quatro tenistas nas meias-finais do Open da Austrália chegavam a esta fase sem conceder qualquer set, agora o desequilíbrio foi ainda maior do que se podia prever na teoria. Ainda assim, e dentro dos objetivos tangíveis, ambas tiveram a sua conquista: Elina Svitolina, que teve um final de temporada mais precoce na última temporada, voltará a entrar no top 10 do ranking WTA, ao passo que Aryna Sabalenka se tornou a primeira jogadora desde Martina Hingis nos últimos 30 anos a alcançar por quatro anos consecutivos a final do primeiro Grand Slam da temporada.

Os registos históricos de Sabalenka, que antes vencera Titi Rakotomanga Rajaonah (6-4 e 6-1), Zhuoxuan Bai (6-3 e 6-1), Anastasia Potapova (7-6 com 7-4 e 7-6 com 9-7), Victoria Mboko (6-1 e 7-6 com 7-1) e Iva Jovic (6-3 e 6-0), não ficaram por aqui. De acordo com a base estatística OptaAce, a bielorrussa ficou mais próxima de Steffi Graf e Evonne Goolagong no top das jogadoras com mais finais em Melbourne sem ceder qualquer set (4-3) e tornou-se a terceira jogadora a chegar a sete ou mais finais femininas do Grand Slam em piso rápido depois de Steffi Graf e Martina Hingis. Entre tudo isso, Sabalenka já é a jogadora com mais finais de Majors este século (oito), ficando apenas atrás de Serena Williams (11) e Justine Henin (dez).

“Não consigo acreditar que tudo isto está a acontecer, é mais um grande objetivo cumprido. A Elina foi uma adversária muito complicada, esteve a jogar muito bem nestas duas semanas”, comentou a bielorrussa ainda no court após o triunfo. E o que poderia pensar a Aryna Sabalenka de dez anos sobre os feitos da Aryna Sabalenka de 27 anos? “Não sei… Acho que nunca pensaria que conseguisse chegar aqui. Espero que ela estivesse orgulhosa de mim”, atirou de forma mais emocionada, antes de descontrair e falar um pouco do que irá fazer até à decisão. “Talvez recuperar, jantar com a minha equipa, voltar a ver Netflix”, contou, antes de admitir que está há muito para continuar a ver a segunda temporada do Homeland (“Segurança Nacional”) com o namorado mas que o calendário não tem dado tréguas. Mais uma jogadora que passa tempo de folga na plataforma de streaming, tal como Carlos Alcaraz que está a ver “Stranger Things”.

Madison desbloqueou as chaves da eternidade: Keys impede tri de Sabalenka e conquista primeiro Grand Slam

Seguia-se a outra meia-final, que todos apontavam que poderia ser mais rápida embora com um previsível maior equilíbrio. Elena Rybakina, cazaque de 26 anos que surgia como quinta cabeça de série e que teve uma semana e meia incrível que culminou com o triunfo sobre Iga Swiatek a 7-5 e 6-1, procurava a segunda final no Open da Austrália depois da derrota em 2023 com Sabalenka, atingindo esse objetivo com um triunfo frente a Jessica Pegula, sexta cabeça de série que eliminara a campeã em título e compatriota Madison Keys, por 6-3 e 7-6 (7) numa partida onde dois terços dos pontos tiveram menos de quatro pancadas que teve a norte-americana a salvar três match points antes de acabar por cair nas vantagens do tie break.

Este será o 15.º encontro entre Sabalenka e Rybakina, com uma ligeira vantagem para a bielorrussa com oito vitórias e seis derrotas. Olhando apenas para Grand Slams, este será apenas o terceiro jogo entre ambas depois dos triunfos da número 1 mundial em Wimbledon (2021) e na final do Open da Austrália de 2023. No entanto, a cazaque já mostrou que pode bater a bielorrussa em decisões, como aconteceu em Indian Wells (2023), Brisbane (2024) e na última final do WTA Finals (2025), o derradeiro encontro entre ambas.